{"id":3119,"date":"2026-09-24T13:39:04","date_gmt":"2026-09-24T16:39:04","guid":{"rendered":"https:\/\/ritacruz.pro.br\/?p=3119"},"modified":"2026-09-25T19:50:16","modified_gmt":"2026-09-25T22:50:16","slug":"o-amor-possivel-dentro-da-imperfeicao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3119","title":{"rendered":"O amor poss\u00edvel dentro da imperfei\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe amor perfeito porque n\u00e3o existem pessoas perfeitas. Existe, antes, a possibilidade de um encontro entre duas pessoas que chegam uma \u00e0 outra trazendo consigo tudo aquilo que viveram antes de se conhecer. Cada uma carrega uma inf\u00e2ncia, antigas alegrias, perdas, medos, desejos, rela\u00e7\u00f5es anteriores, maneiras particulares de se proteger e de demonstrar afeto. H\u00e1 marcas que o outro n\u00e3o produziu e que, ainda assim, entrar\u00e3o inevitavelmente na rela\u00e7\u00e3o. Por isso, talvez seja uma das maiores ilus\u00f5es amorosas imaginar que encontraremos algu\u00e9m completamente livre de contradi\u00e7\u00f5es, pronto para corresponder exatamente \u00e0s nossas necessidades. O outro chega com uma hist\u00f3ria que n\u00e3o podemos reescrever, assim como n\u00f3s chegamos com um passado que n\u00e3o pode ser apagado. Amar algu\u00e9m \u00e9, em alguma medida, encontrar essa pessoa no ponto exato em que duas hist\u00f3rias, at\u00e9 ent\u00e3o independentes, decidem come\u00e7ar a compartilhar uma parte do caminho.<\/p>\n<p>Talvez por isso o amor real seja muito diferente do amor imaginado. Na fantasia, duas pessoas se encontram e finalmente todas as pe\u00e7as parecem se encaixar: os desejos coincidem, as diferen\u00e7as parecem pequenas, os conflitos podem ser resolvidos com facilidade e o futuro adquire uma esp\u00e9cie de nitidez que a vida nunca oferece. Na realidade, o encontro logo revela aquilo que a paix\u00e3o inicialmente encobria. Descobrimos h\u00e1bitos que n\u00e3o compreendemos, necessidades que n\u00e3o compartilhamos, sensibilidades diferentes, maneiras distintas de lidar com o sofrimento e expectativas que nunca hav\u00edamos colocado em palavras. O outro deixa de ser personagem e passa a ser pessoa. E \u00e9 justamente nesse momento que o amor pode come\u00e7ar a adquirir uma forma mais profunda, porque amar uma imagem \u00e9 relativamente f\u00e1cil; dif\u00edcil \u00e9 continuar interessado quando a imagem se desfaz e aparece diante de n\u00f3s algu\u00e9m que possui limites, contradi\u00e7\u00f5es e uma subjetividade que n\u00e3o podemos controlar.<\/p>\n<p>Erich Fromm compreendia o amor maduro como uma atitude que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956). Essa ideia \u00e9 importante porque desloca o amor do territ\u00f3rio exclusivo do sentimento para o territ\u00f3rio da constru\u00e7\u00e3o. Amar n\u00e3o \u00e9 apenas experimentar uma emo\u00e7\u00e3o intensa diante de algu\u00e9m; \u00e9 tamb\u00e9m aprender a conhec\u00ea-lo, reconhecer sua alteridade e cuidar daquilo que existe entre os dois. Isso n\u00e3o significa aceitar tudo nem transformar qualquer sofrimento em prova de amor. Uma rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa de limites, respeito e liberdade, e h\u00e1 incompatibilidades que n\u00e3o podem ou n\u00e3o devem ser romantizadas. Mas reconhecer a imperfei\u00e7\u00e3o do outro \u00e9 diferente de justificar aquilo que nos destr\u00f3i. O amor poss\u00edvel n\u00e3o \u00e9 aquele que tolera qualquer coisa em nome de permanecer junto; \u00e9 aquele que consegue distinguir entre aquilo que precisa ser compreendido e aquilo que precisa ser transformado, negociado ou, em determinadas circunst\u00e2ncias, deixado para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m algo profundamente humano na impossibilidade de saber o que acontecer\u00e1 depois. Quando duas pessoas