amor - psicologia

Há pessoas que não ficam, mas nos despertam

Nem toda paixão foi feita para transformar-se em história de amor. Algumas chegam sem a duração necessária para construir uma vida, mas com intensidade suficiente para modificar alguma coisa dentro de nós. Encontramos alguém e, de repente, aquilo que parecia adormecido começa novamente a se mover. Esperamos uma mensagem. Escolhemos uma roupa com um cuidado que havíamos esquecido. Uma música parece dizer alguma coisa que antes não dizia. O corpo recupera uma espécie de memória: a expectativa, o desejo, a ansiedade boa de um encontro, a vontade de ser visto. Talvez tenhamos passado anos acreditando que determinada parte de nós havia desaparecido, quando estava apenas silenciosa. Então alguém chega e, por algum tempo, acende uma luz naquele lugar.

É fácil imaginar que uma paixão só terá valido a pena se terminar em permanência. Como se o significado de um encontro pudesse ser medido exclusivamente pela sua duração. Queremos que aquilo que nos comove encontre continuidade, que o encantamento se transforme em compromisso, que a pessoa que abriu determinada porta permaneça conosco depois de atravessá-la. Há uma lógica compreensível nisso: quando alguma coisa nos faz bem, desejamos conservá-la. Mas a vida afetiva nem sempre obedece a essa lógica. Há encontros intensos que não encontram condições para se tornar relações duradouras, pessoas que desejam futuros diferentes, momentos que não coincidem, sentimentos que possuem profundidades distintas. O fato de algo terminar, entretanto, não torna necessariamente falso aquilo que existiu enquanto estava acontecendo.

Talvez uma das coisas mais bonitas e difíceis que algumas paixões nos ensinem seja que aquilo que sentimos diante do outro também revela alguma coisa que ainda existe em nós. A capacidade de desejar não pertencia à pessoa que despertou nosso desejo. A capacidade de imaginar não era propriedade de quem nos fez voltar a imaginar. A alegria, a curiosidade, a sensualidade, a esperança e a vontade de experimentar novamente a vida estavam em nós, embora talvez não conseguíssemos mais alcançá-las. O outro pode ter sido o acontecimento que abriu uma janela, mas o ar que entrou por ela encontrou uma casa que ainda estava viva. Perceber isso muda profundamente a maneira como atravessamos uma despedida: podemos lamentar a ausência de alguém sem acreditar que essa pessoa levou consigo tudo aquilo que despertou.

Isso não significa transformar perdas em lições obrigatórias. Há despedidas que doem simplesmente porque desejávamos que não fossem despedidas. Há paixões breves das quais gostaríamos de ter feito uma história longa. E talvez seja importante permitir que essa tristeza exista sem imediatamente tentar convertê-la em crescimento pessoal. A psicologia do luto mostra que perder não significa apenas lidar com a ausência concreta de alguém, mas também reorganizar significados, vínculos e futuros imaginados. Pauline Boss chamou atenção para formas de perda marcadas pela ambiguidade, nas quais nem sempre existe um encerramento claro. Algumas paixões deixam justamente essa espécie de vazio: não choramos apenas aquilo que aconteceu, mas principalmente aquilo que poderia ter acontecido. Às vezes é o futuro que imaginamos juntos que demora mais para partir.

Com o tempo, porém, podemos começar a separar a pessoa daquilo que ela representou. Talvez ela tenha chegado num momento em que estávamos cansados, fechados ou excessivamente acostumados a uma vida sem surpresa. Talvez tenha nos lembrado de uma dimensão nossa que havíamos abandonado para sobreviver às exigências dos dias. Não precisamos transformar quem passou em destino para reconhecer a importância do encontro. Algumas pessoas participam de nossa história não porque permaneceram até o fim, mas porque dividiram conosco determinado trecho e, naquele trecho, alguma coisa aconteceu. Depois delas, talvez continuemos sozinhos, mas já não exatamente os mesmos. Há encontros que não constroem uma casa conosco; apenas abrem uma janela em uma casa que havíamos deixado escurecer.

Talvez amadurecer afetivamente também seja aprender que permanência e importância não são sinônimos. Existem pessoas que permanecem durante décadas e quase não nos transformam, enquanto outras atravessam poucos meses de nossa vida e deixam perguntas que levaremos durante anos. Isso não significa que devamos viver esperando paixões fugazes nem romantizar relações impossíveis. Significa apenas aceitar que nem tudo aquilo que termina precisa ser considerado um erro. Às vezes, alguém chega, toca uma parte esquecida de nós e depois segue seu caminho. Sofremos porque gostaríamos que ficasse, mas, quando a tristeza começa a se aquietar, talvez percebamos algo extraordinário: a luz que acreditávamos pertencer àquela pessoa continua acesa depois que ela foi embora. E então compreendemos que talvez aquele encontro não tenha vindo para nos completar nem para permanecer para sempre. Talvez tenha vindo apenas para nos lembrar de uma coisa que havíamos esquecido: ainda estamos vivos, ainda podemos desejar, ainda podemos estremecer — e ainda existe dentro de nós muito amor que não terminou apenas porque uma história terminou.

Referências bibliográficas

BOSS, Pauline. Ambiguous loss: learning to live with unresolved grief. Cambridge: Harvard University Press, 1999.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

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