{"id":3066,"date":"2026-09-11T07:24:48","date_gmt":"2026-09-11T10:24:48","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=3066"},"modified":"2026-09-11T16:44:26","modified_gmt":"2026-09-11T19:44:26","slug":"como-se-deu-a-origem-da-filosofia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3066","title":{"rendered":"Como se deu a origem da filosofia?"},"content":{"rendered":"<p>A filosofia ocidental costuma ser situada na Gr\u00e9cia antiga, sobretudo entre os s\u00e9culos VII e VI a.C., mas sua origem n\u00e3o pode ser entendida simplesmente como o momento em que algu\u00e9m, de maneira repentina, \u201cinventou\u201d o pensamento racional. O nascimento da filosofia foi um processo hist\u00f3rico e cultural complexo, no qual diferentes formas de explicar o mundo \u2014 religiosas, m\u00edticas, pol\u00edticas, po\u00e9ticas e racionais \u2014 coexistiram, dialogaram e, em alguns momentos, entraram em conflito. A tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica posterior chamou esse processo de passagem do <em>mythos ao logos<\/em>, mas essa express\u00e3o precisa ser utilizada com cuidado: os primeiros fil\u00f3sofos gregos n\u00e3o abandonaram de uma hora para outra os mitos nem viveram em um mundo completamente separado da religi\u00e3o.<\/p>\n<p>Antes da filosofia, os gregos j\u00e1 possu\u00edam formas sofisticadas de compreender a exist\u00eancia. Os poemas de Homero e Hes\u00edodo, por exemplo, apresentavam narrativas sobre a origem dos deuses, dos seres humanos e da ordem do mundo. Na <em>Teogonia<\/em>, Hes\u00edodo procura narrar a genealogia dos deuses e, ao faz\u00ea-lo, oferece tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de narrativa sobre a constitui\u00e7\u00e3o do cosmos. O mundo n\u00e3o era percebido como algo sem ordem: havia for\u00e7as, rela\u00e7\u00f5es e princ\u00edpios que procuravam explicar por que as coisas eram como eram. O que come\u00e7ar\u00e1 a mudar com os chamados fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos ser\u00e1 sobretudo a maneira de formular determinadas perguntas e de buscar suas respostas.<\/p>\n<p>A filosofia surge, portanto, dentro de uma sociedade que j\u00e1 possu\u00eda conhecimentos religiosos, t\u00e9cnicos, matem\u00e1ticos e pol\u00edticos. A Gr\u00e9cia dos s\u00e9culos VII e VI a.C. estava passando por importantes transforma\u00e7\u00f5es. O crescimento das cidades-Estado, o com\u00e9rcio mar\u00edtimo, a coloniza\u00e7\u00e3o de diferentes regi\u00f5es do Mediterr\u00e2neo, o contato com povos como eg\u00edpcios e babil\u00f4nios e as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das <em>p\u00f3leis<\/em> ampliaram o horizonte intelectual dos gregos. A experi\u00eancia de entrar em contato com diferentes costumes, leis, cren\u00e7as e formas de organiza\u00e7\u00e3o social tamb\u00e9m poderia provocar uma pergunta fundamental: se os povos vivem de maneiras t\u00e3o diferentes, o que existe de necess\u00e1rio e universal por tr\u00e1s dessa diversidade?<\/p>\n<p>\u00c9 nesse ambiente que aparece uma nova atitude diante da realidade. Em vez de perguntar apenas qual deus ou qual for\u00e7a divina produziu determinado acontecimento, alguns pensadores come\u00e7aram a procurar aquilo que poderia explicar a natureza a partir da pr\u00f3pria natureza. Surge ent\u00e3o a investiga\u00e7\u00e3o sobre a <em>physi<\/em>s, palavra grega geralmente traduzida como \u201cnatureza\u201d, mas que possui um significado mais amplo: refere-se ao processo de surgimento, crescimento e constitui\u00e7\u00e3o das coisas. O fil\u00f3sofo passa a perguntar de que as coisas s\u00e3o feitas, como surgem, como se transformam e se existe algum princ\u00edpio fundamental que permane\u00e7a por tr\u00e1s das mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>\u00c9 nesse contexto que encontramos Tales de Mileto, tradicionalmente considerado o primeiro fil\u00f3sofo da tradi\u00e7\u00e3o ocidental. Tales viveu provavelmente no s\u00e9culo VI a.C., em Mileto, cidade da J\u00f4nia, na \u00c1sia Menor. A tradi\u00e7\u00e3o atribui a ele a afirma\u00e7\u00e3o de que a \u00e1gua seria o princ\u00edpio fundamental de todas as coisas. Independentemente de aceitarmos literalmente essa tese, sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica est\u00e1 na tentativa de encontrar um princ\u00edpio (<em>arch\u00e9<\/em>) capaz de explicar a multiplicidade do mundo sem recorrer exclusivamente \u00e0s genealogias divinas. O interesse passa a estar na estrutura da realidade e na possibilidade de compreend\u00ea-la racionalmente.<\/p>\n<p>Depois de Tales, Anaximandro prop\u00f4s que o princ\u00edpio de todas as coisas n\u00e3o poderia ser simplesmente um elemento determinado, como a \u00e1gua. Ele chamou esse princ\u00edpio de <em>\u00e1peiron<\/em>, aquilo que \u00e9 ilimitado ou indeterminado. Anax\u00edmenes, por sua vez, identificou o princ\u00edpio com o ar. Essas teorias podem parecer, hoje, especula\u00e7\u00f5es muito distantes da ci\u00eancia moderna, mas representam uma mudan\u00e7a decisiva: a natureza passa a ser tratada como algo que pode ser investigado e discutido por meio de argumentos.<\/p>\n<p>\u00c9 importante perceber que a filosofia n\u00e3o nasceu como uma ci\u00eancia pronta. Os primeiros fil\u00f3sofos n\u00e3o possu\u00edam os instrumentos experimentais e os m\u00e9todos cient\u00edficos contempor\u00e2neos. O que aparece \u00e9 uma nova forma de interroga\u00e7\u00e3o. O mundo deixa de ser apenas aquilo que se conta em uma narrativa tradicional e passa tamb\u00e9m a ser aquilo sobre o qual se pode argumentar. A pergunta filos\u00f3fica n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u201cqual \u00e9 a hist\u00f3ria que explica isso?\u201d, mas \u201cpor que isso \u00e9 assim?\u201d e \u201cque raz\u00f5es podemos apresentar para sustentar essa explica\u00e7\u00e3o?\u201d.<\/p>\n<p>Outro elemento fundamental foi o desenvolvimento da vida pol\u00edtica das cidades gregas. A <em>p\u00f3lis<\/em> criou um espa\u00e7o no qual a palavra p\u00fablica, o debate e a argumenta\u00e7\u00e3o adquiriram import\u00e2ncia crescente. Como observa Jean-Pierre Vernant, a constitui\u00e7\u00e3o da cidade grega esteve relacionada a uma transforma\u00e7\u00e3o das formas de pensamento: a ordem do mundo e a ordem da cidade passaram progressivamente a ser objetos de discuss\u00e3o p\u00fablica e racional (VERNANT, 2002). A experi\u00eancia pol\u00edtica, portanto, n\u00e3o explica sozinha o nascimento da filosofia, mas contribuiu para formar um ambiente no qual argumentar, convencer e justificar posi\u00e7\u00f5es se tornaram pr\u00e1ticas socialmente relevantes.<\/p>\n<p>A palavra tamb\u00e9m ganhou um novo estatuto. O <em>logos<\/em>, que pode significar palavra, discurso, raz\u00e3o ou argumento, passou a ocupar um lugar central. Isso n\u00e3o significa que o <em>mythos<\/em> simplesmente desapareceu. Na realidade, os primeiros fil\u00f3sofos continuaram utilizando imagens, met\u00e1foras e formas po\u00e9ticas. Her\u00e1clito escreveu de maneira afor\u00edstica e enigm\u00e1tica; Parm\u00eanides apresentou sua filosofia em forma de poema. A novidade est\u00e1 menos na elimina\u00e7\u00e3o do mito do que na exig\u00eancia crescente de que uma afirma\u00e7\u00e3o sobre a realidade pudesse ser examinada, confrontada e defendida por meio de raz\u00f5es.