come\u00e7am uma rela\u00e7\u00e3o, nenhuma delas possui garantias sobre o futuro. N\u00e3o sabemos quais acontecimentos atravessaremos, quais mudan\u00e7as nos transformar\u00e3o, quais perdas nos aproximar\u00e3o ou nos afastar\u00e3o, nem se aquilo que hoje parece definitivo continuar\u00e1 sendo verdadeiro daqui a alguns anos. A fil\u00f3sofa Simone de Beauvoir, ao refletir sobre liberdade e exist\u00eancia, mostrou como a vida humana se realiza dentro de uma condi\u00e7\u00e3o de abertura e incerteza: somos seres situados em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o escolhemos completamente, mas continuamos respons\u00e1veis pelas escolhas que fazemos dentro delas (BEAUVOIR, 1947). Talvez o amor tamb\u00e9m seja uma experi\u00eancia dessa liberdade. N\u00e3o podemos garantir que o outro permanecer\u00e1 exatamente como \u00e9, nem que n\u00f3s permaneceremos os mesmos. Podemos apenas escolher, no presente, como trataremos a pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s e que esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o queremos construir enquanto nossas hist\u00f3rias continuam se transformando.<\/p>\n<p>\u00c9 justamente por isso que amar exige uma certa coragem diante da incerteza. Queremos garantias porque temos medo da perda, mas nenhuma promessa consegue eliminar completamente a possibilidade de perder algu\u00e9m. Podemos construir confian\u00e7a, estabelecer compromissos, cultivar intimidade e fazer planos, mas continuaremos vivendo em um mundo no qual as pessoas mudam e o futuro permanece desconhecido. O amor n\u00e3o elimina essa vulnerabilidade; talvez ele a torne mais consciente. Quando amamos, alguma coisa importante passa a depender tamb\u00e9m de algu\u00e9m que n\u00e3o podemos controlar. E talvez seja essa a raz\u00e3o pela qual o amor verdadeiro n\u00e3o possa ser confundido com posse. Amar n\u00e3o \u00e9 assegurar que o outro permanecer\u00e1 conosco para sempre; \u00e9 construir, enquanto caminhamos juntos, uma rela\u00e7\u00e3o na qual ambos possam existir com liberdade, responsabilidade e cuidado. Como observa Zygmunt Bauman ao discutir os v\u00ednculos afetivos contempor\u00e2neos, rela\u00e7\u00f5es humanas envolvem simultaneamente desejo de seguran\u00e7a e medo da vulnerabilidade (BAUMAN, 2004). Queremos a certeza de que seremos amados sem precisar enfrentar a possibilidade de sermos feridos. Mas talvez n\u00e3o exista intimidade sem algum grau de risco.<\/p>\n<p>No fim, talvez amar seja menos encontrar algu\u00e9m que corresponda \u00e0quilo que imaginamos e mais aprender a construir alguma coisa verdadeira com aquilo que a realidade nos oferece. Duas pessoas imperfeitas, duas hist\u00f3rias que n\u00e3o podem ser apagadas, dois conjuntos de experi\u00eancias que \u00e0s vezes se aproximam e \u00e0s vezes entram em conflito, duas subjetividades que continuar\u00e3o mudando enquanto tentam permanecer em rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 garantia de perman\u00eancia, assim como n\u00e3o h\u00e1 necessidade de perfei\u00e7\u00e3o para que exista beleza. O que pode existir \u00e9 cuidado; pode existir escolha; pode existir respeito; pode existir a disposi\u00e7\u00e3o de reparar quando ferimos, de conversar quando n\u00e3o compreendemos, de mudar quando percebemos que algo precisa ser diferente. Talvez seja isso que torna um amor verdadeiro: n\u00e3o a aus\u00eancia de falhas, mas a capacidade de construir algo significativo apesar delas. Porque o amor n\u00e3o acontece fora da imperfei\u00e7\u00e3o humana. Ele acontece justamente dentro dela, nesse territ\u00f3rio incerto em que duas pessoas, sem saber exatamente onde a estrada termina, decidem caminhar juntas por algum trecho e fazer desse trecho algo que valha a pena viver.