{"id":3113,"date":"2026-09-23T16:51:40","date_gmt":"2026-09-23T19:51:40","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=3113"},"modified":"2026-09-25T19:50:41","modified_gmt":"2026-09-25T22:50:41","slug":"amar-o-outro-para-alem-da-fantasia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3113","title":{"rendered":"Amar o outro para al\u00e9m da fantasia"},"content":{"rendered":"<p>No come\u00e7o de um relacionamento, nem sempre amamos apenas a pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s. Amamos tamb\u00e9m aquilo que imaginamos que ela seja. H\u00e1, no in\u00edcio, uma esp\u00e9cie de cria\u00e7\u00e3o silenciosa: preenchemos lacunas com expectativas, atribu\u00edmos significados a gestos, projetamos desejos, reconhecemos no outro possibilidades que talvez perten\u00e7am mais a n\u00f3s do que a ele. N\u00e3o conhecemos ainda suficientemente aquela pessoa, e justamente por isso a imagina\u00e7\u00e3o pode ocupar o espa\u00e7o que a realidade ainda n\u00e3o preencheu.<\/p>\n<p>A paix\u00e3o frequentemente se alimenta dessa dist\u00e2ncia entre o que sabemos e o que imaginamos. O outro pode tornar-se uma tela sobre a qual projetamos necessidades, esperan\u00e7as e ideais. Freud chamou aten\u00e7\u00e3o para o papel das idealiza\u00e7\u00f5es e das proje\u00e7\u00f5es na vida amorosa, mostrando como elementos do pr\u00f3prio sujeito podem participar da maneira como ele investe afetivamente em outra pessoa (FREUD, 1914). Amar, nesse sentido, nunca \u00e9 uma experi\u00eancia completamente desprovida de interpreta\u00e7\u00e3o: n\u00f3s n\u00e3o encontramos simplesmente algu\u00e9m; encontramos algu\u00e9m atrav\u00e9s de nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Mas o tempo modifica essa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A conviv\u00eancia revela aquilo que a fantasia consegue esconder. Descobrimos que aquela pessoa tamb\u00e9m se irrita, se contradiz, se fecha, sente medo, falha, muda de opini\u00e3o, tem necessidades que n\u00e3o compreendemos e carrega feridas \u00e0s quais n\u00e3o temos acesso imediato. Aquela imagem inicialmente t\u00e3o coerente come\u00e7a a adquirir fissuras. E talvez seja justamente a\u00ed que uma pergunta importante apare\u00e7a: conseguimos amar algu\u00e9m quando essa pessoa deixa de coincidir com aquilo que hav\u00edamos imaginado?<\/p>\n<p>Erich Fromm compreendia o amor maduro n\u00e3o como uma simples experi\u00eancia de encantamento, mas como uma atitude que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956). Conhecer \u00e9 particularmente importante. Porque n\u00e3o podemos respeitar verdadeiramente aquilo que precisamos transformar em fantasia para conseguir amar. Existe uma diferen\u00e7a profunda entre amar algu\u00e9m e amar a vers\u00e3o de algu\u00e9m que constru\u00edmos dentro de n\u00f3s.<\/p>\n<p>Quando amamos apenas a fantasia, qualquer diferen\u00e7a pode parecer uma decep\u00e7\u00e3o. A pessoa real passa a ser acusada de ter mudado, quando talvez tenha apenas come\u00e7ado a aparecer. O problema n\u00e3o \u00e9 necessariamente que o outro tenha se tornado diferente; talvez n\u00f3s simplesmente tenhamos come\u00e7ado a enxerg\u00e1-lo melhor. \u00c9 nesse ponto que o amor pode amadurecer ou se desfazer.<\/p>\n<p>Amadurecer n\u00e3o significa aceitar tudo. Enxergar o outro em sua humanidade n\u00e3o significa tolerar viol\u00eancia, desrespeito, manipula\u00e7\u00e3o ou incompatibilidades fundamentais. Pelo contr\u00e1rio: conhecer algu\u00e9m de maneira mais realista tamb\u00e9m nos permite perceber aquilo que n\u00e3o podemos ou n\u00e3o queremos viver em uma rela\u00e7\u00e3o. O amor n\u00e3o elimina os limites. \u00c0s vezes, conhecemos profundamente algu\u00e9m justamente para compreender que precisamos partir. Amar sem fantasia, portanto, n\u00e3o significa amar sem expectativas. Significa reconhecer que nossas expectativas n\u00e3o constituem a identidade do outro.<\/p>\n<p>Simone de Beauvoir observou, em sua reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es amorosas, como o desejo de transformar o outro em fundamento absoluto da pr\u00f3pria exist\u00eancia pode produzir depend\u00eancia e perda de liberdade (BEAUVOIR, 1949). Quando exigimos que uma pessoa corresponda permanentemente \u00e0 imagem que criamos dela, deixamos de encontr\u00e1-la como sujeito e come\u00e7amos a trat\u00e1-la como personagem de uma hist\u00f3ria que escrevemos previamente. Talvez uma das formas mais dif\u00edceis de amar seja permitir que o outro continue sendo outro.