{"id":3218,"date":"2026-10-17T06:14:09","date_gmt":"2026-10-17T09:14:09","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3218"},"modified":"2026-10-17T06:14:09","modified_gmt":"2026-10-17T09:14:09","slug":"para-abandonar-o-sedentarismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3218","title":{"rendered":"Para abandonar o sedentarismo"},"content":{"rendered":"<p>N\u00e3o acontece necessariamente de maneira repentina. Primeiro, deixamos de caminhar porque estamos cansados; depois, adiamos os exerc\u00edcios porque temos muitas responsabilidades; em seguida, descobrimos que os dias passaram a ser organizados quase inteiramente entre cadeiras, camas, autom\u00f3veis e telas. O movimento, que durante a inf\u00e2ncia parecia uma express\u00e3o espont\u00e2nea da exist\u00eancia, transforma-se em uma atividade que precisamos planejar, justificar e, algumas vezes, enfrentar com consider\u00e1vel esfor\u00e7o. H\u00e1 algo de profundamente humano nessa contradi\u00e7\u00e3o: desejamos viver muitos anos, conhecer lugares, realizar projetos, amar pessoas e experimentar o mundo, mas podemos passar grande parte de nossos dias afastados das possibilidades de movimento que o pr\u00f3prio corpo nos oferece. Entretanto, reconhecer o sedentarismo n\u00e3o precisa transformar-se em mais uma oportunidade de condena\u00e7\u00e3o pessoal. Podemos olhar para nossa hist\u00f3ria com compreens\u00e3o e perceber que a inatividade frequentemente se desenvolve em meio ao cansa\u00e7o, \u00e0s exig\u00eancias profissionais, \u00e0s dificuldades emocionais e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas da vida cotidiana. Talvez o primeiro passo para uma exist\u00eancia mais ativa n\u00e3o seja sentir vergonha daquilo que deixamos de fazer, mas compreender que ainda podemos construir uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o corpo que nos acompanha desde o nascimento.<\/p>\n<p>A filosofia de Maurice Merleau-Ponty oferece uma perspectiva particularmente bonita para essa reflex\u00e3o. Em <em>Fenomenologia da percep\u00e7\u00e3o<\/em>, o fil\u00f3sofo franc\u00eas questiona a ideia de que o corpo seja apenas um objeto que possu\u00edmos, separado da consci\u00eancia que pensa e interpreta o mundo. Nossa experi\u00eancia \u00e9 corporal desde sua origem: percebemos, sentimos, alcan\u00e7amos, caminhamos e nos relacionamos com a realidade por meio de uma exist\u00eancia encarnada. N\u00e3o somos simplesmente uma mente transportada por um organismo; nossa maneira de habitar o mundo depende profundamente da corporeidade. Quando come\u00e7amos a caminhar, por exemplo, n\u00e3o estamos apenas movimentando m\u00fasculos ou gastando energia. Estamos reencontrando uma forma de presen\u00e7a. Percebemos a temperatura do ar, a irregularidade do ch\u00e3o, a mudan\u00e7a da luz, o ritmo da respira\u00e7\u00e3o e a paisagem que se transforma diante dos olhos. O corpo deixa de aparecer exclusivamente como algo que precisa ser corrigido, emagrecido ou aperfei\u00e7oado e volta a ser reconhecido como uma dimens\u00e3o essencial de nossa experi\u00eancia. Talvez abandonar o sedentarismo seja tamb\u00e9m recuperar essa intimidade com o mundo, permitindo que a vida deixe de acontecer apenas diante de n\u00f3s e volte a acontecer atrav\u00e9s de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A ci\u00eancia contempor\u00e2nea oferece raz\u00f5es importantes para cultivar essa transforma\u00e7\u00e3o. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade reconhece a atividade f\u00edsica regular como um fator relevante para a preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras condi\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas, al\u00e9m de seus benef\u00edcios para a sa\u00fade mental, o sono e a capacidade funcional. Para adultos, recomenda-se, como refer\u00eancia geral, acumular entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aer\u00f3bica moderada, ou uma quantidade equivalente de atividade vigorosa, al\u00e9m de exerc\u00edcios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Essas recomenda\u00e7\u00f5es, entretanto, n\u00e3o devem ser interpretadas como uma exig\u00eancia que precisa ser cumprida integralmente desde o primeiro dia. Para quem permanece inativo h\u00e1 muito tempo, come\u00e7ar com poucos minutos de caminhada, levantar-se regularmente, realizar movimentos leves ou incorporar pequenas atividades \u00e0 rotina j\u00e1 representa uma mudan\u00e7a significativa. A progress\u00e3o deve respeitar as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, as limita\u00e7\u00f5es individuais e a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o. Existe uma diferen\u00e7a importante entre compreender o exerc\u00edcio como uma obriga\u00e7\u00e3o destinada a produzir resultados r\u00e1pidos e reconhec\u00ea-lo como uma pr\u00e1tica de cuidado que pode acompanhar toda a exist\u00eancia. O corpo n\u00e3o precisa ser submetido a uma transforma\u00e7\u00e3o violenta para come\u00e7ar a receber os benef\u00edcios do movimento.