<\/p>\n<p>Com Pit\u00e1goras e os pitag\u00f3ricos, por exemplo, os n\u00fameros e as rela\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas passaram a desempenhar um papel fundamental na compreens\u00e3o do cosmos. Her\u00e1clito refletiu sobre a mudan\u00e7a, o conflito e a unidade dos contr\u00e1rios. Parm\u00eanides colocou em quest\u00e3o a pr\u00f3pria possibilidade de pensar o devir e sustentou que aquilo que verdadeiramente \u00e9 n\u00e3o pode simplesmente deixar de ser. Dem\u00f3crito e Leucipo formularam uma explica\u00e7\u00e3o segundo a qual a realidade seria constitu\u00edda por \u00e1tomos e vazio. A diversidade dessas respostas revela algo essencial: filosofar significava entrar em um espa\u00e7o de investiga\u00e7\u00e3o no qual diferentes explica\u00e7\u00f5es podiam ser propostas e criticadas.<\/p>\n<p>Por isso, talvez seja mais adequado falar n\u00e3o de uma \u00fanica \u201corigem da filosofia\u201d, mas de um processo de forma\u00e7\u00e3o de uma determinada atitude intelectual. Essa atitude envolve o espanto diante do mundo, a disposi\u00e7\u00e3o para questionar aquilo que parece evidente, a procura por princ\u00edpios explicativos e, sobretudo, a disposi\u00e7\u00e3o para submeter as pr\u00f3prias ideias \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o. S\u00e9culos depois, Arist\u00f3teles associaria o nascimento da filosofia ao <em>thaum\u00e1zein<\/em>, o espanto ou admira\u00e7\u00e3o diante da realidade. No in\u00edcio da <em>Metaf\u00edsica<\/em>, ele afirma que os seres humanos come\u00e7aram a filosofar por causa da admira\u00e7\u00e3o, inicialmente diante de dificuldades mais imediatas e posteriormente diante de quest\u00f5es cada vez mais abrangentes (ARIST\u00d3TELES, <em>Metaf\u00edsica<\/em>, I, 2, 982b).<\/p>\n<p>Com S\u00f3crates ocorre outra transforma\u00e7\u00e3o importante. A investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica come\u00e7a a se voltar de maneira mais expl\u00edcita para quest\u00f5es humanas: o que \u00e9 a justi\u00e7a? O que \u00e9 a coragem? O que significa viver bem? O que \u00e9 o conhecimento? O que \u00e9 uma vida boa? Embora S\u00f3crates n\u00e3o tenha deixado escritos, os di\u00e1logos de Plat\u00e3o apresentam uma figura filos\u00f3fica que transforma a pr\u00f3pria conversa em m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o. Em vez de simplesmente transmitir respostas, S\u00f3crates interroga seus interlocutores, mostra contradi\u00e7\u00f5es e procura lev\u00e1-los a perceber aquilo que ainda n\u00e3o sabem.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente a\u00ed que a filosofia come\u00e7a a adquirir uma dimens\u00e3o que ultrapassa a explica\u00e7\u00e3o da natureza. Filosofar passa a significar tamb\u00e9m examinar a pr\u00f3pria exist\u00eancia. A conhecida passagem da <em>Apologia de S\u00f3crates<\/em>, em que Plat\u00e3o apresenta S\u00f3crates afirmando que \u201cuma vida sem exame n\u00e3o \u00e9 digna de ser vivida\u201d, expressa uma concep\u00e7\u00e3o da filosofia como pr\u00e1tica de reflex\u00e3o sobre si mesmo e sobre a vida coletiva (PLAT\u00c3O, <em>Apologia de S\u00f3crates<\/em>, 38a). A filosofia deixa de ser apenas uma investiga\u00e7\u00e3o sobre aquilo que existe e passa tamb\u00e9m a perguntar &#8220;como devemos viver&#8221;.<\/p>\n<p>Assim, a origem da filosofia ocidental pode ser compreendida como a forma\u00e7\u00e3o gradual de uma atitude cr\u00edtica diante do mundo. Ela nasce em uma sociedade profundamente marcada pelo mito, pela religi\u00e3o e pela tradi\u00e7\u00e3o, mas come\u00e7a a desenvolver uma exig\u00eancia nova: n\u00e3o basta receber uma explica\u00e7\u00e3o porque ela foi transmitida pelos antepassados; \u00e9 preciso perguntar, argumentar, examinar e confrontar diferentes possibilidades. O fil\u00f3sofo n\u00e3o \u00e9 necessariamente aquele que possui respostas definitivas, mas aquele que transforma aquilo que parecia evidente em problema.