{"id":3159,"date":"2026-09-30T09:36:19","date_gmt":"2026-09-30T12:36:19","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3159"},"modified":"2026-10-02T07:28:45","modified_gmt":"2026-10-02T10:28:45","slug":"a-pessoa-que-amamos-e-aquela-que-inventamos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3159","title":{"rendered":"A pessoa que amamos e aquela que inventamos"},"content":{"rendered":"<p>Apaixonar-se talvez seja uma das experi\u00eancias em que realidade e imagina\u00e7\u00e3o mais profundamente se confundem. Encontramos algu\u00e9m, ouvimos sua voz, observamos seus gestos, descobrimos algumas hist\u00f3rias, e quase sem perceber come\u00e7amos a preencher aquilo que ainda n\u00e3o sabemos. Um sil\u00eancio pode parecer profundidade; uma delicadeza pode tornar-se promessa de uma ternura que ainda n\u00e3o conhecemos; uma conversa especialmente bonita pode nos fazer imaginar centenas de outras que jamais aconteceram. N\u00e3o enxergamos apenas a pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s. Enxergamos tamb\u00e9m possibilidades. E talvez toda paix\u00e3o contenha, desde o in\u00edcio, duas figuras sobrepostas: aquela que realmente encontramos e aquela que nossa imagina\u00e7\u00e3o come\u00e7a silenciosamente a construir.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa que a paix\u00e3o seja falsa. Aquilo que sentimos pode ser absolutamente verdadeiro, mesmo quando parte da imagem que fazemos do outro n\u00e3o corresponde inteiramente \u00e0 realidade. Freud percebeu que os v\u00ednculos amorosos podem carregar processos de idealiza\u00e7\u00e3o, nos quais o objeto amado recebe qualidades ampliadas pelo investimento afetivo. Quando estamos apaixonados, certas caracter\u00edsticas ganham luminosidade enquanto outras permanecem quase invis\u00edveis. N\u00e3o necessariamente porque desejamos nos enganar, mas porque ningu\u00e9m chega ao outro com os olhos completamente vazios. Levamos conosco nossa hist\u00f3ria, nossas faltas, nossas esperan\u00e7as e aquilo que aprendemos a desejar. \u00c0s vezes, antes mesmo de conhecermos profundamente algu\u00e9m, j\u00e1 come\u00e7amos a imaginar o lugar que essa pessoa poder\u00e1 ocupar em nossa vida.<\/p>\n<p>Talvez por isso o in\u00edcio de uma paix\u00e3o tenha algo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Recebemos fragmentos e, com eles, come\u00e7amos a escrever uma hist\u00f3ria. Uma mensagem torna-se ind\u00edcio, um encontro transforma-se em promessa, uma coincid\u00eancia parece adquirir significado. Entre aquilo que sabemos e aquilo que desejamos saber existe um espa\u00e7o imenso, e a imagina\u00e7\u00e3o costuma ocup\u00e1-lo rapidamente. Podemos apaixonar-nos por uma maneira de sorrir e imaginar a pessoa inteira a partir daquele sorriso; conhecer sua generosidade em determinada circunst\u00e2ncia e supor que ela estar\u00e1 presente em todas as outras. O problema n\u00e3o est\u00e1 em imaginar \u2014 provavelmente seria imposs\u00edvel desejar sem alguma imagina\u00e7\u00e3o. O perigo come\u00e7a quando deixamos de perceber que parte daquilo que amamos foi escrita por n\u00f3s.<\/p>\n<p>\u00c9 ent\u00e3o que o tempo come\u00e7a seu trabalho silencioso. A conviv\u00eancia retira pouco a pouco algumas das proje\u00e7\u00f5es e apresenta a pessoa real: suas contradi\u00e7\u00f5es, seus limites, seus h\u00e1bitos menos encantadores, seus medos, suas zonas de ego\u00edsmo, suas diferen\u00e7as. Aquilo que parecia misterioso talvez fosse apenas dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o; aquilo que interpret\u00e1vamos como serenidade pode revelar-se dist\u00e2ncia; e algumas qualidades que sequer hav\u00edamos percebido podem surgir justamente quando outras idealiza\u00e7\u00f5es desaparecem. Winnicott escreveu sobre a passagem da rela\u00e7\u00e3o com objetos subjetivamente constitu\u00eddos para o reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos. Algo semelhante talvez aconte\u00e7a no amor: amadurecer afetivamente implica suportar que o outro n\u00e3o tenha sido criado para corresponder \u00e0quilo que imaginamos.