{"id":3186,"date":"2026-10-05T13:44:15","date_gmt":"2026-10-05T16:44:15","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3186"},"modified":"2026-10-05T13:44:15","modified_gmt":"2026-10-05T16:44:15","slug":"quando-percebemos-que-nao-queremos-passar-a-vida-inteira-assim","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3186","title":{"rendered":"Quando percebemos que n\u00e3o queremos passar a vida inteira assim"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos em que o trabalho come\u00e7a a pesar de uma maneira diferente. N\u00e3o \u00e9 apenas o cansa\u00e7o de uma semana dif\u00edcil, a irrita\u00e7\u00e3o com uma tarefa desagrad\u00e1vel ou aquela vontade comum de que o fim de semana chegue logo. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o mais persistente, quase uma pergunta que come\u00e7a a acompanhar os dias: quero realmente continuar vivendo assim durante muitos anos? Talvez ainda n\u00e3o saibamos o que desejamos fazer no lugar, talvez existam contas a pagar, responsabilidades familiares, estabilidade conquistada com esfor\u00e7o e um medo perfeitamente compreens\u00edvel de abandonar aquilo que \u00e9 conhecido. Por isso, perceber que n\u00e3o gostamos mais do pr\u00f3prio trabalho n\u00e3o significa necessariamente que devemos pedir demiss\u00e3o amanh\u00e3. \u00c0s vezes, a primeira mudan\u00e7a n\u00e3o acontece no emprego, mas na consci\u00eancia: finalmente conseguimos admitir aquilo que durante muito tempo tentamos n\u00e3o ouvir.<\/p>\n<p>Essa admiss\u00e3o pode ser dif\u00edcil porque o trabalho ocupa um lugar imenso em nossa identidade. Quando algu\u00e9m pergunta quem somos, frequentemente respondemos dizendo o que fazemos. Al\u00e9m disso, existe uma press\u00e3o para demonstrarmos gratid\u00e3o por aquilo que conquistamos, principalmente quando possu\u00edmos um emprego considerado est\u00e1vel ou socialmente respeitado. Podemos ent\u00e3o sentir culpa pela insatisfa\u00e7\u00e3o: \u201ceu deveria estar feliz\u201d, \u201ch\u00e1 pessoas que gostariam de estar no meu lugar\u201d, \u201ctalvez eu esteja reclamando demais\u201d. Mas o sofrimento dos outros n\u00e3o transforma automaticamente nossa vida em uma vida que desejamos viver. Podemos reconhecer os privil\u00e9gios e as vantagens de um trabalho e, ao mesmo tempo, perceber que ele j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0quilo que queremos para o futuro. Gratid\u00e3o e insatisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o necessariamente sentimentos incompat\u00edveis.<\/p>\n<p>Christophe Dejours, ao estudar as rela\u00e7\u00f5es entre trabalho e sofrimento ps\u00edquico, mostrou que trabalhar n\u00e3o \u00e9 apenas executar tarefas: o trabalho mobiliza profundamente nossa subjetividade, nossa identidade e nossa rela\u00e7\u00e3o com o reconhecimento. Quando existe uma dist\u00e2ncia persistente entre aquilo que precisamos fazer e aquilo que conseguimos sustentar subjetivamente, o sofrimento pode ocupar cada vez mais espa\u00e7o. Isso n\u00e3o significa que todo desconforto seja sinal de que escolhemos a profiss\u00e3o errada. Nenhum trabalho \u00e9 permanentemente prazeroso, e mesmo atividades profundamente significativas possuem rotina, frustra\u00e7\u00e3o e desgaste. Talvez a pergunta mais importante seja outra: apesar das dificuldades, ainda existe sentido suficiente aqui? Quando a resposta come\u00e7a repetidamente a ser \u201cn\u00e3o\u201d, talvez valha a pena escut\u00e1-la.<\/p>\n<p>Escutar, entretanto, n\u00e3o significa agir impulsivamente. H\u00e1 mudan\u00e7as que precisam primeiro ser constru\u00eddas em sil\u00eancio. Podemos continuar no emprego atual enquanto estudamos outra \u00e1rea, economizamos dinheiro, adquirimos novas habilidades, pesquisamos possibilidades ou experimentamos pequenos projetos paralelos. A teoria da constru\u00e7\u00e3o da carreira, desenvolvida por Mark Savickas, ajuda a compreender a trajet\u00f3ria profissional n\u00e3o como uma escolha \u00fanica e definitiva feita no in\u00edcio da vida, mas como uma narrativa que pode ser reorganizada diante das transi\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as de contexto. Talvez isso seja especialmente importante quando percebemos, depois de muitos anos, que desejamos outra coisa. Mudar de dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa necessariamente que todo o caminho anterior tenha sido um erro. Aquilo que aprendemos, as habilidades que desenvolvemos e at\u00e9 aquilo que descobrimos n\u00e3o querer mais podem participar da constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo cap\u00edtulo.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m algo libertador em parar de exigir que a nova vida esteja completamente desenhada antes de permitir-se questionar a antiga. \u00c0s vezes sabemos primeiro aquilo que n\u00e3o queremos. \u201cN\u00e3o quero continuar trabalhando desta maneira.