{"id":3153,"date":"2026-09-29T06:59:11","date_gmt":"2026-09-29T09:59:11","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3153"},"modified":"2026-09-29T06:59:11","modified_gmt":"2026-09-29T09:59:11","slug":"quando-o-silencio-comeca-a-dizer-adeus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3153","title":{"rendered":"Quando o sil\u00eancio come\u00e7a a dizer adeus"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 sil\u00eancios que s\u00f3 existem porque j\u00e1 n\u00e3o precisamos preencher todos os espa\u00e7os entre n\u00f3s. S\u00e3o aqueles momentos em que duas pessoas podem permanecer lado a lado sem procurar desesperadamente alguma coisa para dizer, porque a presen\u00e7a basta. Podemos ler no mesmo quarto, caminhar sem conversar, olhar pela janela, dividir o cansa\u00e7o de um dia dif\u00edcil. Nesse sil\u00eancio n\u00e3o existe abandono, mas repouso. Ele n\u00e3o fecha uma porta: deixa-a aberta sem exigir que algu\u00e9m atravesse. Talvez uma das formas mais delicadas de intimidade seja justamente descobrir que podemos ficar em sil\u00eancio diante de algu\u00e9m sem sentir que precisamos reconquistar continuamente seu interesse. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es em que as palavras aproximam; h\u00e1 outras em que a proximidade se tornou suficientemente segura para sobreviver tamb\u00e9m \u00e0 aus\u00eancia delas.<\/p>\n<p>Mas existe outro sil\u00eancio, muito diferente, embora exteriormente possa parecer o mesmo. \u00c9 aquele que come\u00e7a quando alguma coisa entre duas pessoas deixa de circular. J\u00e1 n\u00e3o contamos o que aconteceu durante o dia, n\u00e3o porque tenhamos encontrado uma intimidade tranquila, mas porque come\u00e7amos a imaginar que o outro n\u00e3o se interessaria. Uma pequena alegria acontece e j\u00e1 n\u00e3o pensamos imediatamente em compartilh\u00e1-la. Uma tristeza chega e preferimos atravess\u00e1-la sozinhos. Aos poucos, acontecimentos que antes procuravam espontaneamente a pessoa amada passam a permanecer dentro de n\u00f3s. O relacionamento continua existindo por fora \u2014 os compromissos, os h\u00e1bitos, talvez a mesma casa, a mesma cama, as mesmas perguntas cotidianas \u2014, mas alguma ponte invis\u00edvel come\u00e7a a ser menos atravessada. E talvez o afastamento mais profundo n\u00e3o aconte\u00e7a quando duas pessoas deixam de conversar, mas quando deixam de desejar contar uma \u00e0 outra aquilo que lhes acontece.<\/p>\n<p>John Gottman, ao estudar relacionamentos conjugais durante d\u00e9cadas, chamou aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia das pequenas tentativas de conex\u00e3o que fazemos cotidianamente: um coment\u00e1rio aparentemente banal, um olhar, uma pergunta, uma hist\u00f3ria que queremos contar, alguma coisa que mostramos ao outro simplesmente porque desejamos dividir nossa experi\u00eancia com ele. A intimidade n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda apenas pelas grandes declara\u00e7\u00f5es de amor, mas pela resposta repetida a esses pequenos movimentos. Quando algu\u00e9m diz \u201colha isso\u201d, muitas vezes n\u00e3o est\u00e1 apenas mostrando alguma coisa; est\u00e1 dizendo, de maneira quase invis\u00edvel: venha por alguns segundos habitar o meu mundo. Quando essas aproxima\u00e7\u00f5es deixam continuamente de encontrar resposta, podemos aprender a n\u00e3o faz\u00ea-las mais. O sil\u00eancio que aparece depois talvez pare\u00e7a repentino, mas frequentemente foi sendo constru\u00eddo por muitas pequenas desist\u00eancias.