<\/p>\n<p>Esse momento pode ser vivido como decep\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode ser o verdadeiro in\u00edcio do encontro. Porque enquanto amamos apenas a imagem que constru\u00edmos, existe sempre o risco de pedir \u00e0 pessoa real que interprete o personagem que escrevemos para ela. Queremos que seja mais dispon\u00edvel, mais rom\u00e2ntica, mais segura, mais parecida conosco; queremos que confirme a promessa que enxergamos no come\u00e7o. Erich Fromm pensava o amor maduro como uma experi\u00eancia que preserva a integridade e a individualidade de cada pessoa. Talvez amar comece justamente quando conseguimos dizer, ainda que silenciosamente: voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 exatamente quem imaginei, e agora quero descobrir quem voc\u00ea \u00e9. Nesse instante, alguma coisa da fantasia precisa morrer para que uma rela\u00e7\u00e3o entre duas pessoas reais possa nascer.<\/p>\n<p>Talvez toda paix\u00e3o comece com alguma inven\u00e7\u00e3o, mas nem todo amor precisa permanecer dentro dela. H\u00e1 uma beleza particular naquele momento em que o outro deixa de ser apenas a superf\u00edcie onde projetamos nossos desejos e come\u00e7a a aparecer diante de n\u00f3s com sua pr\u00f3pria espessura. Descobrimos ent\u00e3o que amar algu\u00e9m real \u00e9 mais dif\u00edcil do que amar algu\u00e9m imaginado, porque pessoas reais frustram expectativas, mudam, discordam, possuem regi\u00f5es que nunca compreenderemos completamente. Mas \u00e9 tamb\u00e9m infinitamente mais interessante. A pessoa que inventamos existe para corresponder aos nossos desejos; a pessoa real pode nos surpreender. Talvez o amadurecimento do amor aconte\u00e7a justamente nessa passagem: quando deixamos cair, pouco a pouco, o personagem que criamos e, em vez de lamentarmos que ele nunca tenha existido, come\u00e7amos finalmente a olhar para quem esteve diante de n\u00f3s o tempo inteiro. Porque talvez a pergunta mais profunda depois de \u201cpor quem me apaixonei?\u201d seja outra: quanto dessa pessoa eu realmente conhe\u00e7o, e quanto dela fui eu quem escreveu?<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011.<br \/>\nFROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015.<br \/>\nWINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.<br \/>\nBEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Apaixonar-se talvez seja uma das experi\u00eancias em que realidade e imagina\u00e7\u00e3o mais profundamente se confundem. Encontramos algu\u00e9m, ouvimos sua voz, observamos seus gestos, descobrimos algumas hist\u00f3rias, e quase sem perceber come\u00e7amos a preencher aquilo que ainda n\u00e3o sabemos. Um sil\u00eancio pode parecer profundidade; uma delicadeza pode tornar-se promessa de uma ternura que ainda n\u00e3o conhecemos; uma conversa especialmente bonita pode nos fazer imaginar centenas de outras que jamais aconteceram. N\u00e3o enxergamos apenas a pessoa que est\u00e1 diante de n\u00f3s. Enxergamos tamb\u00e9m possibilidades. E talvez toda paix\u00e3o contenha, desde o in\u00edcio, duas figuras sobrepostas: aquela que realmente encontramos e aquela que nossa imagina\u00e7\u00e3o come\u00e7a silenciosamente a construir. Isso n\u00e3o significa que a paix\u00e3o seja falsa. Aquilo que sentimos pode ser absolutamente verdadeiro, mesmo quando parte da imagem que fazemos do outro n\u00e3o corresponde inteiramente \u00e0 realidade. Freud percebeu que os v\u00ednculos amorosos podem carregar processos de idealiza\u00e7\u00e3o, nos quais o objeto amado recebe qualidades ampliadas pelo investimento afetivo. Quando estamos apaixonados, certas caracter\u00edsticas ganham luminosidade enquanto outras permanecem quase invis\u00edveis. N\u00e3o necessariamente porque desejamos nos enganar, mas porque ningu\u00e9m chega ao outro com os olhos completamente vazios. Levamos conosco nossa hist\u00f3ria, nossas faltas, nossas esperan\u00e7as e aquilo que aprendemos a desejar. \u00c0s vezes, antes mesmo de conhecermos profundamente algu\u00e9m, j\u00e1 come\u00e7amos a imaginar o lugar que essa pessoa poder\u00e1 ocupar em nossa vida. Talvez por isso o in\u00edcio de uma paix\u00e3o tenha algo de cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Recebemos fragmentos e, com