{"id":3149,"date":"2026-09-27T09:15:27","date_gmt":"2026-09-27T12:15:27","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3149"},"modified":"2026-09-27T09:15:27","modified_gmt":"2026-09-27T12:15:27","slug":"o-desejo-precisa-de-alguma-distancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3149","title":{"rendered":"O desejo precisa de alguma dist\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"<p>Desejar algu\u00e9m \u00e9 reconhecer, ainda que silenciosamente, que existe uma dist\u00e2ncia que nenhum amor consegue abolir completamente. Podemos conhecer os gestos de uma pessoa, aprender seus sil\u00eancios, reconhecer a maneira como ela sorri quando est\u00e1 feliz e perceber quando alguma tristeza come\u00e7a a se aproximar, mas haver\u00e1 sempre uma regi\u00e3o do outro que permanecer\u00e1 inacess\u00edvel. N\u00e3o porque exista necessariamente um segredo, mas porque cada pessoa \u00e9, em alguma medida, um mundo que n\u00e3o pode ser inteiramente habitado por outra. Amamos algu\u00e9m justamente quando percebemos que diante de n\u00f3s existe uma consci\u00eancia, uma hist\u00f3ria, uma liberdade e uma interioridade que n\u00e3o nos pertencem. O desejo talvez comece nesse reconhecimento: eu me aproximo de voc\u00ea porque voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma extens\u00e3o de mim.<\/p>\n<p>Existe uma tenta\u00e7\u00e3o muito humana de transformar o amor em certeza. Queremos saber onde o outro est\u00e1, o que pensa, o que sente, se ainda deseja, se continuar\u00e1 desejando amanh\u00e3. Queremos garantias contra a perda porque sabemos, mesmo quando fingimos n\u00e3o saber, que ningu\u00e9m pode ser possu\u00eddo definitivamente. Mas quanto mais tentamos transformar uma pessoa em territ\u00f3rio conhecido e seguro, mais corremos o risco de substituir o encontro pelo controle. O amor come\u00e7a a pedir provas, explica\u00e7\u00f5es, disponibilidade permanente, transpar\u00eancia absoluta. E aquilo que deveria ser uma aproxima\u00e7\u00e3o entre duas liberdades pode lentamente transformar-se em uma vigil\u00e2ncia m\u00fatua. Possuir inteiramente o outro seria, paradoxalmente, deixar de encontr\u00e1-lo como outro.<\/p>\n<p>Talvez o desejo precise justamente daquilo que o amor possessivo tenta eliminar: alguma dist\u00e2ncia. N\u00e3o uma dist\u00e2ncia de abandono, indiferen\u00e7a ou frieza, mas o espa\u00e7o necess\u00e1rio para que duas pessoas continuem sendo duas. O desejo se alimenta da percep\u00e7\u00e3o de que ainda h\u00e1 algo a descobrir, alguma coisa que n\u00e3o se entrega completamente, um pensamento que o outro ainda n\u00e3o disse, um caminho que ainda n\u00e3o percorremos juntos. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre desejar aproximar-se e querer eliminar toda dist\u00e2ncia. A primeira possibilidade preserva o mist\u00e9rio; a segunda tenta destru\u00ed-lo. Quando tudo precisa ser conhecido, explicado e antecipado, o outro deixa de aparecer como presen\u00e7a viva e come\u00e7a a ser tratado como objeto de conhecimento. E talvez nada mate mais lentamente o desejo do que a transforma\u00e7\u00e3o da pessoa amada em algo que acreditamos j\u00e1 possuir completamente.<\/p>\n<p>Erich Fromm percebeu que amar n\u00e3o significa dissolver a individualidade de duas pessoas em uma \u00fanica exist\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, o amor maduro pressup\u00f5e uma aproxima\u00e7\u00e3o em que a diferen\u00e7a permanece. Simone de Beauvoir tamb\u00e9m compreendeu a tens\u00e3o entre amor e liberdade: querer que o outro exista para n\u00f3s pode facilmente se transformar na tentativa de fazer com que sua liberdade confirme continuamente o nosso lugar. Mas ningu\u00e9m pode amar verdadeiramente se o amor exigir a ren\u00fancia \u00e0 pr\u00f3pria autonomia. Existe uma forma mais delicada de v\u00ednculo, na qual dizemos, de alguma maneira: \u201cquero estar perto de voc\u00ea, mas n\u00e3o quero que voc\u00ea deixe de ser voc\u00ea para permanecer comigo\u201d. Talvez essa seja uma das formas mais dif\u00edceis de amar, porque exige suportar a incerteza sem transform\u00e1-la imediatamente em controle.