{"id":3220,"date":"2026-10-17T18:22:44","date_gmt":"2026-10-17T21:22:44","guid":{"rendered":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3220"},"modified":"2026-10-17T18:22:44","modified_gmt":"2026-10-17T21:22:44","slug":"entre-o-amor-que-imaginamos-e-aquele-que-podemos-viver","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/ritaamor.com.br\/?p=3220","title":{"rendered":"Entre o amor que imaginamos e aquele que podemos viver"},"content":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil quando descobrimos que a intensidade de um sentimento n\u00e3o garante a possibilidade de uma hist\u00f3ria compartilhada. Podemos conhecer algu\u00e9m durante poucas semanas e conservar sua presen\u00e7a dentro de n\u00f3s por muitos anos. \u00c0s vezes, a lembran\u00e7a de determinados encontros adquire uma import\u00e2ncia desproporcional ao tempo que efetivamente passamos juntos. Recordamos conversas, gestos, descobertas, momentos de intimidade e a sensa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de ter encontrado algu\u00e9m com quem experimentamos uma afinidade rara. H\u00e1 pessoas que parecem despertar partes de n\u00f3s que permaneciam adormecidas, como se sua chegada iluminasse possibilidades afetivas que desconhec\u00edamos. Entretanto, a profundidade dessa experi\u00eancia n\u00e3o significa necessariamente que exista, entre duas pessoas, a disposi\u00e7\u00e3o rec\u00edproca para construir uma rela\u00e7\u00e3o. Podemos viver momentos verdadeiramente felizes com algu\u00e9m que n\u00e3o deseja compartilhar conosco a continuidade da vida. E talvez uma das aprendizagens mais dolorosas da maturidade seja reconhecer que aquilo que sentimos pode ser leg\u00edtimo, bonito e intenso, mesmo quando n\u00e3o encontra correspond\u00eancia na realidade que gostar\u00edamos de viver.<\/p>\n<p>A psicologia nos ajuda a compreender por que determinados v\u00ednculos permanecem t\u00e3o vivos em nossa mem\u00f3ria. John Bowlby, ao estudar o apego, demonstrou a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es afetivas para nossa experi\u00eancia de seguran\u00e7a, proximidade e separa\u00e7\u00e3o. Embora sua teoria n\u00e3o explique isoladamente todos os fen\u00f4menos da paix\u00e3o, ela oferece elementos para compreender por que a disponibilidade e a aus\u00eancia de algu\u00e9m podem mobilizar emo\u00e7\u00f5es t\u00e3o intensas. Quando uma rela\u00e7\u00e3o alterna momentos de proximidade com longos per\u00edodos de dist\u00e2ncia, podemos permanecer emocionalmente envolvidos na expectativa de um novo encontro. A incerteza, em algumas circunst\u00e2ncias, mant\u00e9m nossa aten\u00e7\u00e3o voltada para aquilo que ainda poder\u00e1 acontecer. N\u00e3o amamos apenas a pessoa que conhecemos, mas tamb\u00e9m a possibilidade de uma hist\u00f3ria que nunca chegou a desenvolver-se plenamente. Imaginamos como seria a conviv\u00eancia, quais experi\u00eancias compartilhar\u00edamos e que esp\u00e9cie de felicidade poder\u00edamos construir. Aos poucos, a rela\u00e7\u00e3o efetivamente vivida pode tornar-se insepar\u00e1vel daquela que continuamos elaborando em nossa imagina\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o significa que o sentimento seja falso. Significa apenas que uma parte importante de sua perman\u00eancia talvez esteja relacionada n\u00e3o somente ao passado, mas tamb\u00e9m ao futuro que nunca deixou de parecer poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Roland Barthes, em <em>Fragmentos de um discurso amoroso<\/em>, explora a experi\u00eancia daquele que ama e permanece atravessado pela espera, pela aus\u00eancia e pela interpreta\u00e7\u00e3o incessante dos sinais do outro. Uma mensagem, uma lembran\u00e7a, uma palavra carinhosa ou a promessa de um encontro podem adquirir significados extraordin\u00e1rios quando desejamos profundamente uma aproxima\u00e7\u00e3o. O sujeito apaixonado procura compreender aquilo que o outro sente, muitas vezes tentando encontrar respostas em gestos que permanecem amb\u00edguos. Entretanto, h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre a possibilidade que imaginamos e a disposi\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m demonstra concretamente. Uma pessoa pode sentir atra\u00e7\u00e3o, carinho