{"id":3190,"date":"2026-10-08T12:08:36","date_gmt":"2026-10-08T15:08:36","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3190"},"modified":"2026-10-08T12:08:36","modified_gmt":"2026-10-08T15:08:36","slug":"a-sociedade-que-nos-ensina-a-viver-cansados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3190","title":{"rendered":"A sociedade que nos ensina a viver cansados"},"content":{"rendered":"<p>Talvez uma das caracter\u00edsticas mais inquietantes da sociedade contempor\u00e2nea seja a maneira como aprendemos a confundir liberdade com obriga\u00e7\u00e3o de produzir. Vivemos cercados de possibilidades, ferramentas, informa\u00e7\u00f5es e promessas de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, mas raramente experimentamos a sensa\u00e7\u00e3o de que aquilo que fazemos \u00e9 suficiente. Precisamos trabalhar, estudar, melhorar o corpo, desenvolver novas compet\u00eancias, administrar emo\u00e7\u00f5es, cultivar relacionamentos, acompanhar not\u00edcias e, de prefer\u00eancia, demonstrar que estamos felizes enquanto fazemos tudo isso. Byung-Chul Han observa que a sociedade disciplinar, organizada em torno de proibi\u00e7\u00f5es e obedi\u00eancia, cede progressivamente espa\u00e7o \u00e0 sociedade do desempenho, na qual o indiv\u00edduo passa a exigir de si mesmo resultados cada vez maiores. J\u00e1 n\u00e3o precisamos necessariamente de algu\u00e9m nos dizendo que devemos produzir mais; aprendemos a repetir essa exig\u00eancia dentro de n\u00f3s. E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de domina\u00e7\u00e3o: quando a cobran\u00e7a deixa de parecer uma imposi\u00e7\u00e3o externa e come\u00e7a a ser confundida com nossa pr\u00f3pria vontade.<\/p>\n<p>Nessa l\u00f3gica, o sujeito contempor\u00e2neo torna-se simultaneamente explorador e explorado. Acredita estar exercendo sua liberdade enquanto transforma cada hora dispon\u00edvel em oportunidade de aperfei\u00e7oamento. O descanso passa a exigir justificativa, o lazer precisa ser produtivo, os exerc\u00edcios f\u00edsicos tornam-se metas quantific\u00e1veis e at\u00e9 a felicidade parece depender de algum tipo de desempenho. N\u00e3o basta viver; \u00e9 preciso viver melhor, mais intensamente, mais eficientemente, como se a exist\u00eancia fosse um projeto intermin\u00e1vel de otimiza\u00e7\u00e3o. O sofrimento produzido por essa din\u00e2mica frequentemente aparece como fracasso individual. Quando n\u00e3o conseguimos acompanhar o ritmo, imaginamos que nos faltam disciplina, compet\u00eancia ou for\u00e7a de vontade, em vez de perguntar se as exig\u00eancias \u00e0s quais estamos submetidos s\u00e3o razo\u00e1veis. A sociedade do desempenho possui, assim, uma crueldade particular: oferece a promessa de que tudo \u00e9 poss\u00edvel e, quando n\u00e3o conseguimos realizar tudo, deixa-nos sozinhos diante da culpa.<\/p>\n<p>A hiperconectividade aprofunda essa experi\u00eancia. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e, paradoxalmente, isso n\u00e3o garante que sejamos verdadeiramente escutados. Podemos acompanhar centenas de vidas pelas telas, conhecer detalhes da rotina de pessoas distantes e compartilhar instantaneamente nossos pensamentos, mas continuar experimentando uma solid\u00e3o dif\u00edcil de nomear. Em suas reflex\u00f5es sobre a Talvez uma das caracter\u00edsticas mais inquietantes da sociedade contempor\u00e2nea seja a maneira como aprendemos a confundir liberdade com obriga\u00e7\u00e3o de produzir. Vivemos cercados de possibilidades, ferramentas, informa\u00e7\u00f5es e promessas de realiza\u00e7\u00e3o pessoal, mas raramente experimentamos a sensa\u00e7\u00e3o de que aquilo que fazemos \u00e9 suficiente. Precisamos trabalhar, estudar, melhorar o corpo, desenvolver novas compet\u00eancias, administrar emo\u00e7\u00f5es, cultivar relacionamentos, acompanhar not\u00edcias e, de prefer\u00eancia, demonstrar que estamos felizes enquanto fazemos tudo isso. Byung-Chul Han observa que a sociedade disciplinar, organizada em torno de proibi\u00e7\u00f5es e obedi\u00eancia, cede progressivamente espa\u00e7o \u00e0 sociedade do desempenho, na qual o indiv\u00edduo passa a exigir de si mesmo resultados cada vez maiores. J\u00e1 n\u00e3o precisamos necessariamente de algu\u00e9m nos dizendo que devemos produzir mais; aprendemos a repetir essa exig\u00eancia dentro de n\u00f3s. E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de domina\u00e7\u00e3o: quando a cobran\u00e7a deixa de parecer uma imposi\u00e7\u00e3o externa e come\u00e7a a ser confundida com nossa pr\u00f3pria vontade.