<\/p>\n<p>Nesse sentido, a origem da filosofia continua sendo uma quest\u00e3o filos\u00f3fica. Quando perguntamos por que os seres humanos come\u00e7aram a filosofar, estamos perguntando tamb\u00e9m por que sentimos necessidade de compreender aquilo que existe, inclusive aquilo que somos. A filosofia nasce do encontro entre o espanto e a pergunta, mas tamb\u00e9m entre a d\u00favida e a necessidade de justificar nossas respostas. Talvez seja justamente essa sua caracter\u00edstica mais duradoura: &#8220;filosofar \u00e9 n\u00e3o aceitar o mundo como algo inteiramente pronto e evidente, mas interrog\u00e1-lo para compreender de que maneira ele se tornou aquilo que \u00e9 \u2014 e de que maneira poderia ser diferente.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0ekJVbFw\">Metaf\u00edsica<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Giovanni Reale. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2002.<br \/>\nHES\u00cdODO. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0dPBT4dc\">Teogonia: a origem dos deuses<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Jaa Torrano. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 1995.<br \/>\nPLAT\u00c3O. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/06KnJh0e\">Apologia de S\u00f3crates<\/a>. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Nunes. Bel\u00e9m: EDUFPA, 2001.<br \/>\nVERNANT, Jean-Pierre. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/05BNlyvI\">As origens do pensamento grego<\/a>. 17. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002.<br \/>\nMARCONDES, Danilo. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/00nvkrcm\">Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da filosofia: dos pr\u00e9-socr\u00e1ticos a Wittgenstein<\/a>. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.<br \/>\nREALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0e1Xd8uv\">Hist\u00f3ria da filosofia: filosofia pag\u00e3 antiga<\/a>. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003.<br \/>\nBORNHEIM, Gerd A. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0h0oCOvl\">Os fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos<\/a>. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1998.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A filosofia ocidental costuma ser situada na Gr\u00e9cia antiga, sobretudo entre os s\u00e9culos VII e VI a.C., mas sua origem n\u00e3o pode ser entendida simplesmente como o momento em que algu\u00e9m, de maneira repentina, \u201cinventou\u201d o pensamento racional. O nascimento da filosofia foi um processo hist\u00f3rico e cultural complexo, no qual diferentes formas de explicar o mundo \u2014 religiosas, m\u00edticas, pol\u00edticas, po\u00e9ticas e racionais \u2014 coexistiram, dialogaram e, em alguns momentos, entraram em conflito. A tradi\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica posterior chamou esse processo de passagem do mythos ao logos, mas essa express\u00e3o precisa ser utilizada com cuidado: os primeiros fil\u00f3sofos gregos n\u00e3o abandonaram de uma hora para outra os mitos nem viveram em um mundo completamente separado da religi\u00e3o. Antes da filosofia, os gregos j\u00e1 possu\u00edam formas sofisticadas de compreender a exist\u00eancia. Os poemas de Homero e Hes\u00edodo, por exemplo, apresentavam narrativas sobre a origem dos deuses, dos seres humanos e da ordem do mundo. Na Teogonia, Hes\u00edodo procura narrar a genealogia dos deuses e, ao faz\u00ea-lo, oferece tamb\u00e9m uma esp\u00e9cie de narrativa sobre a constitui\u00e7\u00e3o do cosmos. O mundo n\u00e3o era percebido como algo sem ordem: havia for\u00e7as, rela\u00e7\u00f5es e princ\u00edpios que