{"id":3163,"date":"2026-10-01T11:02:58","date_gmt":"2026-10-01T14:02:58","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3163"},"modified":"2026-10-02T07:29:00","modified_gmt":"2026-10-02T10:29:00","slug":"ha-pessoas-que-nao-ficam-mas-nos-despertam","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3163","title":{"rendered":"H\u00e1 pessoas que n\u00e3o ficam, mas nos despertam"},"content":{"rendered":"<p>Nem toda paix\u00e3o foi feita para transformar-se em hist\u00f3ria de amor. Algumas chegam sem a dura\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para construir uma vida, mas com intensidade suficiente para modificar alguma coisa dentro de n\u00f3s. Encontramos algu\u00e9m e, de repente, aquilo que parecia adormecido come\u00e7a novamente a se mover. Esperamos uma mensagem. Escolhemos uma roupa com um cuidado que hav\u00edamos esquecido. Uma m\u00fasica parece dizer alguma coisa que antes n\u00e3o dizia. O corpo recupera uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria: a expectativa, o desejo, a ansiedade boa de um encontro, a vontade de ser visto. Talvez tenhamos passado anos acreditando que determinada parte de n\u00f3s havia desaparecido, quando estava apenas silenciosa. Ent\u00e3o algu\u00e9m chega e, por algum tempo, acende uma luz naquele lugar.<\/p>\n<p>\u00c9 f\u00e1cil imaginar que uma paix\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 valido a pena se terminar em perman\u00eancia. Como se o significado de um encontro pudesse ser medido exclusivamente pela sua dura\u00e7\u00e3o. Queremos que aquilo que nos comove encontre continuidade, que o encantamento se transforme em compromisso, que a pessoa que abriu determinada porta permane\u00e7a conosco depois de atravess\u00e1-la. H\u00e1 uma l\u00f3gica compreens\u00edvel nisso: quando alguma coisa nos faz bem, desejamos conserv\u00e1-la. Mas a vida afetiva nem sempre obedece a essa l\u00f3gica. H\u00e1 encontros intensos que n\u00e3o encontram condi\u00e7\u00f5es para se tornar rela\u00e7\u00f5es duradouras, pessoas que desejam futuros diferentes, momentos que n\u00e3o coincidem, sentimentos que possuem profundidades distintas. O fato de algo terminar, entretanto, n\u00e3o torna necessariamente falso aquilo que existiu enquanto estava acontecendo.<\/p>\n<p>Talvez uma das coisas mais bonitas e dif\u00edceis que algumas paix\u00f5es nos ensinem seja que aquilo que sentimos diante do outro tamb\u00e9m revela alguma coisa que ainda existe em n\u00f3s. A capacidade de desejar n\u00e3o pertencia \u00e0 pessoa que despertou nosso desejo. A capacidade de imaginar n\u00e3o era propriedade de quem nos fez voltar a imaginar. A alegria, a curiosidade, a sensualidade, a esperan\u00e7a e a vontade de experimentar novamente a vida estavam em n\u00f3s, embora talvez n\u00e3o consegu\u00edssemos mais alcan\u00e7\u00e1-las. O outro pode ter sido o acontecimento que abriu uma janela, mas o ar que entrou por ela encontrou uma casa que ainda estava viva. Perceber isso muda profundamente a maneira como atravessamos uma despedida: podemos lamentar a aus\u00eancia de algu\u00e9m sem acreditar que essa pessoa levou consigo tudo aquilo que despertou.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o significa transformar perdas em li\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias. H\u00e1 despedidas que doem simplesmente porque desej\u00e1vamos que n\u00e3o fossem despedidas. H\u00e1 paix\u00f5es breves das quais gostar\u00edamos de ter feito uma hist\u00f3ria longa. E talvez seja importante permitir que essa tristeza exista sem imediatamente tentar convert\u00ea-la em crescimento pessoal. A psicologia do luto mostra que perder n\u00e3o significa apenas lidar com a aus\u00eancia concreta de algu\u00e9m, mas tamb\u00e9m reorganizar significados, v\u00ednculos e futuros imaginados. Pauline Boss chamou aten\u00e7\u00e3o para formas de perda marcadas pela ambiguidade, nas quais nem sempre existe um encerramento claro. Algumas paix\u00f5es deixam justamente essa esp\u00e9cie de vazio: n\u00e3o choramos apenas aquilo que aconteceu, mas principalmente aquilo que poderia ter acontecido. \u00c0s vezes \u00e9 o futuro que imaginamos juntos que demora mais para partir.