<\/p>\n<p>Do ponto de vista psicol\u00f3gico, talvez uma das maiores dificuldades esteja justamente em transformar o desejo de mudar em uma pr\u00e1tica cotidiana. Podemos compreender intelectualmente a import\u00e2ncia dos exerc\u00edcios f\u00edsicos, conhecer seus benef\u00edcios e imaginar a pessoa ativa que gostar\u00edamos de nos tornar, mas continuar encontrando dificuldades para iniciar. Isso acontece porque o comportamento humano n\u00e3o depende exclusivamente de conhecimento ou motiva\u00e7\u00e3o. Albert Bandura, em sua teoria da autoefic\u00e1cia, demonstrou a import\u00e2ncia da confian\u00e7a na pr\u00f3pria capacidade de realizar determinadas a\u00e7\u00f5es. Essa confian\u00e7a pode ser fortalecida por experi\u00eancias concretas de realiza\u00e7\u00e3o, especialmente quando estabelecemos objetivos poss\u00edveis e reconhecemos os pequenos progressos. Wendy Wood, ao estudar os h\u00e1bitos, tamb\u00e9m destaca a relev\u00e2ncia da repeti\u00e7\u00e3o e dos contextos relativamente est\u00e1veis na constru\u00e7\u00e3o de comportamentos duradouros. Talvez seja mais sustent\u00e1vel come\u00e7ar com uma caminhada breve depois do caf\u00e9 da manh\u00e3 do que estabelecer imediatamente uma rotina t\u00e3o exigente que se torne imposs\u00edvel mant\u00ea-la. A regularidade nasce, muitas vezes, de decis\u00f5es modestas que repetimos at\u00e9 que deixem de exigir uma negocia\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel conosco. N\u00e3o precisamos esperar que a disposi\u00e7\u00e3o apare\u00e7a espontaneamente todos os dias; podemos organizar as circunst\u00e2ncias para tornar o movimento mais acess\u00edvel. E, quando n\u00e3o conseguirmos cumprir o planejado, podemos simplesmente retomar no dia seguinte, sem transformar uma interrup\u00e7\u00e3o em fracasso.<\/p>\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o afetiva e existencial na decis\u00e3o de tornar-se mais ativo. Muitas vezes, pensamos no exerc\u00edcio f\u00edsico apenas como um instrumento para modificar a apar\u00eancia, controlar o peso ou alcan\u00e7ar determinado padr\u00e3o corporal. Embora mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o corporal possam integrar objetivos leg\u00edtimos, reduzir o movimento a essa finalidade empobrece profundamente seu significado. Podemos caminhar porque desejamos envelhecer com maior autonomia, fortalecer os m\u00fasculos para continuar realizando atividades cotidianas, preservar a capacidade de conhecer novos lugares e manter uma rela\u00e7\u00e3o mais confiante com nosso corpo. Podemos nos exercitar porque desejamos viver muitos anos com condi\u00e7\u00f5es de continuar lendo, escrevendo, trabalhando, cuidando das pessoas que amamos e experimentando aquilo que ainda n\u00e3o conhecemos. A longevidade, nesse sentido, n\u00e3o representa apenas a soma de anos acrescentados \u00e0 exist\u00eancia, mas o desejo de preservar possibilidades de participa\u00e7\u00e3o na vida. \u00c9 importante reconhecer que a atividade f\u00edsica n\u00e3o oferece garantias absolutas de sa\u00fade, nem impede todas as doen\u00e7as ou limita\u00e7\u00f5es do envelhecimento. Ainda assim, constitui uma das pr\u00e1ticas que podem contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o da capacidade funcional e da qualidade de vida. Talvez o movimento adquira um significado mais profundo quando deixa de ser uma tentativa de conquistar um corpo ideal e passa a expressar o desejo de cuidar do corpo real, com sua hist\u00f3ria, suas necessidades e suas possibilidades.