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>BAUMAN, Zygmunt. Amor l\u00edquido: sobre a fragilidade dos la\u00e7os humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.<br \/>\nBEAUVOIR, Simone de. Pyrrhus et Cin\u00e9as. Paris: Gallimard, 1944.<br \/>\nFROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe amor perfeito porque n\u00e3o existem pessoas perfeitas. Existe, antes, a possibilidade de um encontro entre duas pessoas que chegam uma \u00e0 outra trazendo consigo tudo aquilo que viveram antes de se conhecer. Cada uma carrega uma inf\u00e2ncia, antigas alegrias, perdas, medos, desejos, rela\u00e7\u00f5es anteriores, maneiras particulares de se proteger e de demonstrar afeto. H\u00e1 marcas que o outro n\u00e3o produziu e que, ainda assim, entrar\u00e3o inevitavelmente na rela\u00e7\u00e3o. Por isso, talvez seja uma das maiores ilus\u00f5es amorosas imaginar que encontraremos algu\u00e9m completamente livre de contradi\u00e7\u00f5es, pronto para corresponder exatamente \u00e0s nossas necessidades. O outro chega com uma hist\u00f3ria que n\u00e3o podemos reescrever, assim como n\u00f3s chegamos com um passado que n\u00e3o pode ser apagado. Amar algu\u00e9m \u00e9, em alguma medida, encontrar essa pessoa no ponto exato em que duas hist\u00f3rias, at\u00e9 ent\u00e3o independentes, decidem come\u00e7ar a compartilhar uma parte do caminho. Talvez por isso o amor real seja muito diferente do amor imaginado. Na fantasia, duas pessoas se encontram e finalmente todas as pe\u00e7as parecem se encaixar: os desejos coincidem, as diferen\u00e7as parecem pequenas, os conflitos podem ser resolvidos com facilidade e o futuro adquire uma esp\u00e9cie de nitidez que a vida nunca oferece. Na realidade, o encontro logo revela aquilo que a paix\u00e3o inicialmente encobria. Descobrimos h\u00e1bitos que n\u00e3o compreendemos, necessidades que n\u00e3o compartilhamos, sensibilidades diferentes, maneiras distintas de lidar com o sofrimento e expectativas que nunca hav\u00edamos colocado em palavras. O outro deixa de ser personagem e passa a ser pessoa. E \u00e9 justamente nesse momento que o amor pode come\u00e7ar a adquirir uma forma mais profunda, porque amar uma imagem \u00e9 relativamente f\u00e1cil; dif\u00edcil \u00e9 continuar interessado quando a imagem se desfaz e aparece diante de n\u00f3s algu\u00e9m que possui limites, contradi\u00e7\u00f5es e uma subjetividade que n\u00e3o podemos controlar. Erich Fromm compreendia o amor maduro como uma atitude que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956). Essa ideia \u00e9 importante porque desloca o amor do territ\u00f3rio exclusivo do sentimento para o territ\u00f3rio da constru\u00e7\u00e3o. Amar n\u00e3o \u00e9 apenas experimentar uma emo\u00e7\u00e3o intensa diante de algu\u00e9m; \u00e9 tamb\u00e9m aprender a conhec\u00ea-lo, reconhecer sua alteridade e cuidar daquilo que existe entre os dois. Isso n\u00e3o significa aceitar tudo nem transformar qualquer sofrimento em prova de amor. Uma rela\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisa de limites, respeito e liberdade, e h\u00e1 incompatibilidades que n\u00e3o podem ou n\u00e3o devem ser romantizadas. Mas reconhecer a imperfei\u00e7\u00e3o do outro \u00e9 diferente de justificar aquilo que nos destr\u00f3i. O amor poss\u00edvel n\u00e3o \u00e9 aquele que tolera qualquer coisa em nome de permanecer junto; \u00e9 aquele que consegue distinguir entre aquilo que precisa ser compreendido e aquilo que precisa ser transformado, negociado ou, em determinadas circunst\u00e2ncias, deixado para tr\u00e1s. H\u00e1 tamb\u00e9m algo profundamente humano na impossibilidade de saber o que acontecer\u00e1 depois. Quando duas pessoas come\u00e7am uma rela\u00e7\u00e3o, nenhuma delas possui garantias sobre o futuro. N\u00e3o sabemos quais acontecimentos atravessaremos, quais mudan\u00e7as nos transformar\u00e3o, quais perdas