{"id":3117,"date":"2026-09-24T13:20:59","date_gmt":"2026-09-24T16:20:59","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=3117"},"modified":"2026-09-25T19:50:25","modified_gmt":"2026-09-25T22:50:25","slug":"a-solidao-de-quem-ama-sozinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3117","title":{"rendered":"A solid\u00e3o de quem ama sozinho"},"content":{"rendered":"<p>Reciprocidade n\u00e3o \u00e9 uma balan\u00e7a. O amor n\u00e3o exige que duas pessoas ofere\u00e7am exatamente a mesma quantidade, no mesmo momento, da mesma maneira. H\u00e1 dias em que um de n\u00f3s tem mais for\u00e7a; h\u00e1 per\u00edodos em que um precisa ser amparado enquanto o outro sustenta quase tudo. A vida n\u00e3o \u00e9 sim\u00e9trica, e o amor tamb\u00e9m n\u00e3o. Uma rela\u00e7\u00e3o pode suportar que um d\u00ea mais durante algum tempo; o que ela dificilmente suporta \u00e9 que apenas um continue dando. N\u00e3o \u00e9 preciso fazer contas no amor, mas \u00e9 preciso perceber quando apenas uma pessoa est\u00e1 pagando a conta. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es em que ningu\u00e9m diz que est\u00e1 sozinho porque, afinal, existe algu\u00e9m ao lado. Dormem na mesma cama, dividem a casa, conhecem os hor\u00e1rios um do outro, talvez at\u00e9 compartilhem fotografias e planos e, ainda assim, existe um vazio que nenhuma proximidade f\u00edsica consegue preencher. \u00c9 uma das formas mais silenciosas de solid\u00e3o: ter companhia e n\u00e3o ter encontro.<\/p>\n<p>Talvez seja isso que mais doa: n\u00e3o a aus\u00eancia do outro, mas a aus\u00eancia de seu movimento. Porque amar tamb\u00e9m \u00e9 movimento. \u00c9 perguntar, escutar, perceber, procurar, lembrar, tentar compreender aquilo que n\u00e3o compreendemos, voltar depois de uma discuss\u00e3o, perceber quando o outro est\u00e1 distante e perguntar: \u201cO que aconteceu com voc\u00ea?\u201d N\u00e3o porque o amor precise ser uma vigil\u00e2ncia permanente, mas porque aquilo que nos importa chama nossa aten\u00e7\u00e3o. Erich Fromm escreveu que o amor \u00e9 uma atividade, uma pr\u00e1tica que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento (FROMM, 1956). Talvez por isso seja t\u00e3o dif\u00edcil sustentar a ideia de que amar \u00e9 apenas sentir. Sentimento sem movimento pode permanecer bonito dentro de n\u00f3s e, ainda assim, ser insuficiente para construir uma vida a dois. Porque o outro n\u00e3o vive dentro da nossa inten\u00e7\u00e3o; vive dentro daquilo que fazemos. Podemos amar algu\u00e9m profundamente e, ainda assim, n\u00e3o saber amar aquela pessoa da maneira de que ela necessita. Podemos ter bons sentimentos e produzir solid\u00e3o. Podemos desejar permanecer e, ao mesmo tempo, n\u00e3o fazer quase nada para que a rela\u00e7\u00e3o permane\u00e7a viva.<\/p>\n<p>O amor, \u00e0s vezes, n\u00e3o termina de repente. \u00c0s vezes, ele vai ficando sem resposta: uma mensagem que n\u00e3o vem, uma conversa que nunca acontece, um pedido que precisa ser repetido, uma aproxima\u00e7\u00e3o que parte sempre do mesmo lado, uma tentativa de reconcilia\u00e7\u00e3o que sempre tem o mesmo autor. At\u00e9 que a pessoa que insiste come\u00e7a a se perguntar se ainda est\u00e1 vivendo uma rela\u00e7\u00e3o ou apenas impedindo que ela termine. E h\u00e1 uma tristeza particular em perceber que, se voc\u00ea parar de procurar, talvez nada aconte\u00e7a. Nenhuma briga, nenhum rompimento, apenas sil\u00eancio. Como se a rela\u00e7\u00e3o dependesse exclusivamente da sua insist\u00eancia para continuar respirando. Isso \u00e9 a solid\u00e3o acompanhada: n\u00e3o estar sozinho, mas sentir que somente voc\u00ea est\u00e1 tentando chegar ao outro. Sue Johnson, a partir da teoria do apego, destaca a import\u00e2ncia da responsividade emocional nas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas: a experi\u00eancia de perceber o outro como algu\u00e9m acess\u00edvel, responsivo e emocionalmente presente (JOHNSON, 2008). Talvez seja disso que sentimos falta quando dizemos que algu\u00e9m est\u00e1 conosco, mas n\u00e3o est\u00e1 realmente presente. Presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 proximidade f\u00edsica; presen\u00e7a \u00e9 resposta. \u00c9 o outro perceber que voc\u00ea