psicologia

Há derrotas que apenas mudam a trajetória

Fracassar em alguma coisa e fracassar como pessoa são experiências profundamente diferentes, embora, nos momentos de derrota, seja difícil separá-las. Quando algo em que depositamos tempo, esperança e esforço não acontece como desejávamos, existe uma tendência dolorosa de transformar um acontecimento em identidade. Não pensamos apenas “isso não deu certo”; pensamos “eu não dei certo”. Uma reprovação pode parecer uma sentença sobre nossa inteligência, o fim de uma relação pode parecer a prova de que não sabemos amar, um projeto interrompido pode nos fazer duvidar de nossa capacidade de construir qualquer coisa. Talvez uma das aprendizagens mais difíceis da vida seja compreender que aquilo que nos acontece fala sobre uma circunstância, um momento, uma tentativa — e não necessariamente sobre a totalidade de quem somos.

Existe algo quase cruel na maneira como costumamos olhar para nossa própria trajetória: julgamos o passado com informações que só adquirimos depois de atravessá-lo. Olhamos para uma escolha antiga e pensamos que deveríamos ter sabido aquilo que ainda não tínhamos como saber. Revisitamos decisões tomadas por uma versão de nós que possuía menos experiência, outras necessidades, outros medos e circunstâncias diferentes. Naturalmente, somos responsáveis por muitas de nossas escolhas e precisamos aprender com elas, mas responsabilidade não precisa significar condenação. Há uma diferença profunda entre reconhecer “eu poderia ter feito diferente” e concluir “há alguma coisa errada comigo”. A primeira frase abre uma possibilidade de transformação; a segunda nos aprisiona dentro do passado.

Talvez o fracasso possa ser compreendido, algumas vezes, como uma espécie de informação que a realidade nos devolve. Tentamos alguma coisa e descobrimos que aquele método não funciona, que determinada expectativa era irreal, que ainda não possuíamos certas habilidades ou que aquele caminho simplesmente não combinava conosco como imaginávamos. Carol Dweck, ao estudar as crenças que desenvolvemos sobre nossas capacidades, mostrou a importância de compreender dificuldades e erros não como provas definitivas de uma incapacidade imutável, mas como experiências a partir das quais podemos aprender. Isso não significa repetir ingenuamente que “todo fracasso é uma oportunidade”. Alguns fracassos custam caro, ferem profundamente e deixam consequências que não podem ser apagadas por uma frase otimista. Ainda assim, mesmo aquilo que não podemos desfazer pode modificar a maneira como caminhamos depois.

Há também derrotas que não revelam insuficiência alguma. Podemos fazer muitas coisas corretamente e ainda assim perder. Podemos amar sinceramente alguém que decide partir, preparar-nos profundamente para uma oportunidade que será dada a outra pessoa, dedicar anos a um projeto que encontra circunstâncias desfavoráveis. Albert Bandura, ao desenvolver seus estudos sobre autoeficácia, mostrou que nossa percepção de capacidade é influenciada pelas experiências de sucesso e fracasso, mas também pela maneira como interpretamos essas experiências. Talvez maturidade seja aprender a fazer uma leitura mais justa de nossas quedas: perguntar o que estava sob nosso controle, o que não estava, o que precisamos aprender e o que simplesmente precisamos aceitar. Nem toda derrota contém uma lição secreta. Algumas contêm apenas a realidade lembrando que esforço aumenta possibilidades, mas nunca nos concede domínio absoluto sobre o mundo.

O mais importante talvez seja não permitir que um acontecimento ocupe todo o espaço de nossa identidade. Somos maiores do que aquilo que conseguimos e também maiores do que aquilo em que falhamos. Uma vida não pode ser resumida por uma prova, uma profissão, um relacionamento, uma escolha equivocada ou um período em que não conseguimos ser quem esperávamos. Carl Rogers compreendia a pessoa como um processo, e talvez exista nessa ideia uma forma generosa de pensar nossa própria existência: não somos objetos terminados que uma derrota revela definitivamente; somos seres em transformação. Enquanto estamos vivos, alguma coisa permanece aberta. Podemos aprender outra habilidade, rever uma expectativa, abandonar um caminho, reconstruir um projeto ou simplesmente descobrir que aquilo que um dia consideramos indispensável já não precisa ocupar o centro de nossa vida.

Talvez por isso algumas derrotas só possam ser compreendidas muitos anos depois. No instante em que acontecem, vemos apenas a porta fechada; mais tarde, às vezes percebemos os caminhos que tivemos de inventar porque ela não se abriu. Isso não significa agradecer por todas as dores nem imaginar que o sofrimento era necessário. Significa apenas reconhecer que uma história humana raramente obedece ao primeiro roteiro que escrevemos para ela. Há páginas que gostaríamos de arrancar, capítulos que terminaram cedo demais e planos que jamais chegaram a existir. Ainda assim, enquanto houver vida, o fracasso não precisa receber a última palavra. Podemos olhar para aquilo que não aconteceu, recolher o que aprendemos, lamentar o que perdemos e continuar. Algumas derrotas realmente encerram caminhos. Mas encerrar um caminho não é encerrar uma pessoa. Às vezes, é apenas a vida nos entregando novamente a página — e nos obrigando, com tudo o que agora sabemos, a escrever a história de outra maneira.

Referências bibliográficas

BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.
DWECK, Carol S. Mindset: a nova psicologia do sucesso. São Paulo: Objetiva, 2017.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.

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