procuravam explicar por que as coisas eram como eram. O que come\u00e7ar\u00e1 a mudar com os chamados fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos ser\u00e1 sobretudo a maneira de formular determinadas perguntas e de buscar suas respostas. A filosofia surge, portanto, dentro de uma sociedade que j\u00e1 possu\u00eda conhecimentos religiosos, t\u00e9cnicos, matem\u00e1ticos e pol\u00edticos. A Gr\u00e9cia dos s\u00e9culos VII e VI a.C. estava passando por importantes transforma\u00e7\u00f5es. O crescimento das cidades-Estado, o com\u00e9rcio mar\u00edtimo, a coloniza\u00e7\u00e3o de diferentes regi\u00f5es do Mediterr\u00e2neo, o contato com povos como eg\u00edpcios e babil\u00f4nios e as transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas das p\u00f3leis ampliaram o horizonte intelectual dos gregos. A experi\u00eancia de entrar em contato com diferentes costumes, leis, cren\u00e7as e formas de organiza\u00e7\u00e3o social tamb\u00e9m poderia provocar uma pergunta fundamental: se os povos vivem de maneiras t\u00e3o diferentes, o que existe de necess\u00e1rio e universal por tr\u00e1s dessa diversidade? \u00c9 nesse ambiente que aparece uma nova atitude diante da realidade. Em vez de perguntar apenas qual deus ou qual for\u00e7a divina produziu determinado acontecimento, alguns pensadores come\u00e7aram a procurar aquilo que poderia explicar a natureza a partir da pr\u00f3pria natureza. Surge ent\u00e3o a investiga\u00e7\u00e3o sobre a physis, palavra grega geralmente traduzida como \u201cnatureza\u201d, mas que possui um significado mais amplo: refere-se ao processo de surgimento, crescimento e constitui\u00e7\u00e3o das coisas. O fil\u00f3sofo passa a perguntar de que as coisas s\u00e3o feitas, como surgem, como se transformam e se existe algum princ\u00edpio fundamental que permane\u00e7a por tr\u00e1s das mudan\u00e7as. \u00c9 nesse contexto que encontramos Tales de Mileto, tradicionalmente considerado o primeiro fil\u00f3sofo da tradi\u00e7\u00e3o ocidental. Tales viveu provavelmente no s\u00e9culo VI a.C., em Mileto, cidade da J\u00f4nia, na \u00c1sia Menor. A tradi\u00e7\u00e3o atribui a ele a afirma\u00e7\u00e3o de que a \u00e1gua seria o princ\u00edpio fundamental de todas as coisas. Independentemente de aceitarmos literalmente essa tese, sua import\u00e2ncia hist\u00f3rica est\u00e1 na tentativa de encontrar um princ\u00edpio (arch\u00e9) capaz de explicar a multiplicidade do mundo sem recorrer exclusivamente \u00e0s genealogias divinas. O interesse passa a estar na estrutura da realidade e na possibilidade de compreend\u00ea-la racionalmente. Depois de Tales, Anaximandro prop\u00f4s que o princ\u00edpio de todas as coisas n\u00e3o poderia ser simplesmente um elemento determinado, como a \u00e1gua. Ele chamou esse princ\u00edpio de \u00e1peiron, aquilo que \u00e9 ilimitado ou indeterminado. Anax\u00edmenes, por sua vez, identificou o princ\u00edpio com o ar. Essas teorias podem parecer, hoje, especula\u00e7\u00f5es muito distantes da ci\u00eancia moderna, mas representam uma mudan\u00e7a decisiva: a natureza passa a ser tratada como algo que pode ser investigado e discutido por meio de argumentos. \u00c9 importante perceber que a filosofia n\u00e3o nasceu como uma ci\u00eancia pronta. Os primeiros fil\u00f3sofos n\u00e3o possu\u00edam os instrumentos experimentais e os m\u00e9todos cient\u00edficos contempor\u00e2neos. O que aparece \u00e9 uma nova forma de interroga\u00e7\u00e3o. O mundo deixa de ser apenas aquilo que se conta em uma narrativa tradicional e passa tamb\u00e9m a ser aquilo sobre o qual se pode argumentar. A pergunta filos\u00f3fica n\u00e3o \u00e9 simplesmente \u201cqual \u00e9 a hist\u00f3ria que explica isso?\u201d, mas \u201cpor que isso \u00e9 assim?