existe e responder \u00e0 sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>N\u00e3o precisamos ser amados exatamente como amamos. Essa exig\u00eancia seria imposs\u00edvel. H\u00e1 pessoas que falam mais, outras demonstram mais; algumas cuidam fazendo, outras cuidam dizendo; algumas precisam de proximidade, outras precisam de espa\u00e7o. O amor pode ter muitos idiomas, mas todos eles precisam dizer alguma coisa. Quando apenas uma pessoa fala, n\u00e3o existe di\u00e1logo; existe mon\u00f3logo afetivo. E ningu\u00e9m deveria passar a vida inteira tentando arrancar uma resposta de quem escolheu permanecer em sil\u00eancio. Talvez reciprocidade seja simplesmente isto: eu me movimento em sua dire\u00e7\u00e3o e percebo que voc\u00ea tamb\u00e9m se move em minha dire\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes voc\u00ea chega primeiro, \u00e0s vezes eu; \u00e0s vezes um de n\u00f3s caminha muito mais, mas existe uma estrada de m\u00e3o dupla. O problema come\u00e7a quando descobrimos que estamos sempre caminhando sozinhos. E talvez o sinal mais doloroso de uma rela\u00e7\u00e3o esvaziada n\u00e3o seja deixar de amar, mas perceber que j\u00e1 n\u00e3o esperamos mais nada. Porque enquanto esperamos, ainda existe desejo de encontro; quando deixamos de esperar, talvez seja porque cansamos de bater \u00e0 porta. E algumas portas n\u00e3o estavam trancadas. Apenas ningu\u00e9m estava vindo abri-las.<\/p>\n<p>No amor, n\u00e3o precisamos de equival\u00eancia; precisamos de presen\u00e7a. N\u00e3o precisamos de simetria; precisamos de encontro. N\u00e3o precisamos que o outro fa\u00e7a tudo por n\u00f3s; precisamos apenas n\u00e3o ser os \u00fanicos fazendo alguma coisa. Uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria exigir que uma pessoa carregasse duas pessoas. Talvez amar seja isso: n\u00e3o caminhar sempre lado a lado, mas saber que, quando voc\u00ea olhar para tr\u00e1s, haver\u00e1 algu\u00e9m caminhando na sua dire\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, pode haver dois corpos na mesma hist\u00f3ria, mas apenas uma pessoa estar\u00e1 vivendo a rela\u00e7\u00e3o. E ent\u00e3o a companhia come\u00e7a a ter a forma mais triste da aus\u00eancia: a solid\u00e3o de quem ama sozinho.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas: <\/p>\n<p>FROMM, Erich. <em>A arte de amar<\/em>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].<br \/>\nJOHNSON, Sue. <em>Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love<\/em>. New York: Little, Brown and Company, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Reciprocidade n\u00e3o \u00e9 uma balan\u00e7a. O amor n\u00e3o exige que duas pessoas ofere\u00e7am exatamente a mesma quantidade, no mesmo momento, da mesma maneira. H\u00e1 dias em que um de n\u00f3s tem mais for\u00e7a; h\u00e1 per\u00edodos em que um precisa ser amparado enquanto o outro sustenta quase tudo. A vida n\u00e3o \u00e9 sim\u00e9trica, e o amor tamb\u00e9m n\u00e3o. Uma rela\u00e7\u00e3o pode suportar que um d\u00ea mais durante algum tempo; o que ela dificilmente suporta \u00e9 que apenas um continue dando. N\u00e3o \u00e9 preciso fazer contas no amor, mas \u00e9 preciso perceber quando apenas uma pessoa est\u00e1 pagando a conta. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es em que ningu\u00e9m diz que est\u00e1 sozinho porque, afinal, existe algu\u00e9m ao lado. Dormem na mesma cama, dividem a casa, conhecem os hor\u00e1rios um do outro, talvez at\u00e9 compartilhem fotografias e planos e, ainda assim, existe um vazio que nenhuma proximidade f\u00edsica consegue preencher. \u00c9 uma das formas mais silenciosas de solid\u00e3o: ter companhia e n\u00e3o ter encontro. Talvez seja isso que mais doa: n\u00e3o a aus\u00eancia do outro, mas a aus\u00eancia de seu movimento. Porque amar tamb\u00e9m \u00e9 movimento. \u00c9 perguntar, escutar, perceber, procurar, lembrar, tentar compreender aquilo que n\u00e3o compreendemos, voltar depois de uma discuss\u00e3o, perceber quando o outro est\u00e1 distante e perguntar: \u201cO que aconteceu com voc\u00ea?