<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que nem todo sil\u00eancio \u00e9 paz. \u00c0s vezes, aquilo que chamamos de tranquilidade \u00e9 apenas cansa\u00e7o depois de in\u00fameras tentativas frustradas de aproxima\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pessoas que param de discutir n\u00e3o porque o conflito tenha sido resolvido, mas porque j\u00e1 n\u00e3o acreditam que conversar possa transformar alguma coisa. Sue Johnson, ao estudar os v\u00ednculos amorosos a partir da teoria do apego, mostrou como muitos conflitos aparentemente banais escondem perguntas afetivas mais profundas: voc\u00ea est\u00e1 dispon\u00edvel para mim? Posso alcan\u00e7\u00e1-lo quando preciso? Ainda importo para voc\u00ea? Quando essas perguntas deixam repetidamente de encontrar resposta, o protesto pode pouco a pouco transformar-se em retraimento. E talvez exista algo particularmente triste nesse momento: enquanto ainda discutimos, alguma parte de n\u00f3s acredita que existe uma ponte a reconstruir; quando desistimos completamente de atravess\u00e1-la, pode surgir uma calma que se parece com paz, mas j\u00e1 cont\u00e9m alguma coisa de despedida.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que todo afastamento silencioso anuncie necessariamente o fim. Rela\u00e7\u00f5es atravessam per\u00edodos de cansa\u00e7o, sobrecarga, tristeza e recolhimento; pessoas tamb\u00e9m precisam de solid\u00e3o, e amar algu\u00e9m inclui respeitar momentos em que ele n\u00e3o consegue ou n\u00e3o deseja falar. O problema n\u00e3o est\u00e1 no sil\u00eancio em si, mas naquilo que ele comunica dentro daquela rela\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre \u201cn\u00e3o tenho palavras agora, mas continuo aqui\u201d e \u201cj\u00e1 n\u00e3o quero que voc\u00ea chegue at\u00e9 mim\u201d. O primeiro preserva o v\u00ednculo mesmo durante o recolhimento; o segundo come\u00e7a a retirar dele a disponibilidade. Talvez por isso a intimidade exija uma escuta que v\u00e1 al\u00e9m das frases. \u00c0s vezes precisamos perceber n\u00e3o apenas aquilo que o outro est\u00e1 dizendo, mas tamb\u00e9m aquilo que deixou de nos dizer.<\/p>\n<p>Algumas despedidas, afinal, n\u00e3o come\u00e7am com uma porta fechando. Come\u00e7am quando deixamos de contar uma pequena coisa. Depois outra. Quando j\u00e1 n\u00e3o perguntamos como foi determinado compromisso, quando o sil\u00eancio do outro deixa de despertar curiosidade, quando uma alegria procura algu\u00e9m para ser compartilhada e esse algu\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 quem est\u00e1 ao nosso lado. Nenhum desses gestos, isoladamente, significa necessariamente o fim; mas, quando se acumulam, podem revelar uma dist\u00e2ncia que cresce justamente porque ningu\u00e9m mais tenta atravess\u00e1-la. Talvez amar seja tamb\u00e9m continuar construindo pequenas pontes sobre essa dist\u00e2ncia inevit\u00e1vel entre duas pessoas: uma pergunta, uma escuta verdadeira, uma m\u00e3o estendida, a coragem de dizer \u201calguma coisa mudou entre n\u00f3s\u201d. Porque h\u00e1 sil\u00eancios em que descansamos juntos e h\u00e1 sil\u00eancios em que come\u00e7amos a desaparecer da vida um do outro. Por fora, ambos parecem apenas aus\u00eancia de palavras. Por dentro, por\u00e9m, um diz silenciosamente \u201cestou aqui\u201d. O outro, quase sem que percebamos, come\u00e7a a dizer adeus.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>GOTTMAN, John M.; SILVER, Nan. The seven principles for making marriage work. New York: Harmony Books, 2015.