<\/p>\n<p>Nessa l\u00f3gica, o sujeito contempor\u00e2neo torna-se simultaneamente explorador e explorado. Acredita estar exercendo sua liberdade enquanto transforma cada hora dispon\u00edvel em oportunidade de aperfei\u00e7oamento. O descanso passa a exigir justificativa, o lazer precisa ser produtivo, os exerc\u00edcios f\u00edsicos tornam-se metas quantific\u00e1veis e at\u00e9 a felicidade parece depender de algum tipo de desempenho. N\u00e3o basta viver; \u00e9 preciso viver melhor, mais intensamente, mais eficientemente, como se a exist\u00eancia fosse um projeto intermin\u00e1vel de otimiza\u00e7\u00e3o. O sofrimento produzido por essa din\u00e2mica frequentemente aparece como fracasso individual. Quando n\u00e3o conseguimos acompanhar o ritmo, imaginamos que nos faltam disciplina, compet\u00eancia ou for\u00e7a de vontade, em vez de perguntar se as exig\u00eancias \u00e0s quais estamos submetidos s\u00e3o razo\u00e1veis. A sociedade do desempenho possui, assim, uma crueldade particular: oferece a promessa de que tudo \u00e9 poss\u00edvel e, quando n\u00e3o conseguimos realizar tudo, deixa-nos sozinhos diante da culpa.<\/p>\n<p>A hiperconectividade aprofunda essa experi\u00eancia. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e, paradoxalmente, isso n\u00e3o garante que sejamos verdadeiramente escutados. Podemos acompanhar centenas de vidas pelas telas, conhecer detalhes da rotina de pessoas distantes e compartilhar instantaneamente nossos pensamentos, mas continuar experimentando uma solid\u00e3o dif\u00edcil de nomear. Em suas reflex\u00f5es sobre a sociedade digital, Han questiona a transforma\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o incessante de informa\u00e7\u00f5es, opini\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es de si. A visibilidade come\u00e7a a parecer uma condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia: precisamos mostrar o que fazemos, registrar o que vivemos, transformar experi\u00eancias em imagens e imagens em reconhecimento. Aos poucos, corremos o risco de viver determinados momentos j\u00e1 imaginando como ser\u00e3o apresentados aos outros. A experi\u00eancia deixa de valer apenas por aquilo que nos acontece e passa tamb\u00e9m a ser medida por sua capacidade de aparecer. Talvez uma das perdas mais profundas desse processo seja a possibilidade de viver alguma coisa sem precisar imediatamente mostr\u00e1-la.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m nossas rela\u00e7\u00f5es afetivas podem ser atravessadas por essa l\u00f3gica. Quando aprendemos a avaliar tudo em termos de utilidade, satisfa\u00e7\u00e3o e desempenho, existe o risco de come\u00e7armos a tratar pessoas como experi\u00eancias destinadas a corresponder \u00e0s nossas expectativas. Queremos v\u00ednculos profundos, mas temos dificuldade de suportar a alteridade; desejamos intimidade, mas nem sempre toleramos aquilo que no outro escapa ao nosso controle. Em A agonia de Eros, Han reflete sobre o enfraquecimento da experi\u00eancia do outro como algu\u00e9m verdadeiramente diferente de n\u00f3s. O amor exige uma abertura para aquilo que n\u00e3o dominamos, enquanto a l\u00f3gica contempor\u00e2nea frequentemente nos estimula a buscar confirma\u00e7\u00e3o, conveni\u00eancia e satisfa\u00e7\u00e3o imediata. Talvez por isso algumas rela\u00e7\u00f5es se tornem t\u00e3o fr\u00e1geis: queremos ser surpreendidos, mas n\u00e3o contrariados; queremos encontrar algu\u00e9m, mas nem sempre estamos dispostos a abandonar a seguran\u00e7a de nosso pr\u00f3prio mundo. E, quando o outro deixa de corresponder \u00e0 imagem que constru\u00edmos, podemos confundir a dificuldade inevit\u00e1vel do encontro com a necessidade de procurar algu\u00e9m novo.