nos aproximar\u00e3o ou nos afastar\u00e3o, nem se aquilo que hoje parece definitivo continuar\u00e1 sendo verdadeiro daqui a alguns anos. A fil\u00f3sofa Simone de Beauvoir, ao refletir sobre liberdade e exist\u00eancia, mostrou como a vida humana se realiza dentro de uma condi\u00e7\u00e3o de abertura e incerteza: somos seres situados em circunst\u00e2ncias que n\u00e3o escolhemos completamente, mas continuamos respons\u00e1veis pelas escolhas que fazemos dentro delas (BEAUVOIR, 1947). Talvez o amor tamb\u00e9m seja uma experi\u00eancia dessa liberdade. N\u00e3o podemos garantir que o outro permanecer\u00e1 exatamente como \u00e9, nem que n\u00f3s permaneceremos os mesmos. Podemos apenas escolher, no presente, como trataremos a pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s e que esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o queremos construir enquanto nossas hist\u00f3rias continuam se transformando. \u00c9 justamente por isso que amar exige uma certa coragem diante da incerteza. Queremos garantias porque temos medo da perda, mas nenhuma promessa consegue eliminar completamente a possibilidade de perder algu\u00e9m. Podemos construir confian\u00e7a, estabelecer compromissos, cultivar intimidade e fazer planos, mas continuaremos vivendo em um mundo no qual as pessoas mudam e o futuro permanece desconhecido. O amor n\u00e3o elimina essa vulnerabilidade; talvez ele a torne mais consciente. Quando amamos, alguma coisa importante passa a depender tamb\u00e9m de algu\u00e9m que n\u00e3o podemos controlar. E talvez seja essa a raz\u00e3o pela qual o amor verdadeiro n\u00e3o possa ser confundido com posse. Amar n\u00e3o \u00e9 assegurar que o outro permanecer\u00e1 conosco para sempre; \u00e9 construir, enquanto caminhamos juntos, uma rela\u00e7\u00e3o na qual ambos possam existir com liberdade, responsabilidade e cuidado. Como observa Zygmunt Bauman ao discutir os v\u00ednculos afetivos contempor\u00e2neos, rela\u00e7\u00f5es humanas envolvem simultaneamente desejo de seguran\u00e7a e medo da vulnerabilidade (BAUMAN, 2004). Queremos a certeza de que seremos amados sem precisar enfrentar a possibilidade de sermos feridos. Mas talvez n\u00e3o exista intimidade sem algum grau de risco. No fim, talvez amar seja menos encontrar algu\u00e9m que corresponda \u00e0quilo que imaginamos e mais aprender a construir alguma coisa verdadeira com aquilo que a realidade nos oferece. Duas pessoas imperfeitas, duas hist\u00f3rias que n\u00e3o podem ser apagadas, dois conjuntos de experi\u00eancias que \u00e0s vezes se aproximam e \u00e0s vezes entram em conflito, duas subjetividades que continuar\u00e3o mudando enquanto tentam permanecer em rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 garantia de perman\u00eancia, assim como n\u00e3o h\u00e1 necessidade de perfei\u00e7\u00e3o para que exista beleza. O que pode existir \u00e9 cuidado; pode existir escolha; pode existir respeito; pode existir a disposi\u00e7\u00e3o de reparar quando ferimos, de conversar quando n\u00e3o compreendemos, de mudar quando percebemos que algo precisa ser diferente. Talvez seja isso que torna um amor verdadeiro: n\u00e3o a aus\u00eancia de falhas, mas a capacidade de construir algo significativo apesar delas. Porque o amor n\u00e3o acontece fora da imperfei\u00e7\u00e3o humana. Ele acontece justamente dentro dela, nesse territ\u00f3rio incerto em que duas pessoas, sem saber exatamente onde a estrada termina, decidem caminhar juntas por algum trecho e fazer desse trecho algo que valha a pena viver. Refer\u00eancias BAUMAN, Zygmunt. Amor l\u00edquido: sobre a fragilidade dos la\u00e7os humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004. BEAUVOIR, Simone de. Pyrrhus et Cin\u00e9as. Paris: Gallimard, 1944. FROMM, Erich. A arte de amar. 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