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa romantizar a dist\u00e2ncia nem imaginar que toda indisponibilidade seja misteriosa ou desej\u00e1vel. H\u00e1 aus\u00eancias que ferem, dist\u00e2ncias que revelam desinteresse e rela\u00e7\u00f5es nas quais o outro simplesmente n\u00e3o deseja construir proximidade. O desejo n\u00e3o precisa de sofrimento para existir. Ele precisa, antes, de alteridade. Precisa que o outro continue sendo algu\u00e9m que escolhe aproximar-se, e n\u00e3o algu\u00e9m que foi capturado por nossas expectativas. Talvez por isso o amor mais vivo seja aquele em que ainda podemos perceber a liberdade do outro: ele est\u00e1 comigo, mas poderia n\u00e3o estar; escolhe permanecer, mas sua perman\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma propriedade adquirida. E justamente porque \u00e9 escolha, sua presen\u00e7a conserva algo de precioso.<\/p>\n<p>No fundo, amar talvez seja aprender a conviver com o fato de que jamais teremos completamente aquilo que desejamos \u2014 e que isso n\u00e3o precisa ser uma trag\u00e9dia. O outro n\u00e3o \u00e9 uma coisa que recebemos, guardamos e protegemos da passagem do tempo. \u00c9 uma pessoa que continua acontecendo diante de n\u00f3s, mudando, pensando, desejando, afastando-se e aproximando-se, \u00e0s vezes at\u00e9 surpreendendo a si mesma. Talvez o amor sobreviva melhor quando n\u00e3o tenta aprisionar aquilo que deseja conservar. Porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre segurar algu\u00e9m e permanecer ao lado de algu\u00e9m. A m\u00e3o fechada pode impedir a partida, mas n\u00e3o produz intimidade. A m\u00e3o aberta n\u00e3o oferece garantias; oferece espa\u00e7o. E talvez seja justamente nesse espa\u00e7o, onde ningu\u00e9m pertence inteiramente a ningu\u00e9m, que o desejo consegue continuar respirando.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>FROMM, Erich.<a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0inbCkIA\" target=\"_blank\"> A arte de amar<\/a>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015.<br \/>\nBEAUVOIR, Simone de. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0fBPMY3R\" target=\"_blank\">Por uma moral da ambiguidade<\/a>. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.<br \/>\nLEVINAS, Emmanuel. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/02US4xZL\" target=\"_blank\">\u00c9tica e infinito<\/a>. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988.<br \/>\nHAN, Byung-Chul. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/04J4OHav\" target=\"_blank\">A agonia de Eros<\/a>. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desejar algu\u00e9m \u00e9 reconhecer, ainda que silenciosamente, que existe uma dist\u00e2ncia que nenhum amor consegue abolir completamente. Podemos conhecer os gestos de uma pessoa, aprender seus sil\u00eancios, reconhecer a maneira como ela sorri quando est\u00e1 feliz e perceber quando alguma tristeza come\u00e7a a se aproximar, mas haver\u00e1 sempre uma regi\u00e3o do outro que permanecer\u00e1 inacess\u00edvel. N\u00e3o porque exista necessariamente um segredo, mas porque cada pessoa \u00e9, em alguma medida, um mundo que n\u00e3o pode ser inteiramente habitado por outra. Amamos algu\u00e9m justamente quando percebemos que diante de n\u00f3s existe uma consci\u00eancia, uma hist\u00f3ria, uma liberdade e uma interioridade que n\u00e3o nos pertencem. O desejo talvez comece nesse reconhecimento: eu me aproximo de voc\u00ea porque voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 uma extens\u00e3o de mim. Existe uma tenta\u00e7\u00e3o muito humana de transformar o amor em certeza. Queremos saber onde o outro est\u00e1, o que pensa, o que sente, se ainda deseja, se continuar\u00e1 desejando amanh\u00e3. Queremos garantias contra a perda porque sabemos, mesmo quando fingimos n\u00e3o saber, que ningu\u00e9m pode ser possu\u00eddo definitivamente. Mas quanto mais tentamos transformar uma pessoa em territ\u00f3rio conhecido e seguro, mais corremos o risco de substituir o encontro pelo controle. O amor come\u00e7a a pedir provas, explica\u00e7\u00f5es, disponibilidade permanente, transpar\u00eancia absoluta. E aquilo que deveria ser uma aproxima\u00e7\u00e3o entre duas liberdades pode lentamente transformar-se em uma vigil\u00e2ncia m\u00fatua. Possuir inteiramente o outro seria, paradoxalmente, deixar de encontr\u00e1-lo como outro. Talvez o desejo precise justamente daquilo que o amor possessivo tenta eliminar: alguma dist\u00e2ncia. N\u00e3o uma dist\u00e2ncia de abandono, indiferen\u00e7a ou frieza, mas o espa\u00e7o necess\u00e1rio para que duas pessoas continuem sendo duas. O desejo se alimenta da percep\u00e7\u00e3o de que ainda h\u00e1 algo a descobrir, alguma coisa que n\u00e3o se entrega completamente, um pensamento que o outro ainda n\u00e3o disse, um caminho que ainda n\u00e3o percorremos juntos. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre desejar aproximar-se e querer eliminar toda dist\u00e2ncia. A primeira possibilidade preserva o mist\u00e9rio; a segunda tenta destru\u00ed-lo. Quando tudo precisa ser conhecido, explicado e antecipado, o outro deixa de aparecer como presen\u00e7a viva e come\u00e7a a ser tratado como objeto de conhecimento. E talvez nada mate mais lentamente o desejo do que a transforma\u00e7\u00e3o da pessoa amada em algo que acreditamos j\u00e1 possuir completamente. Erich Fromm percebeu que amar n\u00e3o significa dissolver a individualidade de duas pessoas em uma \u00fanica exist\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, o amor maduro pressup\u00f5e uma aproxima\u00e7\u00e3o em que a diferen\u00e7a permanece. Simone de Beauvoir tamb\u00e9m compreendeu a tens\u00e3o entre amor e liberdade: querer que o outro exista para n\u00f3s pode facilmente se transformar na tentativa de fazer com que sua liberdade confirme continuamente o nosso lugar. Mas ningu\u00e9m pode amar verdadeiramente se o amor exigir a ren\u00fancia \u00e0 pr\u00f3pria autonomia. Existe uma forma mais delicada de v\u00ednculo, na qual dizemos, de alguma maneira: \u201cquero estar perto de voc\u00ea, mas n\u00e3o quero que voc\u00ea deixe de ser voc\u00ea para permanecer comigo\u201d. Talvez essa seja uma das formas mais dif\u00edceis de amar, porque exige suportar a incerteza sem transform\u00e1-la imediatamente em controle. Isso n\u00e3o significa romantizar a dist\u00e2ncia nem imaginar que toda indisponibilidade seja misteriosa ou desej\u00e1vel. H\u00e1 aus\u00eancias que ferem, dist\u00e2ncias que revelam desinteresse e rela\u00e7\u00f5es nas quais o outro simplesmente n\u00e3o deseja construir proximidade. O desejo n\u00e3o precisa de sofrimento para existir. Ele precisa, antes, de alteridade. Precisa que o outro continue sendo algu\u00e9m que escolhe aproximar-se, e n\u00e3o algu\u00e9m que foi capturado por nossas expectativas. Talvez por isso o amor mais vivo seja aquele em que ainda podemos perceber a liberdade do outro: ele est\u00e1 comigo, mas poderia n\u00e3o estar; escolhe permanecer, mas sua perman\u00eancia n\u00e3o \u00e9 uma propriedade adquirida. E justamente porque \u00e9 escolha, sua presen\u00e7a conserva algo de precioso. No fundo, amar talvez seja aprender a conviver com o fato de que jamais teremos completamente aquilo que desejamos \u2014 e que isso n\u00e3o precisa ser uma trag\u00e9dia. O outro n\u00e3o \u00e9 uma coisa que recebemos, guardamos e protegemos da passagem do tempo. \u00c9 uma pessoa que continua acontecendo diante de n\u00f3s, mudando, pensando, desejando, afastando-se e aproximando-se, \u00e0s vezes at\u00e9 surpreendendo a si mesma. Talvez o amor sobreviva melhor quando n\u00e3o tenta aprisionar aquilo que deseja conservar. Porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre segurar algu\u00e9m e permanecer ao lado de algu\u00e9m. A m\u00e3o fechada pode impedir a partida, mas n\u00e3o produz intimidade. A m\u00e3o aberta n\u00e3o oferece garantias; oferece espa\u00e7o. E talvez seja justamente nesse espa\u00e7o, onde ningu\u00e9m pertence inteiramente a ningu\u00e9m, que o desejo consegue continuar respirando. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas FROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015. BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005. LEVINAS, Emmanuel. \u00c9tica e infinito. Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es 70, 1988. HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[419,379,393],"tags":[416,421,411,210],"class_list":["post-3149","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amor","category-filosofia","category-psicologia","tag-byung-chul-han","tag-emmanuel-levinas","tag-erich-fromm","tag-simone-de-beauvoir"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3149"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3149\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3150,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3149\/revisions\/3150"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}