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda uma transforma\u00e7\u00e3o mais silenciosa: a perda da capacidade de contemplar. Em uma sociedade que valoriza velocidade, resposta imediata e est\u00edmulo constante, o sil\u00eancio come\u00e7a a parecer improdutivo. Esperar torna-se inc\u00f4modo, a aten\u00e7\u00e3o se fragmenta e a pausa frequentemente \u00e9 preenchida por alguma tela. Han recupera a import\u00e2ncia da contempla\u00e7\u00e3o e daquilo que chama de vida contemplativa, lembrando que nem toda experi\u00eancia humana significativa nasce da atividade incessante. Pensar exige tempo; compreender uma pessoa exige escuta; escrever exige alguma perman\u00eancia diante das pr\u00f3prias ideias; amar exige disponibilidade para aquilo que n\u00e3o pode ser apressado. Talvez estejamos nos tornando extremamente eficientes em realizar tarefas e progressivamente menos dispon\u00edveis para experimentar a profundidade da vida. Sabemos responder rapidamente, mas nem sempre conseguimos permanecer diante de uma pergunta. Acumulamos informa\u00e7\u00f5es, mas isso n\u00e3o significa que tenhamos adquirido sabedoria. E talvez a sabedoria dependa justamente de uma rela\u00e7\u00e3o com o tempo que nossa \u00e9poca parece cada vez menos disposta a cultivar.<\/p>\n<p>No fundo, as reflex\u00f5es de Byung-Chul Han nos convidam a perguntar que tipo de exist\u00eancia estamos construindo quando tudo precisa ser \u00fatil, vis\u00edvel, mensur\u00e1vel e aperfei\u00e7oado. N\u00e3o se trata de rejeitar o trabalho, a tecnologia, o conhecimento ou o desejo leg\u00edtimo de realizar projetos. Trata-se de reconhecer que uma vida humana n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 soma de seus resultados. Precisamos de tempo para fazer coisas que n\u00e3o produzem nada al\u00e9m de experi\u00eancia: caminhar sem contar passos, conversar sem consultar o rel\u00f3gio, ler sem transformar cada p\u00e1gina em obriga\u00e7\u00e3o, contemplar uma \u00e1rvore, escutar uma m\u00fasica, permanecer em sil\u00eancio diante de algu\u00e9m que amamos. Talvez resistir \u00e0 sociedade do desempenho n\u00e3o signifique abandonar nossas ambi\u00e7\u00f5es, mas recusar que elas ocupem toda a extens\u00e3o da exist\u00eancia. Porque h\u00e1 alguma coisa profundamente triste em conquistar in\u00fameras possibilidades e perder, durante o caminho, a capacidade de habit\u00e1-las. E talvez uma das formas mais importantes de liberdade seja justamente recuperar o direito de existir sem precisar transformar cada instante da vida em uma demonstra\u00e7\u00e3o de valor.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansa\u00e7o. Petr\u00f3polis: Vozes, 2015.<br \/>\nHAN, Byung-Chul. No enxame: perspectivas do digital. Petr\u00f3polis: Vozes, 2018.<br \/>\nHAN, Byung-Chul. A agonia do Eros. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017.<br \/>\nHAN, Byung-Chul. Sociedade da transpar\u00eancia. Petr\u00f3polis: Vozes, 2017.<br \/>\nHAN, Byung-Chul. Vita contemplativa: ou sobre a inatividade. Petr\u00f3polis: Vozes, 2023.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Talvez uma das caracter\u00edsticas mais inquietantes da sociedade contempor\u00e2nea seja a maneira como aprendemos a confundir liberdade com obriga\u00e7\u00e3o de produzir. 