<\/p>\n<p>No fundo, abandonar o sedentarismo pode ser compreendido como uma forma de reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesmo. N\u00e3o precisamos come\u00e7ar essa transforma\u00e7\u00e3o movidos pela insatisfa\u00e7\u00e3o com nossa apar\u00eancia, pela compara\u00e7\u00e3o com outras pessoas ou pela culpa diante dos anos em que permanecemos inativos. Podemos come\u00e7ar por uma raz\u00e3o mais delicada: porque desejamos viver bem dentro do corpo que temos. Podemos aprender a apreciar uma caminhada tranquila, o fortalecimento gradual dos m\u00fasculos, a satisfa\u00e7\u00e3o de perceber que determinada atividade se tornou menos cansativa e a alegria discreta de descobrir novas capacidades. Haver\u00e1 dias de entusiasmo e dias de resist\u00eancia, per\u00edodos de maior disposi\u00e7\u00e3o e momentos em que precisaremos reduzir o ritmo. Nada disso invalida o caminho. A constru\u00e7\u00e3o de uma vida ativa n\u00e3o exige perfei\u00e7\u00e3o, mas uma rela\u00e7\u00e3o suficientemente paciente com o tempo. Talvez, daqui a muitos anos, possamos olhar para tr\u00e1s e reconhecer que uma transforma\u00e7\u00e3o importante come\u00e7ou em um dia aparentemente comum, quando decidimos levantar, cal\u00e7ar os sapatos e oferecer ao pr\u00f3prio corpo alguns minutos de movimento. N\u00e3o porque desej\u00e1vamos nos tornar outra pessoa, mas porque compreendemos que ainda havia muita vida esperando para ser experimentada. E talvez a beleza de sair do sedentarismo esteja justamente nisso: descobrir que movimentar o corpo tamb\u00e9m \u00e9 uma maneira de dizer \u00e0 exist\u00eancia que desejamos continuar participando dela, com presen\u00e7a, autonomia, curiosidade e amor pela vida que ainda temos pela frente.<\/p>\n<p><strong>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas:<\/strong><\/p>\n<p>BANDURA, Albert. <em><a href=\"https:\/\/a.co\/d\/082XnxfX\" target=\"_blank\">Self-efficacy: the exercise of control<\/a><\/em>. New York: W. H. Freeman, 1997.<br \/>\nBRASIL. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. <em>Guia de atividade f\u00edsica para a popula\u00e7\u00e3o brasileira.<\/em> Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, 2021.<br \/>\nMERLEAU-PONTY, Maurice. <em><a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0ewzJ1k2\" target=\"_blank\">Fenomenologia da percep\u00e7\u00e3o.<\/a><\/em> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999.<br \/>\nORGANIZA\u00c7\u00c3O MUNDIAL DA SA\u00daDE. <em><a href=\"https:\/\/www.who.int\/publications\/i\/item\/9789240015128\" target=\"_blank\">WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour.<\/a><\/em> Genebra: World Health Organization, 2020.<br \/>\nWOOD, Wendy; R\u00dcNGER, Dennis. <em<a href=\"https:\/\/pubmed.ncbi.nlm.nih.gov\/26361052\/\" target=\"_blank\">>Psychology of habit.<\/a><\/em> Annual Review of Psychology, v. 67, p. 289\u2013314, 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o acontece necessariamente de maneira repentina. Primeiro, deixamos de caminhar porque estamos cansados; depois, adiamos os exerc\u00edcios porque temos muitas responsabilidades; em seguida, descobrimos que os dias passaram a ser organizados quase inteiramente entre cadeiras, camas, autom\u00f3veis e telas. O movimento, que durante a inf\u00e2ncia parecia uma express\u00e3o espont\u00e2nea da exist\u00eancia, transforma-se em uma atividade que precisamos planejar, justificar e, algumas vezes, enfrentar com consider\u00e1vel esfor\u00e7o. H\u00e1 algo de profundamente humano nessa contradi\u00e7\u00e3o: desejamos viver muitos anos, conhecer lugares, realizar projetos, amar pessoas e experimentar o mundo, mas podemos passar grande parte de nossos dias afastados das possibilidades de movimento que o pr\u00f3prio corpo nos oferece. Entretanto, reconhecer o sedentarismo n\u00e3o precisa transformar-se em mais uma oportunidade de condena\u00e7\u00e3o pessoal. Podemos olhar para nossa hist\u00f3ria com compreens\u00e3o e perceber que a inatividade frequentemente se desenvolve em meio ao cansa\u00e7o, \u00e0s exig\u00eancias profissionais, \u00e0s dificuldades emocionais e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es concretas da vida cotidiana. Talvez o primeiro passo para uma exist\u00eancia mais ativa n\u00e3o seja sentir vergonha daquilo que deixamos de fazer, mas compreender que ainda podemos construir uma rela\u00e7\u00e3o diferente com o corpo que nos acompanha desde o nascimento. A filosofia de Maurice Merleau-Ponty oferece uma perspectiva particularmente bonita para essa reflex\u00e3o. Em Fenomenologia da percep\u00e7\u00e3o, o fil\u00f3sofo franc\u00eas questiona a ideia de que o corpo seja apenas um objeto que possu\u00edmos, separado da consci\u00eancia que pensa e interpreta o mundo. 