e admira\u00e7\u00e3o sem desejar um relacionamento amoroso. Pode procurar nossa companhia e, ainda assim, n\u00e3o querer construir um compromisso. Pode viver conosco momentos inesquec\u00edveis sem atribuir a esses encontros o mesmo significado que atribu\u00edmos. Reconhecer essa diferen\u00e7a exige uma honestidade emocional que nem sempre \u00e9 confort\u00e1vel. \u00c9 mais f\u00e1cil permanecer interpretando sinais do que formular uma pergunta cuja resposta talvez nos obrigue a abandonar uma esperan\u00e7a antiga. Mas talvez a verdade, mesmo quando dolorosa, ofere\u00e7a uma liberdade que a ambiguidade prolongada n\u00e3o consegue proporcionar.<\/p>\n<p>Erich Fromm, em <em>A arte de amar<\/em>, prop\u00f5e compreender o amor como uma capacidade que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Essa perspectiva nos convida a distinguir a intensidade da paix\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo amoroso. A atra\u00e7\u00e3o pode surgir rapidamente, a intimidade pode ser extraordin\u00e1ria e a sensa\u00e7\u00e3o de afinidade pode parecer \u00fanica. Entretanto, uma rela\u00e7\u00e3o duradoura exige tamb\u00e9m disponibilidade, reciprocidade, compromisso livremente assumido e capacidade de reconhecer a pessoa real para al\u00e9m da imagem que constru\u00edmos dela. Amar algu\u00e9m n\u00e3o significa apenas desejar sua presen\u00e7a, mas tamb\u00e9m compreender quem essa pessoa \u00e9, aquilo que deseja e os limites que estabelece. Podemos admirar profundamente algu\u00e9m que n\u00e3o deseja o mesmo tipo de rela\u00e7\u00e3o que procuramos. Nessa circunst\u00e2ncia, insistir em transformar o outro na pessoa que gostar\u00edamos que fosse pode representar uma dificuldade de aceitar sua alteridade. O amor n\u00e3o deveria exigir que algu\u00e9m renunciasse \u00e0 pr\u00f3pria liberdade para corresponder \u00e0s nossas expectativas, assim como n\u00e3o deveria exigir que abandon\u00e1ssemos indefinidamente nossas necessidades afetivas para preservar uma possibilidade incerta. Talvez a maturidade amorosa comece quando conseguimos reconhecer simultaneamente duas verdades: aquilo que sentimos merece respeito, mas aquilo que o outro deseja tamb\u00e9m precisa ser levado a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Existe, entretanto, uma diferen\u00e7a entre aceitar a realidade e esconder nossos sentimentos por medo de conhec\u00ea-la. Muitas vezes, depois de uma experi\u00eancia dolorosa, come\u00e7amos a representar uma indiferen\u00e7a que n\u00e3o sentimos. Evitamos demonstrar interesse, respondemos com frieza e imaginamos que, dessa maneira, estaremos protegidos contra uma nova decep\u00e7\u00e3o. Em determinadas circunst\u00e2ncias, o afastamento \u00e9 realmente necess\u00e1rio para preservar nossa sa\u00fade emocional. Mas tamb\u00e9m podemos transformar a autoprote\u00e7\u00e3o em uma forma de comunica\u00e7\u00e3o indireta, esperando que o outro descubra sentimentos que n\u00e3o estamos dispostos a expressar. Carl Rogers, em suas reflex\u00f5es sobre a autenticidade e a congru\u00eancia, oferece uma contribui\u00e7\u00e3o importante para compreender o valor de estabelecer rela\u00e7\u00f5es nas quais nossas atitudes n\u00e3o estejam permanentemente separadas de nossa experi\u00eancia interior. Ser verdadeiro n\u00e3o significa declarar amor sem considerar o contexto, insistir depois de uma recusa ou expor-se repetidamente a situa\u00e7\u00f5es que nos machucam. Significa reconhecer o que sentimos e, quando houver condi\u00e7\u00f5es adequadas, express\u00e1-lo com clareza, sem jogos destinados a provocar determinadas rea\u00e7\u00f5es. Podemos dizer que gostamos de algu\u00e9m, perguntar o que essa pessoa deseja e escutar sua resposta. Depois, precisamos considerar n\u00e3o apenas as palavras, mas a continuidade das atitudes. A honestidade n\u00e3o garante a reciprocidade, mas pode impedir que passemos anos tentando interpretar aquilo que uma conversa franca talvez pudesse esclarecer.