\u201d N\u00e3o porque o amor precise ser uma vigil\u00e2ncia permanente, mas porque aquilo que nos importa chama nossa aten\u00e7\u00e3o. Erich Fromm escreveu que o amor \u00e9 uma atividade, uma pr\u00e1tica que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento (FROMM, 1956). Talvez por isso seja t\u00e3o dif\u00edcil sustentar a ideia de que amar \u00e9 apenas sentir. Sentimento sem movimento pode permanecer bonito dentro de n\u00f3s e, ainda assim, ser insuficiente para construir uma vida a dois. Porque o outro n\u00e3o vive dentro da nossa inten\u00e7\u00e3o; vive dentro daquilo que fazemos. Podemos amar algu\u00e9m profundamente e, ainda assim, n\u00e3o saber amar aquela pessoa da maneira de que ela necessita. Podemos ter bons sentimentos e produzir solid\u00e3o. Podemos desejar permanecer e, ao mesmo tempo, n\u00e3o fazer quase nada para que a rela\u00e7\u00e3o permane\u00e7a viva. O amor, \u00e0s vezes, n\u00e3o termina de repente. \u00c0s vezes, ele vai ficando sem resposta: uma mensagem que n\u00e3o vem, uma conversa que nunca acontece, um pedido que precisa ser repetido, uma aproxima\u00e7\u00e3o que parte sempre do mesmo lado, uma tentativa de reconcilia\u00e7\u00e3o que sempre tem o mesmo autor. At\u00e9 que a pessoa que insiste come\u00e7a a se perguntar se ainda est\u00e1 vivendo uma rela\u00e7\u00e3o ou apenas impedindo que ela termine. E h\u00e1 uma tristeza particular em perceber que, se voc\u00ea parar de procurar, talvez nada aconte\u00e7a. Nenhuma briga, nenhum rompimento, apenas sil\u00eancio. Como se a rela\u00e7\u00e3o dependesse exclusivamente da sua insist\u00eancia para continuar respirando. Isso \u00e9 a solid\u00e3o acompanhada: n\u00e3o estar sozinho, mas sentir que somente voc\u00ea est\u00e1 tentando chegar ao outro. Sue Johnson, a partir da teoria do apego, destaca a import\u00e2ncia da responsividade emocional nas rela\u00e7\u00f5es \u00edntimas: a experi\u00eancia de perceber o outro como algu\u00e9m acess\u00edvel, responsivo e emocionalmente presente (JOHNSON, 2008). Talvez seja disso que sentimos falta quando dizemos que algu\u00e9m est\u00e1 conosco, mas n\u00e3o est\u00e1 realmente presente. Presen\u00e7a n\u00e3o \u00e9 proximidade f\u00edsica; presen\u00e7a \u00e9 resposta. \u00c9 o outro perceber que voc\u00ea existe e responder \u00e0 sua exist\u00eancia. N\u00e3o precisamos ser amados exatamente como amamos. Essa exig\u00eancia seria imposs\u00edvel. H\u00e1 pessoas que falam mais, outras demonstram mais; algumas cuidam fazendo, outras cuidam dizendo; algumas precisam de proximidade, outras precisam de espa\u00e7o. O amor pode ter muitos idiomas, mas todos eles precisam dizer alguma coisa. Quando apenas uma pessoa fala, n\u00e3o existe di\u00e1logo; existe mon\u00f3logo afetivo. E ningu\u00e9m deveria passar a vida inteira tentando arrancar uma resposta de quem escolheu permanecer em sil\u00eancio. Talvez reciprocidade seja simplesmente isto: eu me movimento em sua dire\u00e7\u00e3o e percebo que voc\u00ea tamb\u00e9m se move em minha dire\u00e7\u00e3o. \u00c0s vezes voc\u00ea chega primeiro, \u00e0s vezes eu; \u00e0s vezes um de n\u00f3s caminha muito mais, mas existe uma estrada de m\u00e3o dupla. O problema come\u00e7a quando descobrimos que estamos sempre caminhando sozinhos. E talvez o sinal mais doloroso de uma rela\u00e7\u00e3o esvaziada n\u00e3o seja deixar de amar, mas perceber que j\u00e1 n\u00e3o esperamos mais nada. Porque enquanto esperamos, ainda existe desejo de encontro; quando deixamos de esperar, talvez seja porque cansamos de bater \u00e0 porta. E algumas portas n\u00e3o estavam trancadas. Apenas ningu\u00e9m estava vindo abri-las. No amor, n\u00e3o precisamos de equival\u00eancia; precisamos de presen\u00e7a. N\u00e3o precisamos de simetria; precisamos de encontro. N\u00e3o precisamos que o outro fa\u00e7a tudo por n\u00f3s; precisamos apenas n\u00e3o ser os \u00fanicos fazendo alguma coisa. Uma rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o deveria exigir que uma pessoa carregasse duas pessoas. Talvez amar seja isso: n\u00e3o caminhar sempre lado a lado, mas saber que, quando voc\u00ea olhar para tr\u00e1s, haver\u00e1 algu\u00e9m caminhando na sua dire\u00e7\u00e3o. Caso contr\u00e1rio, pode haver dois corpos na mesma hist\u00f3ria, mas apenas uma pessoa estar\u00e1 vivendo a rela\u00e7\u00e3o. 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