\u201d \u201cN\u00e3o quero permanecer neste ritmo.\u201d \u201cN\u00e3o quero chegar aos pr\u00f3ximos dez anos sentindo o mesmo esgotamento.\u201d Essas frases ainda n\u00e3o s\u00e3o um plano, mas podem funcionar como uma esp\u00e9cie de fronteira. A partir delas come\u00e7amos a investigar: de que tipo de rotina eu gostaria? Que trabalho seria mais coerente com meus valores? Quanto preciso ganhar para viver? O que precisaria aprender? O que posso come\u00e7ar agora sem destruir a seguran\u00e7a de que ainda necessito? A mudan\u00e7a deixa ent\u00e3o de ser imaginada como um salto dram\u00e1tico e come\u00e7a a parecer uma ponte constru\u00edda lentamente entre a vida que temos e aquela que desejamos experimentar.<\/p>\n<p>Talvez algumas transforma\u00e7\u00f5es importantes comecem justamente assim: n\u00e3o com coragem suficiente para abandonar tudo, mas com honestidade suficiente para parar de fingir que queremos permanecer para sempre. Podemos continuar durante algum tempo no mesmo lugar e, ainda assim, j\u00e1 estar caminhando em outra dire\u00e7\u00e3o. Podemos cumprir nossas responsabilidades enquanto reservamos algumas horas da semana para construir uma possibilidade futura. N\u00e3o h\u00e1 vergonha em precisar de tempo, dinheiro, planejamento ou seguran\u00e7a para mudar. A vida adulta raramente permite que reinventemos tudo de uma vez. Mas existe uma diferen\u00e7a profunda entre permanecer porque escolhemos permanecer por enquanto e permanecer porque acreditamos que nenhuma outra vida \u00e9 poss\u00edvel. Talvez reconhecer \u201cn\u00e3o quero passar o resto da minha vida assim\u201d n\u00e3o seja ainda uma despedida. Pode ser algo mais silencioso e mais importante: o primeiro momento em que come\u00e7amos a levar a s\u00e9rio a possibilidade de que nossa hist\u00f3ria profissional ainda n\u00e3o terminou de ser escrita.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/strong><\/p>\n<p>DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. S\u00e3o Paulo: Cortez-Obor\u00e9, 1992.<br \/>\nSAVICKAS, Mark L. Career construction theory and practice. In: BROWN, Steven D.; LENT, Robert W. (org.). Career development and counseling: putting theory and research to work. 2. ed. Hoboken: Wiley, 2013.<br \/>\nROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009.<br \/>\nFRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 momentos em que o trabalho come\u00e7a a pesar de uma maneira diferente. N\u00e3o \u00e9 apenas o cansa\u00e7o de uma semana dif\u00edcil, a irrita\u00e7\u00e3o com uma tarefa desagrad\u00e1vel ou aquela vontade comum de que o fim de semana chegue logo. \u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o mais persistente, quase uma pergunta que come\u00e7a a acompanhar os dias: quero realmente continuar vivendo assim durante muitos anos? Talvez ainda n\u00e3o saibamos o que desejamos fazer no lugar, talvez existam contas a pagar, responsabilidades familiares, estabilidade conquistada com esfor\u00e7o e um medo perfeitamente compreens\u00edvel de abandonar aquilo que \u00e9 conhecido. Por isso, perceber que n\u00e3o gostamos mais do pr\u00f3prio trabalho n\u00e3o significa necessariamente que devemos pedir demiss\u00e3o amanh\u00e3. \u00c0s vezes, a primeira mudan\u00e7a n\u00e3o acontece no emprego, mas na consci\u00eancia: finalmente conseguimos admitir aquilo que durante muito tempo tentamos n\u00e3o ouvir. Essa admiss\u00e3o pode ser dif\u00edcil porque o trabalho ocupa um lugar imenso em nossa identidade. Quando algu\u00e9m pergunta quem somos, frequentemente respondemos dizendo o que fazemos. Al\u00e9m disso, existe uma press\u00e3o para demonstrarmos gratid\u00e3o por aquilo que conquistamos, principalmente quando possu\u00edmos um emprego considerado est\u00e1vel ou socialmente respeitado. Podemos ent\u00e3o sentir culpa pela insatisfa\u00e7\u00e3o: \u201ceu deveria estar feliz\u201d, \u201ch\u00e1 pessoas que gostariam de estar no meu lugar\u201d, \u201ctalvez eu esteja reclamando demais\u201d. Mas o sofrimento dos outros n\u00e3o transforma automaticamente nossa vida em uma vida que desejamos viver. Podemos reconhecer os privil\u00e9gios e as vantagens de um trabalho e, ao mesmo tempo, perceber que ele j\u00e1 n\u00e3o corresponde \u00e0quilo que queremos para o futuro. Gratid\u00e3o e insatisfa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o necessariamente sentimentos incompat\u00edveis. Christophe Dejours, ao estudar as rela\u00e7\u00f5es entre trabalho e sofrimento ps\u00edquico, mostrou que trabalhar n\u00e3o \u00e9 apenas executar tarefas: o trabalho mobiliza profundamente nossa subjetividade, nossa identidade e nossa rela\u00e7\u00e3o com o reconhecimento. Quando existe uma dist\u00e2ncia persistente entre aquilo que precisamos fazer e aquilo que conseguimos sustentar subjetivamente, o sofrimento pode ocupar cada vez mais espa\u00e7o. Isso n\u00e3o