<\/p>\n<p>No fundo, talvez uma das maiores demonstra\u00e7\u00f5es de amor-pr\u00f3prio seja compreender que n\u00e3o precisamos negar a beleza de uma experi\u00eancia para reconhecer seus limites. Podemos guardar com ternura algu\u00e9m que nos proporcionou momentos extraordin\u00e1rios e, ainda assim, aceitar que essa pessoa talvez n\u00e3o esteja dispon\u00edvel para construir a rela\u00e7\u00e3o que desejamos. N\u00e3o precisamos transformar o outro em vil\u00e3o para conseguir seguir adiante, nem desvalorizar aquilo que vivemos para justificar nossa despedida. Algumas hist\u00f3rias s\u00e3o importantes justamente porque revelam nossa capacidade de sentir, de desejar, de entregar-nos e de descobrir dimens\u00f5es desconhecidas de n\u00f3s mesmos. Mas a vida n\u00e3o pode permanecer indefinidamente suspensa \u00e0 espera de que uma possibilidade se transforme em realidade. H\u00e1 outros encontros, outras formas de intimidade e outras experi\u00eancias que merecem nossa disponibilidade emocional. Isso n\u00e3o significa que precisemos esquecer algu\u00e9m para continuar vivendo, mas que podemos aprender a recordar sem permanecer aprisionados \u00e0 expectativa. Talvez amar com maturidade seja reconhecer que a pessoa que despertou em n\u00f3s um sentimento extraordin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 necessariamente a \u00fanica com quem poder\u00edamos construir uma vida feliz. Porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre encontrar algu\u00e9m que nos faz sentir intensamente vivos e encontrar algu\u00e9m que tamb\u00e9m deseja permanecer conosco para compartilhar a vida. E talvez uma das formas mais bonitas de amadurecer seja aprender a valorizar a primeira experi\u00eancia sem renunciar \u00e0 possibilidade da segunda.<\/p>\n<p>Refer\u00eancias<\/p>\n<p>BARTHES, Roland. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0ayIV34b\" target=\"_blank\">Fragmentos de um discurso amoroso<\/a>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003.<br \/>\nBOWLBY, John. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0aTqjLQl\" target=\"_blank\">Apego e perda: apego.<\/a> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002.<br \/>\nFROMM, Erich. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/0bFVCRsk\" target=\"_blank\">A arte de amar.<\/a> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000.<br \/>\nROGERS, Carl R. <a href=\"https:\/\/a.co\/d\/06MXwbxv\" target=\"_blank\">Tornar-se pessoa<\/a>. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 dif\u00edcil quando descobrimos que a intensidade de um sentimento n\u00e3o garante a possibilidade de uma hist\u00f3ria compartilhada. Podemos conhecer algu\u00e9m durante poucas semanas e conservar sua presen\u00e7a dentro de n\u00f3s por muitos anos. \u00c0s vezes, a lembran\u00e7a de determinados encontros adquire uma import\u00e2ncia desproporcional ao tempo que efetivamente passamos juntos. Recordamos conversas, gestos, descobertas, momentos de intimidade e a sensa\u00e7\u00e3o extraordin\u00e1ria de ter encontrado algu\u00e9m com quem experimentamos uma afinidade rara. H\u00e1 pessoas que parecem despertar partes de n\u00f3s que permaneciam adormecidas, como se sua chegada iluminasse possibilidades afetivas que desconhec\u00edamos. Entretanto, a profundidade dessa experi\u00eancia n\u00e3o significa necessariamente que exista, entre duas pessoas, a disposi\u00e7\u00e3o rec\u00edproca para construir uma rela\u00e7\u00e3o. Podemos viver momentos verdadeiramente felizes com algu\u00e9m que n\u00e3o deseja compartilhar conosco a continuidade da vida. E talvez uma das aprendizagens mais dolorosas da maturidade seja reconhecer que aquilo que sentimos pode ser leg\u00edtimo, bonito e intenso, mesmo quando n\u00e3o encontra correspond\u00eancia na realidade que gostar\u00edamos de viver. A psicologia nos ajuda a compreender por que determinados v\u00ednculos permanecem t\u00e3o vivos em nossa mem\u00f3ria. John Bowlby, ao estudar o apego, demonstrou a import\u00e2ncia das rela\u00e7\u00f5es afetivas para nossa experi\u00eancia de seguran\u00e7a, proximidade e separa\u00e7\u00e3o. Embora sua teoria n\u00e3o explique isoladamente todos os fen\u00f4menos da paix\u00e3o, ela oferece elementos para compreender por que a disponibilidade e a aus\u00eancia de algu\u00e9m podem mobilizar emo\u00e7\u00f5es t\u00e3o intensas. Quando uma rela\u00e7\u00e3o alterna momentos de proximidade com longos per\u00edodos de dist\u00e2ncia, podemos permanecer emocionalmente envolvidos