{"id":3115,"date":"2026-09-24T08:30:18","date_gmt":"2026-09-24T11:30:18","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=3115"},"modified":"2026-09-25T19:50:33","modified_gmt":"2026-09-25T22:50:33","slug":"amar-sem-desaparecer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3115","title":{"rendered":"Amar sem desaparecer"},"content":{"rendered":"<p>Amar algu\u00e9m n\u00e3o deveria significar desaparecer dentro da vida do outro. Existe uma ideia rom\u00e2ntica, antiga e persistente, segundo a qual amar profundamente seria entregar-se por inteiro: compartilhar tudo, querer estar sempre junto, abandonar antigas prioridades, adaptar-se aos desejos do outro e, pouco a pouco, fazer da rela\u00e7\u00e3o o centro da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Como se a intensidade do amor pudesse ser medida pela quantidade de espa\u00e7o que deixamos de ocupar para que o outro ocupe.<\/p>\n<p>Mas existe uma diferen\u00e7a importante entre compartilhar a vida e entregar a pr\u00f3pria vida. Uma rela\u00e7\u00e3o amorosa pode ampliar nossa exist\u00eancia sem precisar substitu\u00ed-la. Podemos construir projetos em comum, dividir uma casa, uma rotina, responsabilidades, alegrias e dificuldades e, ainda assim, continuar sendo uma pessoa que possui pensamentos, interesses, amizades, desejos, sil\u00eancios e projetos que n\u00e3o pertencem necessariamente ao casal.<\/p>\n<p>Erich Fromm, em <em>A arte de amar<\/em>, associa o amor maduro \u00e0 capacidade de unir-se a outra pessoa sem perder a pr\u00f3pria integridade. Para ele, amar n\u00e3o significa dissolver duas individualidades em uma \u00fanica identidade, mas estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o na qual proximidade e autonomia possam coexistir (FROMM, 1956).<\/p>\n<p>Essa talvez seja uma das maiores dificuldades do amor: permanecer pr\u00f3ximo sem transformar proximidade em fus\u00e3o. Quando duas pessoas se apaixonam, \u00e9 natural que desejem compartilhar muito. A vida ganha uma esp\u00e9cie de linguagem comum. Surge o \u201cn\u00f3s\u201d: nossos planos, nossa casa, nossas viagens, nossos amigos, nossas lembran\u00e7as. O \u201cn\u00f3s\u201d pode ser uma experi\u00eancia profundamente bonita. O problema come\u00e7a quando ele deixa de coexistir com o \u201ceu\u201d. Porque uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria exigir que a pessoa deixe de saber quem \u00e9 para provar o quanto ama.<\/p>\n<p>A psicologia das rela\u00e7\u00f5es diferencia, h\u00e1 d\u00e9cadas, intimidade de fus\u00e3o. Na teoria sist\u00eamica de Murray Bowen, por exemplo, o conceito de <em>diferencia\u00e7\u00e3o do self<\/em> descreve a capacidade de uma pessoa permanecer emocionalmente conectada aos outros sem perder a capacidade de pensar, escolher e sustentar uma posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria (BOWEN, 1978). Quanto maior a diferencia\u00e7\u00e3o, em termos gerais, maior a possibilidade de proximidade sem que toda diferen\u00e7a seja vivida como amea\u00e7a.<\/p>\n<p>Isso significa que duas pessoas podem discordar e continuar amando-se. Podem desejar coisas diferentes. Podem precisar de algum tempo sozinhas. Podem conservar amizades que n\u00e3o s\u00e3o compartilhadas. Podem ter interesses diferentes. Podem desenvolver projetos individuais.<br \/>\nPodem at\u00e9 atravessar per\u00edodos em que um est\u00e1 mais voltado para determinada dimens\u00e3o da pr\u00f3pria vida, sem que isso signifique abandono afetivo. O amor n\u00e3o precisa eliminar a diferen\u00e7a para produzir pertencimento. Talvez seja justamente a exist\u00eancia de dois sujeitos distintos que torne poss\u00edvel falar verdadeiramente em encontro.