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E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de domina\u00e7\u00e3o: quando a cobran\u00e7a deixa de parecer uma imposi\u00e7\u00e3o externa e come\u00e7a a ser confundida com nossa pr\u00f3pria vontade. Nessa l\u00f3gica, o sujeito contempor\u00e2neo torna-se simultaneamente explorador e explorado. Acredita estar exercendo sua liberdade enquanto transforma cada hora dispon\u00edvel em oportunidade de aperfei\u00e7oamento. O descanso passa a exigir justificativa, o lazer precisa ser produtivo, os exerc\u00edcios f\u00edsicos tornam-se metas quantific\u00e1veis e at\u00e9 a felicidade parece depender de algum tipo de desempenho. N\u00e3o basta viver; \u00e9 preciso viver melhor, mais intensamente, mais eficientemente, como se a exist\u00eancia fosse um projeto intermin\u00e1vel de otimiza\u00e7\u00e3o. O sofrimento produzido por essa din\u00e2mica frequentemente aparece como fracasso individual. Quando n\u00e3o conseguimos acompanhar o ritmo, imaginamos que nos faltam disciplina, compet\u00eancia ou for\u00e7a de vontade, em vez de perguntar se as exig\u00eancias \u00e0s quais estamos submetidos s\u00e3o razo\u00e1veis. A sociedade do desempenho possui, assim, uma crueldade particular: oferece a promessa de que tudo \u00e9 poss\u00edvel e, quando n\u00e3o conseguimos realizar tudo, deixa-nos sozinhos diante da culpa. A hiperconectividade aprofunda essa experi\u00eancia. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e, paradoxalmente, isso n\u00e3o garante que sejamos verdadeiramente escutados. Podemos acompanhar centenas de vidas pelas telas, conhecer detalhes da rotina de pessoas distantes e compartilhar instantaneamente nossos pensamentos, mas continuar experimentando uma solid\u00e3o dif\u00edcil de nomear. 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J\u00e1 n\u00e3o precisamos necessariamente de algu\u00e9m nos dizendo que devemos produzir mais; aprendemos a repetir essa exig\u00eancia dentro de n\u00f3s. E talvez essa seja uma das formas mais silenciosas de domina\u00e7\u00e3o: quando a cobran\u00e7a deixa de parecer uma imposi\u00e7\u00e3o externa e come\u00e7a a ser confundida com nossa pr\u00f3pria vontade. Nessa l\u00f3gica, o sujeito contempor\u00e2neo torna-se simultaneamente explorador e explorado. Acredita estar exercendo sua liberdade enquanto transforma cada hora dispon\u00edvel em oportunidade de aperfei\u00e7oamento. O descanso passa a exigir justificativa, o lazer precisa ser produtivo, os exerc\u00edcios f\u00edsicos tornam-se metas quantific\u00e1veis e at\u00e9 a felicidade parece depender de algum tipo de desempenho. N\u00e3o basta viver; \u00e9 preciso viver melhor, mais intensamente, mais eficientemente, como se a exist\u00eancia fosse um projeto intermin\u00e1vel de otimiza\u00e7\u00e3o. O sofrimento produzido por essa din\u00e2mica frequentemente aparece como fracasso individual. Quando n\u00e3o conseguimos acompanhar o ritmo, imaginamos que nos faltam disciplina, compet\u00eancia ou for\u00e7a de vontade, em vez de perguntar se as exig\u00eancias \u00e0s quais estamos submetidos s\u00e3o razo\u00e1veis. A sociedade do desempenho possui, assim, uma crueldade particular: oferece a promessa de que tudo \u00e9 poss\u00edvel e, quando n\u00e3o conseguimos realizar tudo, deixa-nos sozinhos diante da culpa. A hiperconectividade aprofunda essa experi\u00eancia. Nunca tivemos tantas possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o e, paradoxalmente, isso n\u00e3o garante que sejamos verdadeiramente escutados. Podemos acompanhar centenas de vidas pelas telas, conhecer detalhes da rotina de pessoas distantes e compartilhar instantaneamente nossos pensamentos, mas continuar experimentando uma solid\u00e3o dif\u00edcil de nomear. Em suas reflex\u00f5es sobre a sociedade digital, Han questiona a transforma\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o em circula\u00e7\u00e3o incessante de informa\u00e7\u00f5es, opini\u00f5es e exposi\u00e7\u00f5es de si. A visibilidade come\u00e7a a parecer uma condi\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia: precisamos mostrar o que fazemos, registrar o que vivemos, transformar experi\u00eancias em imagens e imagens em reconhecimento. Aos poucos, corremos o risco de viver determinados momentos j\u00e1 imaginando