significa que todo desconforto seja sinal de que escolhemos a profiss\u00e3o errada. Nenhum trabalho \u00e9 permanentemente prazeroso, e mesmo atividades profundamente significativas possuem rotina, frustra\u00e7\u00e3o e desgaste. Talvez a pergunta mais importante seja outra: apesar das dificuldades, ainda existe sentido suficiente aqui? Quando a resposta come\u00e7a repetidamente a ser \u201cn\u00e3o\u201d, talvez valha a pena escut\u00e1-la. Escutar, entretanto, n\u00e3o significa agir impulsivamente. H\u00e1 mudan\u00e7as que precisam primeiro ser constru\u00eddas em sil\u00eancio. Podemos continuar no emprego atual enquanto estudamos outra \u00e1rea, economizamos dinheiro, adquirimos novas habilidades, pesquisamos possibilidades ou experimentamos pequenos projetos paralelos. A teoria da constru\u00e7\u00e3o da carreira, desenvolvida por Mark Savickas, ajuda a compreender a trajet\u00f3ria profissional n\u00e3o como uma escolha \u00fanica e definitiva feita no in\u00edcio da vida, mas como uma narrativa que pode ser reorganizada diante das transi\u00e7\u00f5es e mudan\u00e7as de contexto. Talvez isso seja especialmente importante quando percebemos, depois de muitos anos, que desejamos outra coisa. Mudar de dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o significa necessariamente que todo o caminho anterior tenha sido um erro. Aquilo que aprendemos, as habilidades que desenvolvemos e at\u00e9 aquilo que descobrimos n\u00e3o querer mais podem participar da constru\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. H\u00e1 tamb\u00e9m algo libertador em parar de exigir que a nova vida esteja completamente desenhada antes de permitir-se questionar a antiga. \u00c0s vezes sabemos primeiro aquilo que n\u00e3o queremos. \u201cN\u00e3o quero continuar trabalhando desta maneira.\u201d \u201cN\u00e3o quero permanecer neste ritmo.\u201d \u201cN\u00e3o quero chegar aos pr\u00f3ximos dez anos sentindo o mesmo esgotamento.\u201d Essas frases ainda n\u00e3o s\u00e3o um plano, mas podem funcionar como uma esp\u00e9cie de fronteira. A partir delas come\u00e7amos a investigar: de que tipo de rotina eu gostaria? Que trabalho seria mais coerente com meus valores? Quanto preciso ganhar para viver? O que precisaria aprender? O que posso come\u00e7ar agora sem destruir a seguran\u00e7a de que ainda necessito? A mudan\u00e7a deixa ent\u00e3o de ser imaginada como um salto dram\u00e1tico e come\u00e7a a parecer uma ponte constru\u00edda lentamente entre a vida que temos e aquela que desejamos experimentar. Talvez algumas transforma\u00e7\u00f5es importantes comecem justamente assim: n\u00e3o com coragem suficiente para abandonar tudo, mas com honestidade suficiente para parar de fingir que queremos permanecer para sempre. Podemos continuar durante algum tempo no mesmo lugar e, ainda assim, j\u00e1 estar caminhando em outra dire\u00e7\u00e3o. Podemos cumprir nossas responsabilidades enquanto reservamos algumas horas da semana para construir uma possibilidade futura. N\u00e3o h\u00e1 vergonha em precisar de tempo, dinheiro, planejamento ou seguran\u00e7a para mudar. A vida adulta raramente permite que reinventemos tudo de uma vez. Mas existe uma diferen\u00e7a profunda entre permanecer porque escolhemos permanecer por enquanto e permanecer porque acreditamos que nenhuma outra vida \u00e9 poss\u00edvel. Talvez reconhecer \u201cn\u00e3o quero passar o resto da minha vida assim\u201d n\u00e3o seja ainda uma despedida. Pode ser algo mais silencioso e mais importante: o primeiro momento em que come\u00e7amos a levar a s\u00e9rio a possibilidade de que nossa hist\u00f3ria profissional ainda n\u00e3o terminou de ser escrita. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. S\u00e3o Paulo: Cortez-Obor\u00e9, 1992. SAVICKAS, Mark L. Career construction theory and practice. In: BROWN, Steven D.; LENT, Robert W. (org.). Career development and counseling: putting theory and research to work. 2. ed. Hoboken: Wiley, 2013. ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009. FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petr\u00f3polis: Vozes, 2008.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[393],"tags":[172,192,431,432],"class_list":["post-3186","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-psicologia","tag-carl-rogers","tag-christophe-dejours","tag-mark-savickas","tag-viktor-frankl"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3186","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3186"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3186\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3187,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3186\/revisions\/3187"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3186"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3186"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3186"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}