<\/p>\n<p>Simone de Beauvoir, ao refletir sobre o amor e a liberdade, criticou formas de relacionamento nas quais uma pessoa transforma a outra em fundamento absoluto de sua exist\u00eancia. Quando algu\u00e9m precisa fazer do parceiro a fonte exclusiva de sentido, reconhecimento e seguran\u00e7a, corre-se o risco de transformar o amor em depend\u00eancia e a rela\u00e7\u00e3o em uma estrutura na qual a liberdade de ambos diminui (BEAUVOIR, 1949).<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos, entretanto, transformar autonomia em isolamento. Ser independente n\u00e3o significa n\u00e3o precisar de ningu\u00e9m. N\u00e3o significa rejeitar intimidade, evitar compromisso ou viver como se o relacionamento fosse uma amea\u00e7a \u00e0 liberdade. A autonomia afetiva n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de v\u00ednculos; \u00e9 a possibilidade de estabelecer v\u00ednculos sem deixar de reconhecer a pr\u00f3pria exist\u00eancia. Podemos precisar de algu\u00e9m sem pertencer a esse algu\u00e9m. Podemos desejar companhia sem temer a solid\u00e3o. Podemos escolher estar juntos sem acreditar que precisamos estar juntos o tempo inteiro. Podemos dizer \u201ceu preciso de voc\u00ea\u201d sem transformar isso em \u201ceu n\u00e3o existo sem voc\u00ea\u201d. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p>Na perspectiva da <em>Self-Determination Theory<\/em>, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, autonomia \u00e9 uma das necessidades psicol\u00f3gicas b\u00e1sicas do ser humano, ao lado de compet\u00eancia e relacionamento. Autonomia, nesse contexto, n\u00e3o significa fazer tudo sozinho, mas experimentar nossas a\u00e7\u00f5es como coerentes com nossos pr\u00f3prios valores e escolhas, em vez de viv\u00ea-las como resultado de press\u00e3o ou controle externo (DECI; RYAN, 2000). Uma rela\u00e7\u00e3o amorosa pode, portanto, ser simultaneamente um lugar de pertencimento e de autonomia. Ali\u00e1s, talvez seja justamente essa combina\u00e7\u00e3o que permita que o amor dure sem se transformar em aprisionamento. Porque quando algu\u00e9m precisa abandonar continuamente a pr\u00f3pria identidade para preservar uma rela\u00e7\u00e3o, o pre\u00e7o da perman\u00eancia pode tornar-se alto demais. A pessoa deixa de perguntar o que deseja, o que pensa, o que sente e o que considera importante. Come\u00e7a a organizar a pr\u00f3pria exist\u00eancia exclusivamente em torno das necessidades do parceiro. Algumas ren\u00fancias podem ser pr\u00f3prias de qualquer rela\u00e7\u00e3o; ningu\u00e9m vive a dois sem negociar. Mas negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente de apagamento.<\/p>\n<p>Em uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, existem concess\u00f5es. Existem responsabilidades. Existem momentos em que algu\u00e9m cede porque o v\u00ednculo importa. Mas ceder ocasionalmente n\u00e3o deveria significar tornar-se permanentemente menor. Amar tamb\u00e9m \u00e9 permitir que o outro exista. E isso inclui permitir que o outro n\u00e3o seja uma extens\u00e3o de n\u00f3s. Talvez uma das formas mais bonitas de intimidade seja poder dizer: \u201cEu amo voc\u00ea, mas voc\u00ea n\u00e3o precisa deixar de ser voc\u00ea para continuar comigo. E eu tamb\u00e9m n\u00e3o preciso deixar de ser eu para continuar ao seu lado.\u201d<\/p>\n<p>O verdadeiro encontro n\u00e3o acontece quando duas pessoas deixam de existir separadamente. Acontece quando duas exist\u00eancias conseguem construir um espa\u00e7o comum sem destruir os espa\u00e7os individuais que trouxeram consigo. Existe o que \u00e9 nosso. Existe o que \u00e9 seu. Existe o que \u00e9 meu. E talvez uma rela\u00e7\u00e3o amorosa suficientemente madura consiga proteger as tr\u00eas coisas. Porque amar algu\u00e9m n\u00e3o deveria significar desaparecer dentro da vida do outro. Deveria significar encontrar um lugar na vida de algu\u00e9m \u2014 sem abandonar o lugar que ocupamos dentro de n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BEAUVOIR, Simone de. <em>O segundo sexo: a experi\u00eancia vivida<\/em>. Paris: Gallimard, 1949.