<br \/>\nJOHNSON, Sue. Hold me tight: seven conversations for a lifetime of love. New York: Little, Brown Spark, 2008.<br \/>\nBOWLBY, John. A secure base: parent-child attachment and healthy human development. London: Routledge, 1988.<br \/>\nROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 sil\u00eancios que s\u00f3 existem porque j\u00e1 n\u00e3o precisamos preencher todos os espa\u00e7os entre n\u00f3s. S\u00e3o aqueles momentos em que duas pessoas podem permanecer lado a lado sem procurar desesperadamente alguma coisa para dizer, porque a presen\u00e7a basta. Podemos ler no mesmo quarto, caminhar sem conversar, olhar pela janela, dividir o cansa\u00e7o de um dia dif\u00edcil. Nesse sil\u00eancio n\u00e3o existe abandono, mas repouso. Ele n\u00e3o fecha uma porta: deixa-a aberta sem exigir que algu\u00e9m atravesse. Talvez uma das formas mais delicadas de intimidade seja justamente descobrir que podemos ficar em sil\u00eancio diante de algu\u00e9m sem sentir que precisamos reconquistar continuamente seu interesse. H\u00e1 rela\u00e7\u00f5es em que as palavras aproximam; h\u00e1 outras em que a proximidade se tornou suficientemente segura para sobreviver tamb\u00e9m \u00e0 aus\u00eancia delas. Mas existe outro sil\u00eancio, muito diferente, embora exteriormente possa parecer o mesmo. \u00c9 aquele que come\u00e7a quando alguma coisa entre duas pessoas deixa de circular. J\u00e1 n\u00e3o contamos o que aconteceu durante o dia, n\u00e3o porque tenhamos encontrado uma intimidade tranquila, mas porque come\u00e7amos a imaginar que o outro n\u00e3o se interessaria. Uma pequena alegria acontece e j\u00e1 n\u00e3o pensamos imediatamente em compartilh\u00e1-la. Uma tristeza chega e preferimos atravess\u00e1-la sozinhos. Aos poucos, acontecimentos que antes procuravam espontaneamente a pessoa amada passam a permanecer dentro de n\u00f3s. O relacionamento continua existindo por fora \u2014 os compromissos, os h\u00e1bitos, talvez a mesma casa, a mesma cama, as mesmas perguntas cotidianas \u2014, mas alguma ponte invis\u00edvel come\u00e7a a ser menos atravessada. E talvez o afastamento mais profundo n\u00e3o aconte\u00e7a quando duas pessoas deixam de conversar, mas quando deixam de desejar contar uma \u00e0 outra aquilo que lhes acontece. John Gottman, ao estudar relacionamentos conjugais durante d\u00e9cadas, chamou aten\u00e7\u00e3o para a import\u00e2ncia das pequenas tentativas de conex\u00e3o que fazemos cotidianamente: um coment\u00e1rio aparentemente banal, um olhar, uma pergunta, uma hist\u00f3ria que queremos contar, alguma coisa que mostramos ao outro simplesmente porque desejamos dividir nossa experi\u00eancia com ele. A intimidade n\u00e3o \u00e9 constru\u00edda apenas pelas grandes declara\u00e7\u00f5es de amor, mas pela resposta repetida a esses pequenos movimentos. Quando algu\u00e9m diz \u201colha isso\u201d, muitas vezes n\u00e3o est\u00e1 apenas mostrando alguma coisa; est\u00e1 dizendo, de maneira quase invis\u00edvel: venha por alguns segundos habitar o meu mundo. Quando essas aproxima\u00e7\u00f5es deixam continuamente de encontrar resposta, podemos aprender a n\u00e3o faz\u00ea-las mais. O sil\u00eancio que aparece depois talvez pare\u00e7a repentino, mas frequentemente foi sendo constru\u00eddo por muitas pequenas desist\u00eancias. \u00c9 por isso que nem todo sil\u00eancio \u00e9 paz. \u00c0s vezes, aquilo que chamamos de tranquilidade \u00e9 apenas cansa\u00e7o depois de in\u00fameras tentativas frustradas de aproxima\u00e7\u00e3o. H\u00e1 pessoas que param de