na expectativa de um novo encontro. A incerteza, em algumas circunst\u00e2ncias, mant\u00e9m nossa aten\u00e7\u00e3o voltada para aquilo que ainda poder\u00e1 acontecer. N\u00e3o amamos apenas a pessoa que conhecemos, mas tamb\u00e9m a possibilidade de uma hist\u00f3ria que nunca chegou a desenvolver-se plenamente. Imaginamos como seria a conviv\u00eancia, quais experi\u00eancias compartilhar\u00edamos e que esp\u00e9cie de felicidade poder\u00edamos construir. Aos poucos, a rela\u00e7\u00e3o efetivamente vivida pode tornar-se insepar\u00e1vel daquela que continuamos elaborando em nossa imagina\u00e7\u00e3o. Isso n\u00e3o significa que o sentimento seja falso. Significa apenas que uma parte importante de sua perman\u00eancia talvez esteja relacionada n\u00e3o somente ao passado, mas tamb\u00e9m ao futuro que nunca deixou de parecer poss\u00edvel. Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, explora a experi\u00eancia daquele que ama e permanece atravessado pela espera, pela aus\u00eancia e pela interpreta\u00e7\u00e3o incessante dos sinais do outro. Uma mensagem, uma lembran\u00e7a, uma palavra carinhosa ou a promessa de um encontro podem adquirir significados extraordin\u00e1rios quando desejamos profundamente uma aproxima\u00e7\u00e3o. O sujeito apaixonado procura compreender aquilo que o outro sente, muitas vezes tentando encontrar respostas em gestos que permanecem amb\u00edguos. Entretanto, h\u00e1 uma diferen\u00e7a fundamental entre a possibilidade que imaginamos e a disposi\u00e7\u00e3o que algu\u00e9m demonstra concretamente. Uma pessoa pode sentir atra\u00e7\u00e3o, carinho e admira\u00e7\u00e3o sem desejar um relacionamento amoroso. Pode procurar nossa companhia e, ainda assim, n\u00e3o querer construir um compromisso. Pode viver conosco momentos inesquec\u00edveis sem atribuir a esses encontros o mesmo significado que atribu\u00edmos. Reconhecer essa diferen\u00e7a exige uma honestidade emocional que nem sempre \u00e9 confort\u00e1vel. \u00c9 mais f\u00e1cil permanecer interpretando sinais do que formular uma pergunta cuja resposta talvez nos obrigue a abandonar uma esperan\u00e7a antiga. Mas talvez a verdade, mesmo quando dolorosa, ofere\u00e7a uma liberdade que a ambiguidade prolongada n\u00e3o consegue proporcionar. Erich Fromm, em A arte de amar, prop\u00f5e compreender o amor como uma capacidade que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Essa perspectiva nos convida a distinguir a intensidade da paix\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de um v\u00ednculo amoroso. A atra\u00e7\u00e3o pode surgir rapidamente, a intimidade pode ser extraordin\u00e1ria e a sensa\u00e7\u00e3o de afinidade pode parecer \u00fanica. Entretanto, uma rela\u00e7\u00e3o duradoura exige tamb\u00e9m disponibilidade, reciprocidade, compromisso livremente assumido e capacidade de reconhecer a pessoa real para al\u00e9m da imagem que constru\u00edmos dela. Amar algu\u00e9m n\u00e3o significa apenas desejar sua presen\u00e7a, mas tamb\u00e9m compreender quem essa pessoa \u00e9, aquilo que deseja e os limites que estabelece. Podemos admirar profundamente algu\u00e9m que n\u00e3o deseja o mesmo tipo de rela\u00e7\u00e3o que procuramos. Nessa circunst\u00e2ncia, insistir em transformar o outro na pessoa que gostar\u00edamos que fosse pode representar uma dificuldade de aceitar sua alteridade. O amor n\u00e3o deveria exigir que algu\u00e9m renunciasse \u00e0 pr\u00f3pria liberdade para corresponder \u00e0s nossas expectativas, assim como n\u00e3o deveria exigir que abandon\u00e1ssemos indefinidamente nossas necessidades afetivas para preservar uma possibilidade incerta. Talvez a maturidade amorosa comece quando conseguimos reconhecer simultaneamente duas verdades: aquilo que sentimos merece respeito, mas aquilo que o outro deseja tamb\u00e9m precisa ser levado a s\u00e9rio. Existe, entretanto, uma diferen\u00e7a entre aceitar a realidade e esconder nossos sentimentos por medo de conhec\u00ea-la. Muitas vezes, depois de uma experi\u00eancia dolorosa, come\u00e7amos a representar uma indiferen\u00e7a que n\u00e3o sentimos. Evitamos demonstrar interesse, respondemos com frieza e imaginamos que, dessa maneira, estaremos protegidos contra uma nova decep\u00e7\u00e3o. Em