<\/p>\n<p>Isso significa admitir que n\u00e3o conheceremos completamente uma pessoa. Mesmo depois de anos, haver\u00e1 regi\u00f5es de sua subjetividade que permanecer\u00e3o parcialmente inacess\u00edveis. O outro n\u00e3o \u00e9 uma propriedade nossa nem um livro que terminamos de ler. \u00c9 algu\u00e9m que continua se transformando.<\/p>\n<p>Byung-Chul Han, ao discutir as rela\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, chama aten\u00e7\u00e3o para a dificuldade crescente de lidar com a alteridade \u2014 com aquilo que n\u00e3o se deixa reduzir ao nosso pr\u00f3prio desejo e \u00e0s nossas expectativas (HAN, 2017). Em uma cultura que frequentemente transforma rela\u00e7\u00f5es em experi\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o imediata, o diferente pode ser percebido como defeito. Queremos que o outro nos corresponda, confirme nossas expectativas, compreenda nossas necessidades e n\u00e3o perturbe excessivamente a imagem que constru\u00edmos da rela\u00e7\u00e3o. Mas talvez amar seja justamente suportar um pouco dessa perturba\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O amor come\u00e7a a se tornar mais real quando conseguimos olhar para a pessoa e dizer, ainda que silenciosamente: eu vejo que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 exatamente quem imaginei; e agora quero conhecer quem voc\u00ea \u00e9.<\/p>\n<p>N\u00e3o se trata de abandonar o encantamento, mas de substitu\u00ed-lo gradualmente por conhecimento. N\u00e3o se trata de deixar de admirar, desejar ou sonhar, mas de permitir que esses sentimentos convivam com a realidade. Porque existe uma diferen\u00e7a entre descobrir que algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 perfeito e descobrir que algu\u00e9m \u00e9 humano.<\/p>\n<p>A primeira experi\u00eancia pode produzir desilus\u00e3o. A segunda pode produzir intimidade. Talvez amar verdadeiramente seja esse movimento delicado entre a imagina\u00e7\u00e3o e a realidade: primeiro inventamos um pouco o outro para conseguir nos aproximar; depois precisamos desfazer, pouco a pouco, aquilo que inventamos para finalmente encontr\u00e1-lo. E talvez o amor mais profundo n\u00e3o seja aquele em que dizemos \u201cvoc\u00ea \u00e9 exatamente como eu imaginava\u201d, mas aquele em que conseguimos dizer: \u201cVoc\u00ea \u00e9 muito mais complexo do que eu imaginei. E, mesmo assim \u2014 ou talvez justamente por isso \u2014 quero continuar conhecendo voc\u00ea.\u201d<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experi\u00eancia vivida. Paris: Gallimard, 1949.<br \/>\nFROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].<br \/>\nFREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdu\u00e7\u00e3o. In: Introdu\u00e7\u00e3o ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010 [1914].<br \/>\nHAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No come\u00e7o de um relacionamento, nem sempre amamos apenas a pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s. Amamos tamb\u00e9m aquilo que imaginamos que ela seja. H\u00e1, no in\u00edcio, uma esp\u00e9cie de cria\u00e7\u00e3o silenciosa: preenchemos lacunas com expectativas, atribu\u00edmos significados a gestos, projetamos desejos, reconhecemos no outro possibilidades que talvez perten\u00e7am mais a n\u00f3s do que a ele. N\u00e3o conhecemos ainda suficientemente aquela pessoa, e justamente por isso a imagina\u00e7\u00e3o pode ocupar o espa\u00e7o que a realidade ainda n\u00e3o preencheu. A paix\u00e3o frequentemente se alimenta dessa dist\u00e2ncia entre o que sabemos e o que imaginamos. O outro pode tornar-se uma tela sobre a qual projetamos necessidades, esperan\u00e7as e ideais. Freud chamou aten\u00e7\u00e3o para o papel das idealiza\u00e7\u00f5es e das proje\u00e7\u00f5es na vida amorosa, mostrando como elementos do pr\u00f3prio sujeito podem participar da maneira como ele investe afetivamente em outra pessoa (FREUD, 1914). Amar, nesse sentido, nunca \u00e9 uma experi\u00eancia completamente desprovida de interpreta\u00e7\u00e3o: n\u00f3s n\u00e3o encontramos simplesmente algu\u00e9m; encontramos algu\u00e9m atrav\u00e9s de nossa pr\u00f3pria hist\u00f3ria. Mas o tempo modifica essa rela\u00e7\u00e3o. A conviv\u00eancia revela aquilo que a fantasia consegue esconder. Descobrimos que aquela pessoa tamb\u00e9m se irrita, se contradiz, se fecha, sente medo, falha, muda de opini\u00e3o, tem necessidades que n\u00e3o compreendemos e carrega feridas \u00e0s quais n\u00e3o temos acesso imediato. Aquela imagem inicialmente t\u00e3o coerente come\u00e7a a adquirir fissuras. E talvez seja justamente