discutir n\u00e3o porque o conflito tenha sido resolvido, mas porque j\u00e1 n\u00e3o acreditam que conversar possa transformar alguma coisa. Sue Johnson, ao estudar os v\u00ednculos amorosos a partir da teoria do apego, mostrou como muitos conflitos aparentemente banais escondem perguntas afetivas mais profundas: voc\u00ea est\u00e1 dispon\u00edvel para mim? Posso alcan\u00e7\u00e1-lo quando preciso? Ainda importo para voc\u00ea? Quando essas perguntas deixam repetidamente de encontrar resposta, o protesto pode pouco a pouco transformar-se em retraimento. E talvez exista algo particularmente triste nesse momento: enquanto ainda discutimos, alguma parte de n\u00f3s acredita que existe uma ponte a reconstruir; quando desistimos completamente de atravess\u00e1-la, pode surgir uma calma que se parece com paz, mas j\u00e1 cont\u00e9m alguma coisa de despedida. Isso n\u00e3o significa que todo afastamento silencioso anuncie necessariamente o fim. Rela\u00e7\u00f5es atravessam per\u00edodos de cansa\u00e7o, sobrecarga, tristeza e recolhimento; pessoas tamb\u00e9m precisam de solid\u00e3o, e amar algu\u00e9m inclui respeitar momentos em que ele n\u00e3o consegue ou n\u00e3o deseja falar. O problema n\u00e3o est\u00e1 no sil\u00eancio em si, mas naquilo que ele comunica dentro daquela rela\u00e7\u00e3o. H\u00e1 uma enorme diferen\u00e7a entre \u201cn\u00e3o tenho palavras agora, mas continuo aqui\u201d e \u201cj\u00e1 n\u00e3o quero que voc\u00ea chegue at\u00e9 mim\u201d. O primeiro preserva o v\u00ednculo mesmo durante o recolhimento; o segundo come\u00e7a a retirar dele a disponibilidade. Talvez por isso a intimidade exija uma escuta que v\u00e1 al\u00e9m das frases. \u00c0s vezes precisamos perceber n\u00e3o apenas aquilo que o outro est\u00e1 dizendo, mas tamb\u00e9m aquilo que deixou de nos dizer. Algumas despedidas, afinal, n\u00e3o come\u00e7am com uma porta fechando. Come\u00e7am quando deixamos de contar uma pequena coisa. Depois outra. Quando j\u00e1 n\u00e3o perguntamos como foi determinado compromisso, quando o sil\u00eancio do outro deixa de despertar curiosidade, quando uma alegria procura algu\u00e9m para ser compartilhada e esse algu\u00e9m j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 quem est\u00e1 ao nosso lado. Nenhum desses gestos, isoladamente, significa necessariamente o fim; mas, quando se acumulam, podem revelar uma dist\u00e2ncia que cresce justamente porque ningu\u00e9m mais tenta atravess\u00e1-la. Talvez amar seja tamb\u00e9m continuar construindo pequenas pontes sobre essa dist\u00e2ncia inevit\u00e1vel entre duas pessoas: uma pergunta, uma escuta verdadeira, uma m\u00e3o estendida, a coragem de dizer \u201calguma coisa mudou entre n\u00f3s\u201d. Porque h\u00e1 sil\u00eancios em que descansamos juntos e h\u00e1 sil\u00eancios em que come\u00e7amos a desaparecer da vida um do outro. Por fora, ambos parecem apenas aus\u00eancia de palavras. Por dentro, por\u00e9m, um diz silenciosamente \u201cestou aqui\u201d. O outro, quase sem que percebamos, come\u00e7a a dizer adeus. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas GOTTMAN, John M.; SILVER, Nan. The seven principles for making marriage work. New York: Harmony Books, 2015. JOHNSON, Sue. Hold me tight: seven conversations for a lifetime of love. New York: Little, Brown Spark, 2008. BOWLBY, John. A secure base: parent-child attachment and healthy human development. London: Routledge, 1988. ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. 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