<br \/>\nBOWEN, Murray. <em>Family Therapy in Clinical Practice. <\/em>New York: Jason Aronson, 1978.<br \/>\nDECI, Edward L.; RYAN, Richard M. The \u201cwhat\u201d and \u201cwhy\u201d of goal pursuits: human needs and the self-determination of behavior. <em>Psychological Inquiry<\/em>, v. 11, n. 4, p. 227\u2013268, 2000.<br \/>\nFROMM, Erich. <em>A arte de amar<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amar algu\u00e9m n\u00e3o deveria significar desaparecer dentro da vida do outro. Existe uma ideia rom\u00e2ntica, antiga e persistente, segundo a qual amar profundamente seria entregar-se por inteiro: compartilhar tudo, querer estar sempre junto, abandonar antigas prioridades, adaptar-se aos desejos do outro e, pouco a pouco, fazer da rela\u00e7\u00e3o o centro da pr\u00f3pria exist\u00eancia. Como se a intensidade do amor pudesse ser medida pela quantidade de espa\u00e7o que deixamos de ocupar para que o outro ocupe. Mas existe uma diferen\u00e7a importante entre compartilhar a vida e entregar a pr\u00f3pria vida. Uma rela\u00e7\u00e3o amorosa pode ampliar nossa exist\u00eancia sem precisar substitu\u00ed-la. Podemos construir projetos em comum, dividir uma casa, uma rotina, responsabilidades, alegrias e dificuldades e, ainda assim, continuar sendo uma pessoa que possui pensamentos, interesses, amizades, desejos, sil\u00eancios e projetos que n\u00e3o pertencem necessariamente ao casal. Erich Fromm, em A arte de amar, associa o amor maduro \u00e0 capacidade de unir-se a outra pessoa sem perder a pr\u00f3pria integridade. Para ele, amar n\u00e3o significa dissolver duas individualidades em uma \u00fanica identidade, mas estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o na qual proximidade e autonomia possam coexistir (FROMM, 1956). Essa talvez seja uma das maiores dificuldades do amor: permanecer pr\u00f3ximo sem transformar proximidade em fus\u00e3o. Quando duas pessoas se apaixonam, \u00e9 natural que desejem compartilhar muito. A vida ganha uma esp\u00e9cie de linguagem comum. Surge o \u201cn\u00f3s\u201d: nossos planos, nossa casa, nossas viagens, nossos amigos, nossas lembran\u00e7as. O \u201cn\u00f3s\u201d pode ser uma experi\u00eancia profundamente bonita. O problema come\u00e7a quando ele deixa de coexistir com o \u201ceu\u201d. Porque uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria exigir que a pessoa deixe de saber quem \u00e9 para provar o quanto ama. A psicologia das rela\u00e7\u00f5es diferencia, h\u00e1 d\u00e9cadas, intimidade de fus\u00e3o. Na teoria sist\u00eamica de Murray Bowen, por exemplo, o conceito de diferencia\u00e7\u00e3o do self descreve a capacidade de uma pessoa permanecer emocionalmente conectada aos outros sem perder a capacidade de pensar, escolher e sustentar uma posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria (BOWEN, 1978). Quanto maior a diferencia\u00e7\u00e3o, em termos gerais, maior a possibilidade de proximidade sem que toda diferen\u00e7a seja vivida como amea\u00e7a. Isso significa que duas pessoas podem discordar e continuar amando-se. Podem desejar coisas diferentes. Podem precisar de algum tempo sozinhas. Podem conservar amizades que n\u00e3o s\u00e3o compartilhadas. Podem ter interesses diferentes. Podem desenvolver projetos individuais. Podem at\u00e9 atravessar per\u00edodos em que um