eles, come\u00e7amos a escrever uma hist\u00f3ria. Uma mensagem torna-se ind\u00edcio, um encontro transforma-se em promessa, uma coincid\u00eancia parece adquirir significado. Entre aquilo que sabemos e aquilo que desejamos saber existe um espa\u00e7o imenso, e a imagina\u00e7\u00e3o costuma ocup\u00e1-lo rapidamente. Podemos apaixonar-nos por uma maneira de sorrir e imaginar a pessoa inteira a partir daquele sorriso; conhecer sua generosidade em determinada circunst\u00e2ncia e supor que ela estar\u00e1 presente em todas as outras. O problema n\u00e3o est\u00e1 em imaginar \u2014 provavelmente seria imposs\u00edvel desejar sem alguma imagina\u00e7\u00e3o. O perigo come\u00e7a quando deixamos de perceber que parte daquilo que amamos foi escrita por n\u00f3s. \u00c9 ent\u00e3o que o tempo come\u00e7a seu trabalho silencioso. A conviv\u00eancia retira pouco a pouco algumas das proje\u00e7\u00f5es e apresenta a pessoa real: suas contradi\u00e7\u00f5es, seus limites, seus h\u00e1bitos menos encantadores, seus medos, suas zonas de ego\u00edsmo, suas diferen\u00e7as. Aquilo que parecia misterioso talvez fosse apenas dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o; aquilo que interpret\u00e1vamos como serenidade pode revelar-se dist\u00e2ncia; e algumas qualidades que sequer hav\u00edamos percebido podem surgir justamente quando outras idealiza\u00e7\u00f5es desaparecem. Winnicott escreveu sobre a passagem da rela\u00e7\u00e3o com objetos subjetivamente constitu\u00eddos para o reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos. Algo semelhante talvez aconte\u00e7a no amor: amadurecer afetivamente implica suportar que o outro n\u00e3o tenha sido criado para corresponder \u00e0quilo que imaginamos. Esse momento pode ser vivido como decep\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode ser o verdadeiro in\u00edcio do encontro. Porque enquanto amamos apenas a imagem que constru\u00edmos, existe sempre o risco de pedir \u00e0 pessoa real que interprete o personagem que escrevemos para ela. Queremos que seja mais dispon\u00edvel, mais rom\u00e2ntica, mais segura, mais parecida conosco; queremos que confirme a promessa que enxergamos no come\u00e7o. Erich Fromm pensava o amor maduro como uma experi\u00eancia que preserva a integridade e a individualidade de cada pessoa. Talvez amar comece justamente quando conseguimos dizer, ainda que silenciosamente: voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 exatamente quem imaginei, e agora quero descobrir quem voc\u00ea \u00e9. Nesse instante, alguma coisa da fantasia precisa morrer para que uma rela\u00e7\u00e3o entre duas pessoas reais possa nascer. Talvez toda paix\u00e3o comece com alguma inven\u00e7\u00e3o, mas nem todo amor precisa permanecer dentro dela. H\u00e1 uma beleza particular naquele momento em que o outro deixa de ser apenas a superf\u00edcie onde projetamos nossos desejos e come\u00e7a a aparecer diante de n\u00f3s com sua pr\u00f3pria espessura. Descobrimos ent\u00e3o que amar algu\u00e9m real \u00e9 mais dif\u00edcil do que amar algu\u00e9m imaginado, porque pessoas reais frustram expectativas, mudam, discordam, possuem regi\u00f5es que nunca compreenderemos completamente. Mas \u00e9 tamb\u00e9m infinitamente mais interessante. A pessoa que inventamos existe para corresponder aos nossos desejos; a pessoa real pode nos surpreender. Talvez o amadurecimento do amor aconte\u00e7a justamente nessa passagem: quando deixamos cair, pouco a pouco, o personagem que criamos e, em vez de lamentarmos que ele nunca tenha existido, come\u00e7amos finalmente a olhar para quem esteve diante de n\u00f3s o tempo inteiro. Porque talvez a pergunta mais profunda depois de \u201cpor quem me apaixonei?\u201d seja outra: quanto dessa pessoa eu realmente conhe\u00e7o, e quanto dela fui eu quem escreveu? Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e an\u00e1lise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2011. FROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015. WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975. BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. 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