<\/p>\n<p>Com o tempo, por\u00e9m, podemos come\u00e7ar a separar a pessoa daquilo que ela representou. Talvez ela tenha chegado num momento em que est\u00e1vamos cansados, fechados ou excessivamente acostumados a uma vida sem surpresa. Talvez tenha nos lembrado de uma dimens\u00e3o nossa que hav\u00edamos abandonado para sobreviver \u00e0s exig\u00eancias dos dias. N\u00e3o precisamos transformar quem passou em destino para reconhecer a import\u00e2ncia do encontro. Algumas pessoas participam de nossa hist\u00f3ria n\u00e3o porque permaneceram at\u00e9 o fim, mas porque dividiram conosco determinado trecho e, naquele trecho, alguma coisa aconteceu. Depois delas, talvez continuemos sozinhos, mas j\u00e1 n\u00e3o exatamente os mesmos. H\u00e1 encontros que n\u00e3o constroem uma casa conosco; apenas abrem uma janela em uma casa que hav\u00edamos deixado escurecer.<\/p>\n<p>Talvez amadurecer afetivamente tamb\u00e9m seja aprender que perman\u00eancia e import\u00e2ncia n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos. Existem pessoas que permanecem durante d\u00e9cadas e quase n\u00e3o nos transformam, enquanto outras atravessam poucos meses de nossa vida e deixam perguntas que levaremos durante anos. Isso n\u00e3o significa que devamos viver esperando paix\u00f5es fugazes nem romantizar rela\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis. Significa apenas aceitar que nem tudo aquilo que termina precisa ser considerado um erro. \u00c0s vezes, algu\u00e9m chega, toca uma parte esquecida de n\u00f3s e depois segue seu caminho. Sofremos porque gostar\u00edamos que ficasse, mas, quando a tristeza come\u00e7a a se aquietar, talvez percebamos algo extraordin\u00e1rio: a luz que acredit\u00e1vamos pertencer \u00e0quela pessoa continua acesa depois que ela foi embora. E ent\u00e3o compreendemos que talvez aquele encontro n\u00e3o tenha vindo para nos completar nem para permanecer para sempre. Talvez tenha vindo apenas para nos lembrar de uma coisa que hav\u00edamos esquecido: ainda estamos vivos, ainda podemos desejar, ainda podemos estremecer \u2014 e ainda existe dentro de n\u00f3s muito amor que n\u00e3o terminou apenas porque uma hist\u00f3ria terminou.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>BOSS, Pauline. Ambiguous loss: learning to live with unresolved grief. Cambridge: Harvard University Press, 1999.<br \/>\nFROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015.<br \/>\nFREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010.<br \/>\nBARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nem toda paix\u00e3o foi feita para transformar-se em hist\u00f3ria de amor. Algumas chegam sem a dura\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para construir uma vida, mas com intensidade suficiente para modificar alguma coisa dentro de n\u00f3s. Encontramos algu\u00e9m e, de repente, aquilo que parecia adormecido come\u00e7a novamente a se mover. Esperamos uma mensagem. Escolhemos uma roupa com um cuidado que hav\u00edamos esquecido. Uma m\u00fasica parece dizer alguma coisa que antes n\u00e3o dizia. O corpo recupera uma esp\u00e9cie de mem\u00f3ria: a expectativa, o desejo, a ansiedade boa de um encontro, a vontade de ser visto. Talvez tenhamos passado anos acreditando que determinada parte de n\u00f3s havia desaparecido, quando estava apenas silenciosa. Ent\u00e3o algu\u00e9m chega e, por algum tempo, acende uma luz naquele lugar. \u00c9 f\u00e1cil imaginar que uma paix\u00e3o s\u00f3 ter\u00e1 valido a pena se terminar em perman\u00eancia. Como se o significado de um encontro pudesse ser medido exclusivamente pela sua dura\u00e7\u00e3o. Queremos que aquilo que nos comove encontre continuidade, que o encantamento se transforme em compromisso, que a pessoa que abriu determinada porta permane\u00e7a conosco depois de atravess\u00e1-la. H\u00e1 uma l\u00f3gica compreens\u00edvel nisso: quando alguma coisa nos faz bem, desejamos conserv\u00e1-la. Mas a vida afetiva nem sempre obedece a essa l\u00f3gica. H\u00e1 encontros intensos que n\u00e3o encontram condi\u00e7\u00f5es para se tornar rela\u00e7\u00f5es duradouras, pessoas que desejam futuros diferentes, momentos que n\u00e3o coincidem, sentimentos que possuem profundidades distintas. O fato de algo terminar, entretanto, n\u00e3o torna necessariamente falso aquilo que existiu enquanto estava acontecendo. Talvez uma das coisas mais bonitas e dif\u00edceis que algumas paix\u00f5es nos ensinem seja que aquilo que sentimos diante do outro tamb\u00e9m revela alguma coisa que ainda existe em n\u00f3s. A capacidade de desejar n\u00e3o pertencia \u00e0 pessoa que despertou nosso desejo. A capacidade de imaginar n\u00e3o era propriedade de quem nos fez voltar a imaginar. A alegria, a curiosidade, a sensualidade, a esperan\u00e7a e a vontade de experimentar novamente a vida estavam em n\u00f3s, embora talvez n\u00e3o consegu\u00edssemos mais alcan\u00e7\u00e1-las. O