est\u00e1 mais voltado para determinada dimens\u00e3o da pr\u00f3pria vida, sem que isso signifique abandono afetivo. O amor n\u00e3o precisa eliminar a diferen\u00e7a para produzir pertencimento. Talvez seja justamente a exist\u00eancia de dois sujeitos distintos que torne poss\u00edvel falar verdadeiramente em encontro. Simone de Beauvoir, ao refletir sobre o amor e a liberdade, criticou formas de relacionamento nas quais uma pessoa transforma a outra em fundamento absoluto de sua exist\u00eancia. Quando algu\u00e9m precisa fazer do parceiro a fonte exclusiva de sentido, reconhecimento e seguran\u00e7a, corre-se o risco de transformar o amor em depend\u00eancia e a rela\u00e7\u00e3o em uma estrutura na qual a liberdade de ambos diminui (BEAUVOIR, 1949). N\u00e3o precisamos, entretanto, transformar autonomia em isolamento. Ser independente n\u00e3o significa n\u00e3o precisar de ningu\u00e9m. N\u00e3o significa rejeitar intimidade, evitar compromisso ou viver como se o relacionamento fosse uma amea\u00e7a \u00e0 liberdade. A autonomia afetiva n\u00e3o \u00e9 a aus\u00eancia de v\u00ednculos; \u00e9 a possibilidade de estabelecer v\u00ednculos sem deixar de reconhecer a pr\u00f3pria exist\u00eancia. Podemos precisar de algu\u00e9m sem pertencer a esse algu\u00e9m. Podemos desejar companhia sem temer a solid\u00e3o. Podemos escolher estar juntos sem acreditar que precisamos estar juntos o tempo inteiro. Podemos dizer \u201ceu preciso de voc\u00ea\u201d sem transformar isso em \u201ceu n\u00e3o existo sem voc\u00ea\u201d. Essa distin\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental. Na perspectiva da Self-Determination Theory, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, autonomia \u00e9 uma das necessidades psicol\u00f3gicas b\u00e1sicas do ser humano, ao lado de compet\u00eancia e relacionamento. Autonomia, nesse contexto, n\u00e3o significa fazer tudo sozinho, mas experimentar nossas a\u00e7\u00f5es como coerentes com nossos pr\u00f3prios valores e escolhas, em vez de viv\u00ea-las como resultado de press\u00e3o ou controle externo (DECI; RYAN, 2000). Uma rela\u00e7\u00e3o amorosa pode, portanto, ser simultaneamente um lugar de pertencimento e de autonomia. Ali\u00e1s, talvez seja justamente essa combina\u00e7\u00e3o que permita que o amor dure sem se transformar em aprisionamento. Porque quando algu\u00e9m precisa abandonar continuamente a pr\u00f3pria identidade para preservar uma rela\u00e7\u00e3o, o pre\u00e7o da perman\u00eancia pode tornar-se alto demais. A pessoa deixa de perguntar o que deseja, o que pensa, o que sente e o que considera importante. Come\u00e7a a organizar a pr\u00f3pria exist\u00eancia exclusivamente em torno das necessidades do parceiro. Algumas ren\u00fancias podem ser pr\u00f3prias de qualquer rela\u00e7\u00e3o; ningu\u00e9m vive a dois sem negociar. Mas negocia\u00e7\u00e3o \u00e9 diferente de apagamento. Em uma rela\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, existem concess\u00f5es. Existem responsabilidades. Existem momentos em que algu\u00e9m cede porque o v\u00ednculo importa. Mas ceder ocasionalmente n\u00e3o deveria significar tornar-se permanentemente menor. Amar tamb\u00e9m \u00e9 permitir que o outro exista. E isso inclui permitir que o outro n\u00e3o seja uma extens\u00e3o de n\u00f3s. 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BOWEN, Murray. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978. DECI, Edward L.; RYAN, Richard M. The \u201cwhat\u201d and \u201cwhy\u201d of goal pursuits: human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry, v. 11, n. 4, p. 227\u2013268, 2000. FROMM, Erich. A arte de amar. 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