Há sonhos que chegam de repente, iluminam uma determinada fase da vida e depois desaparecem, substituídos por outros desejos, outras necessidades, outras maneiras de compreender o mundo. Mas existem também aqueles que permanecem. Atravessam os anos, sobrevivem às mudanças de profissão, às responsabilidades familiares, aos desencontros amorosos, às perdas e às inúmeras versões que nos tornamos de nós mesmos. Às vezes ficam silenciosos durante muito tempo, quase esquecidos sob as exigências da vida cotidiana, mas basta um pequeno acontecimento para que voltem a respirar. O desejo de escrever pode ser assim. Podemos passar anos trabalhando, estudando, cuidando de outras pessoas, tentando resolver os problemas concretos da existência e, ainda assim, continuar carregando dentro de nós a vontade de transformar experiências em palavras. Talvez haja algo profundamente comovente em perceber que, apesar de tantas mudanças, determinada parte de nós permaneceu fiel àquilo que um dia imaginou ser possível.
Cultivar um sonho durante muitos anos não significa permanecer imóvel diante dele. Ao contrário, talvez seja uma das formas mais discretas e profundas de transformação. A pessoa que deseja escrever aos vinte anos não possui o mesmo olhar daquela que continua desejando escrever aos cinquenta ou aos setenta. Entre uma idade e outra, a vida acrescenta experiências que nenhum curso poderia oferecer inteiramente: aprendemos alguma coisa sobre o amor depois de perder alguém, sobre o tempo depois de perceber sua passagem, sobre a solidão depois de atravessar determinados silêncios, sobre a condição humana depois de testemunhar nossas próprias contradições. Aquilo que antes era apenas imaginação começa a encontrar a densidade da experiência. A escrita amadurece porque também amadurece a pessoa que escreve. Talvez por isso um sonho antigo não seja necessariamente um sonho atrasado. Pode ser um sonho que passou muitos anos reunindo, silenciosamente, a matéria de que precisava para começar a existir.
Há, entretanto, uma diferença importante entre conservar um sonho e simplesmente adiá-lo. Podemos amar profundamente a ideia de escrever e, ainda assim, passar décadas esperando o momento ideal: quando tivermos mais tempo, quando o trabalho estiver menos exigente, quando a casa estiver organizada, quando dominarmos melhor a linguagem, quando finalmente nos sentirmos preparados. Mas talvez ninguém se torne escritor apenas por desejar escrever. A escrita exige também o encontro concreto com a página, a disposição de produzir frases imperfeitas, de reescrever, de abandonar trechos, de enfrentar a distância entre aquilo que imaginamos e aquilo que conseguimos realizar. Albert Bandura mostrou a importância das experiências de domínio na construção da confiança em nossas próprias capacidades, enquanto pesquisas sobre formação de hábitos ajudam a compreender como a repetição de comportamentos em contextos relativamente estáveis favorece sua continuidade. Talvez a fidelidade a um sonho precise assumir uma forma cotidiana: não apenas continuar querendo escrever, mas construir uma vida na qual escrever tenha um lugar real.
Existe também uma dimensão existencial nessa permanência. Viktor Frankl compreendia a busca de sentido como uma força importante da experiência humana, embora esse sentido não se apresente da mesma maneira para todas as pessoas. Para algumas, ele se manifesta no cuidado com os filhos; para outras, na pesquisa, na arte, na educação, na construção de uma comunidade ou na dedicação a determinada causa. Escrever pode representar uma dessas formas de atribuir sentido à existência. Não necessariamente porque desejamos reconhecimento, publicação ou permanência depois da morte, mas porque sentimos que há alguma coisa em nossa maneira de perceber o mundo que precisa encontrar linguagem. A escrita permite aproximar experiências que pareciam dispersas, examinar aquilo que sentimos, interrogar nossas certezas e oferecer a outras pessoas a possibilidade de reconhecer algo de si nas palavras de alguém. Talvez um livro seja, antes de tudo, uma tentativa de transformar uma experiência individual em uma forma de encontro.
Mas cultivar o mesmo sonho durante décadas também exige aprender a conviver com a passagem do tempo sem transformar cada ano em uma acusação. É possível olhar para trás e lamentar os livros que ainda não escrevemos, os projetos que abandonamos, as horas que dedicamos a coisas que hoje parecem menos importantes. Podemos imaginar a escritora que teríamos nos tornado se tivéssemos começado antes. Entretanto, essa comparação ignora que a pessoa que somos agora não existia naquele tempo. Talvez nos faltassem recursos, segurança, experiência, maturidade ou simplesmente condições concretas para dedicar à escrita o espaço que desejávamos. Isso não significa negar nossa responsabilidade pelas escolhas feitas, mas reconhecer que uma trajetória humana não pode ser julgada apenas pelo calendário. A vida criativa raramente obedece a uma linha reta. Há períodos de produção intensa e períodos de silêncio; anos em que escrevemos páginas e anos em que, sem perceber, estamos aprendendo a enxergar aquilo que um dia escreveremos. O importante é não transformar essa compreensão em mais um motivo para adiar, mas em uma oportunidade de recomeçar sem desprezar o caminho percorrido.
Talvez exista uma beleza muito particular em envelhecer ao lado de um sonho que continua vivo. Imaginar que, aos sessenta, setenta ou oitenta anos, ainda poderemos nos sentar diante de uma página e encontrar alguma coisa que mereça ser dita. Que a passagem do tempo não precisa representar apenas diminuição, mas também aprofundamento; que nossas experiências podem continuar se transformando em histórias; que ainda haverá personagens esperando por nós, perguntas que não conseguimos responder e palavras capazes de revelar aspectos desconhecidos de nossa própria existência. Nem todos os sonhos precisam ser realizados rapidamente para terem valor, mas aqueles que verdadeiramente importam merecem mais do que nossa esperança: merecem nossa presença. Talvez escrever durante uma vida inteira seja, em alguma medida, estabelecer um compromisso amoroso com a pessoa que continuaremos nos tornando. E talvez uma das experiências mais bonitas da velhice seja olhar para trás e perceber que, entre tantas coisas que mudaram, houve alguma coisa que nunca abandonamos completamente. Não porque tenhamos permanecido iguais, mas porque permitimos que um mesmo sonho crescesse, envelhecesse e se transformasse conosco — até que a própria vida, lentamente, começasse a encontrar sua forma nas palavras.
Referências bibliográficas
BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes, 2008.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
WOOD, Wendy; RÜNGER, Dennis. Psychology of habit. Annual Review of Psychology, v. 67, p. 289–314, 2016.
WOOLF, Virginia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.