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Talvez abandonar o sedentarismo seja tamb\u00e9m recuperar essa intimidade com o mundo, permitindo que a vida deixe de acontecer apenas diante de n\u00f3s e volte a acontecer atrav\u00e9s de n\u00f3s. A ci\u00eancia contempor\u00e2nea oferece raz\u00f5es importantes para cultivar essa transforma\u00e7\u00e3o. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade reconhece a atividade f\u00edsica regular como um fator relevante para a preven\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras condi\u00e7\u00f5es cr\u00f4nicas, al\u00e9m de seus benef\u00edcios para a sa\u00fade mental, o sono e a capacidade funcional. Para adultos, recomenda-se, como refer\u00eancia geral, acumular entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aer\u00f3bica moderada, ou uma quantidade equivalente de atividade vigorosa, al\u00e9m de exerc\u00edcios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Essas recomenda\u00e7\u00f5es, entretanto, n\u00e3o devem ser interpretadas como uma exig\u00eancia que precisa ser cumprida integralmente desde o primeiro dia. Para quem permanece inativo h\u00e1 muito tempo, come\u00e7ar com poucos minutos de caminhada, levantar-se regularmente, realizar movimentos leves ou incorporar pequenas atividades \u00e0 rotina j\u00e1 representa uma mudan\u00e7a significativa. A progress\u00e3o deve respeitar as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, as limita\u00e7\u00f5es individuais e a capacidade de recupera\u00e7\u00e3o. Existe uma diferen\u00e7a importante entre compreender o exerc\u00edcio como uma obriga\u00e7\u00e3o destinada a produzir resultados r\u00e1pidos e reconhec\u00ea-lo como uma pr\u00e1tica de cuidado que pode acompanhar toda a exist\u00eancia. O corpo n\u00e3o precisa ser submetido a uma transforma\u00e7\u00e3o violenta para come\u00e7ar a receber os benef\u00edcios do movimento. Do ponto de vista psicol\u00f3gico, talvez uma das maiores dificuldades esteja justamente em transformar o desejo de mudar em uma pr\u00e1tica cotidiana. Podemos compreender intelectualmente a import\u00e2ncia dos exerc\u00edcios f\u00edsicos, conhecer seus benef\u00edcios e imaginar a pessoa ativa que gostar\u00edamos de nos tornar, mas continuar encontrando dificuldades para iniciar. Isso acontece porque o comportamento humano n\u00e3o depende exclusivamente de conhecimento ou motiva\u00e7\u00e3o. Albert Bandura, em sua teoria da autoefic\u00e1cia, demonstrou a import\u00e2ncia da confian\u00e7a na pr\u00f3pria capacidade de realizar determinadas a\u00e7\u00f5es. Essa confian\u00e7a pode ser fortalecida por experi\u00eancias concretas de realiza\u00e7\u00e3o, especialmente quando estabelecemos objetivos poss\u00edveis e reconhecemos os pequenos progressos. Wendy Wood, ao estudar os h\u00e1bitos, tamb\u00e9m destaca a relev\u00e2ncia da repeti\u00e7\u00e3o e dos contextos relativamente est\u00e1veis na constru\u00e7\u00e3o de comportamentos duradouros. Talvez seja mais sustent\u00e1vel come\u00e7ar com uma caminhada breve depois do caf\u00e9 da manh\u00e3 do que estabelecer imediatamente uma rotina t\u00e3o exigente que se torne imposs\u00edvel mant\u00ea-la. A regularidade nasce, muitas vezes, de decis\u00f5es modestas que repetimos at\u00e9 que deixem de exigir uma negocia\u00e7\u00e3o intermin\u00e1vel conosco. N\u00e3o precisamos esperar que a disposi\u00e7\u00e3o apare\u00e7a espontaneamente todos os dias; podemos organizar as circunst\u00e2ncias para tornar o movimento mais acess\u00edvel. E, quando n\u00e3o conseguirmos cumprir o planejado, podemos simplesmente retomar no dia seguinte, sem transformar uma interrup\u00e7\u00e3o em fracasso. H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o afetiva e existencial na decis\u00e3o de tornar-se mais ativo. Muitas vezes, pensamos no exerc\u00edcio f\u00edsico apenas como um instrumento para modificar a apar\u00eancia, controlar o peso ou alcan\u00e7ar determinado padr\u00e3o corporal. Embora mudan\u00e7as na composi\u00e7\u00e3o corporal possam integrar objetivos leg\u00edtimos, reduzir o movimento a essa finalidade empobrece profundamente seu significado. Podemos caminhar porque