outro pode ter sido o acontecimento que abriu uma janela, mas o ar que entrou por ela encontrou uma casa que ainda estava viva. Perceber isso muda profundamente a maneira como atravessamos uma despedida: podemos lamentar a aus\u00eancia de algu\u00e9m sem acreditar que essa pessoa levou consigo tudo aquilo que despertou. Isso n\u00e3o significa transformar perdas em li\u00e7\u00f5es obrigat\u00f3rias. H\u00e1 despedidas que doem simplesmente porque desej\u00e1vamos que n\u00e3o fossem despedidas. H\u00e1 paix\u00f5es breves das quais gostar\u00edamos de ter feito uma hist\u00f3ria longa. E talvez seja importante permitir que essa tristeza exista sem imediatamente tentar convert\u00ea-la em crescimento pessoal. A psicologia do luto mostra que perder n\u00e3o significa apenas lidar com a aus\u00eancia concreta de algu\u00e9m, mas tamb\u00e9m reorganizar significados, v\u00ednculos e futuros imaginados. Pauline Boss chamou aten\u00e7\u00e3o para formas de perda marcadas pela ambiguidade, nas quais nem sempre existe um encerramento claro. Algumas paix\u00f5es deixam justamente essa esp\u00e9cie de vazio: n\u00e3o choramos apenas aquilo que aconteceu, mas principalmente aquilo que poderia ter acontecido. \u00c0s vezes \u00e9 o futuro que imaginamos juntos que demora mais para partir. Com o tempo, por\u00e9m, podemos come\u00e7ar a separar a pessoa daquilo que ela representou. Talvez ela tenha chegado num momento em que est\u00e1vamos cansados, fechados ou excessivamente acostumados a uma vida sem surpresa. Talvez tenha nos lembrado de uma dimens\u00e3o nossa que hav\u00edamos abandonado para sobreviver \u00e0s exig\u00eancias dos dias. N\u00e3o precisamos transformar quem passou em destino para reconhecer a import\u00e2ncia do encontro. Algumas pessoas participam de nossa hist\u00f3ria n\u00e3o porque permaneceram at\u00e9 o fim, mas porque dividiram conosco determinado trecho e, naquele trecho, alguma coisa aconteceu. Depois delas, talvez continuemos sozinhos, mas j\u00e1 n\u00e3o exatamente os mesmos. H\u00e1 encontros que n\u00e3o constroem uma casa conosco; apenas abrem uma janela em uma casa que hav\u00edamos deixado escurecer. Talvez amadurecer afetivamente tamb\u00e9m seja aprender que perman\u00eancia e import\u00e2ncia n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos. Existem pessoas que permanecem durante d\u00e9cadas e quase n\u00e3o nos transformam, enquanto outras atravessam poucos meses de nossa vida e deixam perguntas que levaremos durante anos. Isso n\u00e3o significa que devamos viver esperando paix\u00f5es fugazes nem romantizar rela\u00e7\u00f5es imposs\u00edveis. Significa apenas aceitar que nem tudo aquilo que termina precisa ser considerado um erro. \u00c0s vezes, algu\u00e9m chega, toca uma parte esquecida de n\u00f3s e depois segue seu caminho. Sofremos porque gostar\u00edamos que ficasse, mas, quando a tristeza come\u00e7a a se aquietar, talvez percebamos algo extraordin\u00e1rio: a luz que acredit\u00e1vamos pertencer \u00e0quela pessoa continua acesa depois que ela foi embora. E ent\u00e3o compreendemos que talvez aquele encontro n\u00e3o tenha vindo para nos completar nem para permanecer para sempre. Talvez tenha vindo apenas para nos lembrar de uma coisa que hav\u00edamos esquecido: ainda estamos vivos, ainda podemos desejar, ainda podemos estremecer \u2014 e ainda existe dentro de n\u00f3s muito amor que n\u00e3o terminou apenas porque uma hist\u00f3ria terminou. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas BOSS, Pauline. Ambiguous loss: learning to live with unresolved grief. Cambridge: Harvard University Press, 1999. FROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2015. FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2010. BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[419,393],"tags":[411,427,428,106],"class_list":["post-3163","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amor","category-psicologia","tag-erich-fromm","tag-pauline-boss","tag-roland-barthes","tag-sigmund-freud"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3163","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3163"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3163\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3164,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3163\/revisions\/3164"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3163"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3163"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3163"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}