como ser\u00e3o apresentados aos outros. A experi\u00eancia deixa de valer apenas por aquilo que nos acontece e passa tamb\u00e9m a ser medida por sua capacidade de aparecer. Talvez uma das perdas mais profundas desse processo seja a possibilidade de viver alguma coisa sem precisar imediatamente mostr\u00e1-la. Tamb\u00e9m nossas rela\u00e7\u00f5es afetivas podem ser atravessadas por essa l\u00f3gica. Quando aprendemos a avaliar tudo em termos de utilidade, satisfa\u00e7\u00e3o e desempenho, existe o risco de come\u00e7armos a tratar pessoas como experi\u00eancias destinadas a corresponder \u00e0s nossas expectativas. Queremos v\u00ednculos profundos, mas temos dificuldade de suportar a alteridade; desejamos intimidade, mas nem sempre toleramos aquilo que no outro escapa ao nosso controle. Em A agonia de Eros, Han reflete sobre o enfraquecimento da experi\u00eancia do outro como algu\u00e9m verdadeiramente diferente de n\u00f3s. O amor exige uma abertura para aquilo que n\u00e3o dominamos, enquanto a l\u00f3gica contempor\u00e2nea frequentemente nos estimula a buscar confirma\u00e7\u00e3o, conveni\u00eancia e satisfa\u00e7\u00e3o imediata. Talvez por isso algumas rela\u00e7\u00f5es se tornem t\u00e3o fr\u00e1geis: queremos ser surpreendidos, mas n\u00e3o contrariados; queremos encontrar algu\u00e9m, mas nem sempre estamos dispostos a abandonar a seguran\u00e7a de nosso pr\u00f3prio mundo. E, quando o outro deixa de corresponder \u00e0 imagem que constru\u00edmos, podemos confundir a dificuldade inevit\u00e1vel do encontro com a necessidade de procurar algu\u00e9m novo. H\u00e1 ainda uma transforma\u00e7\u00e3o mais silenciosa: a perda da capacidade de contemplar. Em uma sociedade que valoriza velocidade, resposta imediata e est\u00edmulo constante, o sil\u00eancio come\u00e7a a parecer improdutivo. Esperar torna-se inc\u00f4modo, a aten\u00e7\u00e3o se fragmenta e a pausa frequentemente \u00e9 preenchida por alguma tela. Han recupera a import\u00e2ncia da contempla\u00e7\u00e3o e daquilo que chama de vida contemplativa, lembrando que nem toda experi\u00eancia humana significativa nasce da atividade incessante. Pensar exige tempo; compreender uma pessoa exige escuta; escrever exige alguma perman\u00eancia diante das pr\u00f3prias ideias; amar exige disponibilidade para aquilo que n\u00e3o pode ser apressado. Talvez estejamos nos tornando extremamente eficientes em realizar tarefas e progressivamente menos dispon\u00edveis para experimentar a profundidade da vida. Sabemos responder rapidamente, mas nem sempre conseguimos permanecer diante de uma pergunta. Acumulamos informa\u00e7\u00f5es, mas isso n\u00e3o significa que tenhamos adquirido sabedoria. E talvez a sabedoria dependa justamente de uma rela\u00e7\u00e3o com o tempo que nossa \u00e9poca parece cada vez menos disposta a cultivar. No fundo, as reflex\u00f5es de Byung-Chul Han nos convidam a perguntar que tipo de exist\u00eancia estamos construindo quando tudo precisa ser \u00fatil, vis\u00edvel, mensur\u00e1vel e aperfei\u00e7oado. N\u00e3o se trata de rejeitar o trabalho, a tecnologia, o conhecimento ou o desejo leg\u00edtimo de realizar projetos. Trata-se de reconhecer que uma vida humana n\u00e3o pode ser reduzida \u00e0 soma de seus resultados. Precisamos de tempo para fazer coisas que n\u00e3o produzem nada al\u00e9m de experi\u00eancia: caminhar sem contar passos, conversar sem consultar o rel\u00f3gio, ler sem transformar cada p\u00e1gina em obriga\u00e7\u00e3o, contemplar uma \u00e1rvore, escutar uma m\u00fasica, permanecer em sil\u00eancio diante de algu\u00e9m que amamos. Talvez resistir \u00e0 sociedade do desempenho n\u00e3o signifique abandonar nossas ambi\u00e7\u00f5es, mas recusar que elas ocupem toda a extens\u00e3o da exist\u00eancia. Porque h\u00e1 alguma coisa profundamente triste em conquistar in\u00fameras possibilidades e perder, durante o caminho, a capacidade de habit\u00e1-las. 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