\u201d e \u201cque raz\u00f5es podemos apresentar para sustentar essa explica\u00e7\u00e3o?\u201d. Outro elemento fundamental foi o desenvolvimento da vida pol\u00edtica das cidades gregas. A p\u00f3lis criou um espa\u00e7o no qual a palavra p\u00fablica, o debate e a argumenta\u00e7\u00e3o adquiriram import\u00e2ncia crescente. Como observa Jean-Pierre Vernant, a constitui\u00e7\u00e3o da cidade grega esteve relacionada a uma transforma\u00e7\u00e3o das formas de pensamento: a ordem do mundo e a ordem da cidade passaram progressivamente a ser objetos de discuss\u00e3o p\u00fablica e racional (VERNANT, 2002). A experi\u00eancia pol\u00edtica, portanto, n\u00e3o explica sozinha o nascimento da filosofia, mas contribuiu para formar um ambiente no qual argumentar, convencer e justificar posi\u00e7\u00f5es se tornaram pr\u00e1ticas socialmente relevantes. A palavra tamb\u00e9m ganhou um novo estatuto. O logos, que pode significar palavra, discurso, raz\u00e3o ou argumento, passou a ocupar um lugar central. Isso n\u00e3o significa que o mythos simplesmente desapareceu. Na realidade, os primeiros fil\u00f3sofos continuaram utilizando imagens, met\u00e1foras e formas po\u00e9ticas. Her\u00e1clito escreveu de maneira afor\u00edstica e enigm\u00e1tica; Parm\u00eanides apresentou sua filosofia em forma de poema. A novidade est\u00e1 menos na elimina\u00e7\u00e3o do mito do que na exig\u00eancia crescente de que uma afirma\u00e7\u00e3o sobre a realidade pudesse ser examinada, confrontada e defendida por meio de raz\u00f5es. Com Pit\u00e1goras e os pitag\u00f3ricos, por exemplo, os n\u00fameros e as rela\u00e7\u00f5es matem\u00e1ticas passaram a desempenhar um papel fundamental na compreens\u00e3o do cosmos. Her\u00e1clito refletiu sobre a mudan\u00e7a, o conflito e a unidade dos contr\u00e1rios. Parm\u00eanides colocou em quest\u00e3o a pr\u00f3pria possibilidade de pensar o devir e sustentou que aquilo que verdadeiramente \u00e9 n\u00e3o pode simplesmente deixar de ser. Dem\u00f3crito e Leucipo formularam uma explica\u00e7\u00e3o segundo a qual a realidade seria constitu\u00edda por \u00e1tomos e vazio. A diversidade dessas respostas revela algo essencial: filosofar significava entrar em um espa\u00e7o de investiga\u00e7\u00e3o no qual diferentes explica\u00e7\u00f5es podiam ser propostas e criticadas. Por isso, talvez seja mais adequado falar n\u00e3o de uma \u00fanica \u201corigem da filosofia\u201d, mas de um processo de forma\u00e7\u00e3o de uma determinada atitude intelectual. Essa atitude envolve o espanto diante do mundo, a disposi\u00e7\u00e3o para questionar aquilo que parece evidente, a procura por princ\u00edpios explicativos e, sobretudo, a disposi\u00e7\u00e3o para submeter as pr\u00f3prias ideias \u00e0 argumenta\u00e7\u00e3o. S\u00e9culos depois, Arist\u00f3teles associaria o nascimento da filosofia ao thaum\u00e1zein, o espanto ou admira\u00e7\u00e3o diante da realidade. No in\u00edcio da Metaf\u00edsica, ele afirma que os seres humanos come\u00e7aram a filosofar por causa da admira\u00e7\u00e3o, inicialmente diante de dificuldades mais imediatas e posteriormente diante de quest\u00f5es cada vez mais abrangentes (ARIST\u00d3TELES, Metaf\u00edsica, I, 2, 982b). Com S\u00f3crates ocorre outra transforma\u00e7\u00e3o importante. A investiga\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica come\u00e7a a se voltar de maneira mais expl\u00edcita para quest\u00f5es humanas: o que \u00e9 a justi\u00e7a? O que \u00e9 a coragem? O que significa viver bem? O que \u00e9 o conhecimento? O que \u00e9 uma vida boa? Embora S\u00f3crates n\u00e3o tenha deixado escritos, os di\u00e1logos de Plat\u00e3o apresentam uma figura filos\u00f3fica que transforma a pr\u00f3pria conversa em