determinadas circunst\u00e2ncias, o afastamento \u00e9 realmente necess\u00e1rio para preservar nossa sa\u00fade emocional. Mas tamb\u00e9m podemos transformar a autoprote\u00e7\u00e3o em uma forma de comunica\u00e7\u00e3o indireta, esperando que o outro descubra sentimentos que n\u00e3o estamos dispostos a expressar. Carl Rogers, em suas reflex\u00f5es sobre a autenticidade e a congru\u00eancia, oferece uma contribui\u00e7\u00e3o importante para compreender o valor de estabelecer rela\u00e7\u00f5es nas quais nossas atitudes n\u00e3o estejam permanentemente separadas de nossa experi\u00eancia interior. Ser verdadeiro n\u00e3o significa declarar amor sem considerar o contexto, insistir depois de uma recusa ou expor-se repetidamente a situa\u00e7\u00f5es que nos machucam. Significa reconhecer o que sentimos e, quando houver condi\u00e7\u00f5es adequadas, express\u00e1-lo com clareza, sem jogos destinados a provocar determinadas rea\u00e7\u00f5es. Podemos dizer que gostamos de algu\u00e9m, perguntar o que essa pessoa deseja e escutar sua resposta. Depois, precisamos considerar n\u00e3o apenas as palavras, mas a continuidade das atitudes. A honestidade n\u00e3o garante a reciprocidade, mas pode impedir que passemos anos tentando interpretar aquilo que uma conversa franca talvez pudesse esclarecer. No fundo, talvez uma das maiores demonstra\u00e7\u00f5es de amor-pr\u00f3prio seja compreender que n\u00e3o precisamos negar a beleza de uma experi\u00eancia para reconhecer seus limites. Podemos guardar com ternura algu\u00e9m que nos proporcionou momentos extraordin\u00e1rios e, ainda assim, aceitar que essa pessoa talvez n\u00e3o esteja dispon\u00edvel para construir a rela\u00e7\u00e3o que desejamos. N\u00e3o precisamos transformar o outro em vil\u00e3o para conseguir seguir adiante, nem desvalorizar aquilo que vivemos para justificar nossa despedida. Algumas hist\u00f3rias s\u00e3o importantes justamente porque revelam nossa capacidade de sentir, de desejar, de entregar-nos e de descobrir dimens\u00f5es desconhecidas de n\u00f3s mesmos. Mas a vida n\u00e3o pode permanecer indefinidamente suspensa \u00e0 espera de que uma possibilidade se transforme em realidade. H\u00e1 outros encontros, outras formas de intimidade e outras experi\u00eancias que merecem nossa disponibilidade emocional. Isso n\u00e3o significa que precisemos esquecer algu\u00e9m para continuar vivendo, mas que podemos aprender a recordar sem permanecer aprisionados \u00e0 expectativa. Talvez amar com maturidade seja reconhecer que a pessoa que despertou em n\u00f3s um sentimento extraordin\u00e1rio n\u00e3o \u00e9 necessariamente a \u00fanica com quem poder\u00edamos construir uma vida feliz. Porque h\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda entre encontrar algu\u00e9m que nos faz sentir intensamente vivos e encontrar algu\u00e9m que tamb\u00e9m deseja permanecer conosco para compartilhar a vida. E talvez uma das formas mais bonitas de amadurecer seja aprender a valorizar a primeira experi\u00eancia sem renunciar \u00e0 possibilidade da segunda. Refer\u00eancias BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2003. BOWLBY, John. Apego e perda: apego. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2002. FROMM, Erich. A arte de amar. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2000. ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 2009.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[419,393],"tags":[172,411,445,428],"class_list":["post-3220","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amor","category-psicologia","tag-carl-rogers","tag-erich-fromm","tag-john-bowlby","tag-roland-barthes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3220","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=3220"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3220\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":3221,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/3220\/revisions\/3221"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=3220"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=3220"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/ritaamor.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=3220"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}