desejamos envelhecer com maior autonomia, fortalecer os m\u00fasculos para continuar realizando atividades cotidianas, preservar a capacidade de conhecer novos lugares e manter uma rela\u00e7\u00e3o mais confiante com nosso corpo. Podemos nos exercitar porque desejamos viver muitos anos com condi\u00e7\u00f5es de continuar lendo, escrevendo, trabalhando, cuidando das pessoas que amamos e experimentando aquilo que ainda n\u00e3o conhecemos. A longevidade, nesse sentido, n\u00e3o representa apenas a soma de anos acrescentados \u00e0 exist\u00eancia, mas o desejo de preservar possibilidades de participa\u00e7\u00e3o na vida. \u00c9 importante reconhecer que a atividade f\u00edsica n\u00e3o oferece garantias absolutas de sa\u00fade, nem impede todas as doen\u00e7as ou limita\u00e7\u00f5es do envelhecimento. Ainda assim, constitui uma das pr\u00e1ticas que podem contribuir para a manuten\u00e7\u00e3o da capacidade funcional e da qualidade de vida. Talvez o movimento adquira um significado mais profundo quando deixa de ser uma tentativa de conquistar um corpo ideal e passa a expressar o desejo de cuidar do corpo real, com sua hist\u00f3ria, suas necessidades e suas possibilidades. No fundo, abandonar o sedentarismo pode ser compreendido como uma forma de reconcilia\u00e7\u00e3o consigo mesmo. N\u00e3o precisamos come\u00e7ar essa transforma\u00e7\u00e3o movidos pela insatisfa\u00e7\u00e3o com nossa apar\u00eancia, pela compara\u00e7\u00e3o com outras pessoas ou pela culpa diante dos anos em que permanecemos inativos. Podemos come\u00e7ar por uma raz\u00e3o mais delicada: porque desejamos viver bem dentro do corpo que temos. Podemos aprender a apreciar uma caminhada tranquila, o fortalecimento gradual dos m\u00fasculos, a satisfa\u00e7\u00e3o de perceber que determinada atividade se tornou menos cansativa e a alegria discreta de descobrir novas capacidades. Haver\u00e1 dias de entusiasmo e dias de resist\u00eancia, per\u00edodos de maior disposi\u00e7\u00e3o e momentos em que precisaremos reduzir o ritmo. Nada disso invalida o caminho. A constru\u00e7\u00e3o de uma vida ativa n\u00e3o exige perfei\u00e7\u00e3o, mas uma rela\u00e7\u00e3o suficientemente paciente com o tempo. Talvez, daqui a muitos anos, possamos olhar para tr\u00e1s e reconhecer que uma transforma\u00e7\u00e3o importante come\u00e7ou em um dia aparentemente comum, quando decidimos levantar, cal\u00e7ar os sapatos e oferecer ao pr\u00f3prio corpo alguns minutos de movimento. N\u00e3o porque desej\u00e1vamos nos tornar outra pessoa, mas porque compreendemos que ainda havia muita vida esperando para ser experimentada. E talvez a beleza de sair do sedentarismo esteja justamente nisso: descobrir que movimentar o corpo tamb\u00e9m \u00e9 uma maneira de dizer \u00e0 exist\u00eancia que desejamos continuar participando dela, com presen\u00e7a, autonomia, curiosidade e amor pela vida que ainda temos pela frente. Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas: BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997. BRASIL. Minist\u00e9rio da Sa\u00fade. Guia de atividade f\u00edsica para a popula\u00e7\u00e3o brasileira. Bras\u00edlia: Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, 2021. MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percep\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999. ORGANIZA\u00c7\u00c3O MUNDIAL DA SA\u00daDE. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Genebra: World Health Organization, 2020. WOOD, Wendy; R\u00dcNGER, Dennis. Psychology of habit. Annual Review of Psychology, v. 67, p. 289\u2013314, 2016.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[379,393,420],"tags":[422,310,424],"class_list":["post-3218","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-filosofia","category-psicologia","category-saude","tag-albert-bandura","tag-merleau-ponty","tag-wendy-wood"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3218","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3218"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3218\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3219,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3218\/revisions\/3219"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3218"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3218"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3218"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}