m\u00e9todo de investiga\u00e7\u00e3o. Em vez de simplesmente transmitir respostas, S\u00f3crates interroga seus interlocutores, mostra contradi\u00e7\u00f5es e procura lev\u00e1-los a perceber aquilo que ainda n\u00e3o sabem. \u00c9 justamente a\u00ed que a filosofia come\u00e7a a adquirir uma dimens\u00e3o que ultrapassa a explica\u00e7\u00e3o da natureza. Filosofar passa a significar tamb\u00e9m examinar a pr\u00f3pria exist\u00eancia. A conhecida passagem da Apologia de S\u00f3crates, em que Plat\u00e3o apresenta S\u00f3crates afirmando que \u201cuma vida sem exame n\u00e3o \u00e9 digna de ser vivida\u201d, expressa uma concep\u00e7\u00e3o da filosofia como pr\u00e1tica de reflex\u00e3o sobre si mesmo e sobre a vida coletiva (PLAT\u00c3O, Apologia de S\u00f3crates, 38a). A filosofia deixa de ser apenas uma investiga\u00e7\u00e3o sobre aquilo que existe e passa tamb\u00e9m a perguntar &#8220;como devemos viver&#8221;. Assim, a origem da filosofia ocidental pode ser compreendida como a forma\u00e7\u00e3o gradual de uma atitude cr\u00edtica diante do mundo. Ela nasce em uma sociedade profundamente marcada pelo mito, pela religi\u00e3o e pela tradi\u00e7\u00e3o, mas come\u00e7a a desenvolver uma exig\u00eancia nova: n\u00e3o basta receber uma explica\u00e7\u00e3o porque ela foi transmitida pelos antepassados; \u00e9 preciso perguntar, argumentar, examinar e confrontar diferentes possibilidades. O fil\u00f3sofo n\u00e3o \u00e9 necessariamente aquele que possui respostas definitivas, mas aquele que transforma aquilo que parecia evidente em problema. Nesse sentido, a origem da filosofia continua sendo uma quest\u00e3o filos\u00f3fica. Quando perguntamos por que os seres humanos come\u00e7aram a filosofar, estamos perguntando tamb\u00e9m por que sentimos necessidade de compreender aquilo que existe, inclusive aquilo que somos. A filosofia nasce do encontro entre o espanto e a pergunta, mas tamb\u00e9m entre a d\u00favida e a necessidade de justificar nossas respostas. Talvez seja justamente essa sua caracter\u00edstica mais duradoura: &#8220;filosofar \u00e9 n\u00e3o aceitar o mundo como algo inteiramente pronto e evidente, mas interrog\u00e1-lo para compreender de que maneira ele se tornou aquilo que \u00e9 \u2014 e de que maneira poderia ser diferente.&#8221; Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas ARIST\u00d3TELES. Metaf\u00edsica. Tradu\u00e7\u00e3o de Giovanni Reale. S\u00e3o Paulo: Loyola, 2002. HES\u00cdODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradu\u00e7\u00e3o de Jaa Torrano. S\u00e3o Paulo: Iluminuras, 1995. PLAT\u00c3O. Apologia de S\u00f3crates. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Alberto Nunes. Bel\u00e9m: EDUFPA, 2001. VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 17. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002. MARCONDES, Danilo. Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 hist\u00f3ria da filosofia: dos pr\u00e9-socr\u00e1ticos a Wittgenstein. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010. REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. Hist\u00f3ria da filosofia: filosofia pag\u00e3 antiga. S\u00e3o Paulo: Paulus, 2003. BORNHEIM, Gerd A. Os fil\u00f3sofos pr\u00e9-socr\u00e1ticos. S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1998.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[379],"tags":[],"class_list":["post-3066","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-filosofia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3066"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3066\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3067,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3066\/revisions\/3067"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}