a\u00ed que uma pergunta importante apare\u00e7a: conseguimos amar algu\u00e9m quando essa pessoa deixa de coincidir com aquilo que hav\u00edamos imaginado? Erich Fromm compreendia o amor maduro n\u00e3o como uma simples experi\u00eancia de encantamento, mas como uma atitude que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956). Conhecer \u00e9 particularmente importante. Porque n\u00e3o podemos respeitar verdadeiramente aquilo que precisamos transformar em fantasia para conseguir amar. Existe uma diferen\u00e7a profunda entre amar algu\u00e9m e amar a vers\u00e3o de algu\u00e9m que constru\u00edmos dentro de n\u00f3s. Quando amamos apenas a fantasia, qualquer diferen\u00e7a pode parecer uma decep\u00e7\u00e3o. A pessoa real passa a ser acusada de ter mudado, quando talvez tenha apenas come\u00e7ado a aparecer. O problema n\u00e3o \u00e9 necessariamente que o outro tenha se tornado diferente; talvez n\u00f3s simplesmente tenhamos come\u00e7ado a enxerg\u00e1-lo melhor. \u00c9 nesse ponto que o amor pode amadurecer ou se desfazer. Amadurecer n\u00e3o significa aceitar tudo. Enxergar o outro em sua humanidade n\u00e3o significa tolerar viol\u00eancia, desrespeito, manipula\u00e7\u00e3o ou incompatibilidades fundamentais. Pelo contr\u00e1rio: conhecer algu\u00e9m de maneira mais realista tamb\u00e9m nos permite perceber aquilo que n\u00e3o podemos ou n\u00e3o queremos viver em uma rela\u00e7\u00e3o. O amor n\u00e3o elimina os limites. \u00c0s vezes, conhecemos profundamente algu\u00e9m justamente para compreender que precisamos partir. Amar sem fantasia, portanto, n\u00e3o significa amar sem expectativas. Significa reconhecer que nossas expectativas n\u00e3o constituem a identidade do outro. Simone de Beauvoir observou, em sua reflex\u00e3o sobre as rela\u00e7\u00f5es amorosas, como o desejo de transformar o outro em fundamento absoluto da pr\u00f3pria exist\u00eancia pode produzir depend\u00eancia e perda de liberdade (BEAUVOIR, 1949). Quando exigimos que uma pessoa corresponda permanentemente \u00e0 imagem que criamos dela, deixamos de encontr\u00e1-la como sujeito e come\u00e7amos a trat\u00e1-la como personagem de uma hist\u00f3ria que escrevemos previamente. Talvez uma das formas mais dif\u00edceis de amar seja permitir que o outro continue sendo outro. Isso significa admitir que n\u00e3o conheceremos completamente uma pessoa. Mesmo depois de anos, haver\u00e1 regi\u00f5es de sua subjetividade que permanecer\u00e3o parcialmente inacess\u00edveis. O outro n\u00e3o \u00e9 uma propriedade nossa nem um livro que terminamos de ler. \u00c9 algu\u00e9m que continua se transformando. Byung-Chul Han, ao discutir as rela\u00e7\u00f5es contempor\u00e2neas, chama aten\u00e7\u00e3o para a dificuldade crescente de lidar com a alteridade \u2014 com aquilo que n\u00e3o se deixa reduzir ao nosso pr\u00f3prio desejo e \u00e0s nossas expectativas (HAN, 2017). Em uma cultura que frequentemente transforma rela\u00e7\u00f5es em experi\u00eancias de satisfa\u00e7\u00e3o imediata, o diferente pode ser percebido como defeito. Queremos que o outro nos corresponda, confirme nossas expectativas, compreenda nossas necessidades e n\u00e3o perturbe excessivamente a imagem que constru\u00edmos da rela\u00e7\u00e3o. Mas talvez amar seja justamente suportar um pouco dessa perturba\u00e7\u00e3o. O amor come\u00e7a a se tornar mais real quando conseguimos olhar para a pessoa e dizer, ainda que silenciosamente: eu vejo que voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 exatamente quem imaginei; e agora quero conhecer quem voc\u00ea \u00e9. N\u00e3o se trata de abandonar o encantamento, mas de substitu\u00ed-lo gradualmente por conhecimento. N\u00e3o se trata de deixar de admirar, desejar ou sonhar, mas de permitir que esses sentimentos convivam com a realidade. Porque existe uma diferen\u00e7a entre descobrir que algu\u00e9m n\u00e3o \u00e9 perfeito e descobrir que algu\u00e9m \u00e9 humano. A primeira experi\u00eancia pode produzir desilus\u00e3o. A segunda pode produzir intimidade. Talvez amar verdadeiramente seja esse movimento delicado entre a imagina\u00e7\u00e3o e a realidade: primeiro inventamos um pouco o outro para conseguir nos aproximar; depois precisamos desfazer, pouco a pouco, aquilo que inventamos para finalmente encontr\u00e1-lo. E talvez o amor mais profundo n\u00e3o seja aquele em que dizemos \u201cvoc\u00ea \u00e9 exatamente como eu imaginava\u201d, mas aquele em que conseguimos dizer: \u201cVoc\u00ea \u00e9 muito mais complexo do que eu imaginei. 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