É difícil quando descobrimos que a intensidade de um sentimento não garante a possibilidade de uma história compartilhada. Podemos conhecer alguém durante poucas semanas e conservar sua presença dentro de nós por muitos anos. Às vezes, a lembrança de determinados encontros adquire uma importância desproporcional ao tempo que efetivamente passamos juntos. Recordamos conversas, gestos, descobertas, momentos de intimidade e a sensação extraordinária de ter encontrado alguém com quem experimentamos uma afinidade rara. Há pessoas que parecem despertar partes de nós que permaneciam adormecidas, como se sua chegada iluminasse possibilidades afetivas que desconhecíamos. Entretanto, a profundidade dessa experiência não significa necessariamente que exista, entre duas pessoas, a disposição recíproca para construir uma relação. Podemos viver momentos verdadeiramente felizes com alguém que não deseja compartilhar conosco a continuidade da vida. E talvez uma das aprendizagens mais dolorosas da maturidade seja reconhecer que aquilo que sentimos pode ser legítimo, bonito e intenso, mesmo quando não encontra correspondência na realidade que gostaríamos de viver.
A psicologia nos ajuda a compreender por que determinados vínculos permanecem tão vivos em nossa memória. John Bowlby, ao estudar o apego, demonstrou a importância das relações afetivas para nossa experiência de segurança, proximidade e separação. Embora sua teoria não explique isoladamente todos os fenômenos da paixão, ela oferece elementos para compreender por que a disponibilidade e a ausência de alguém podem mobilizar emoções tão intensas. Quando uma relação alterna momentos de proximidade com longos períodos de distância, podemos permanecer emocionalmente envolvidos na expectativa de um novo encontro. A incerteza, em algumas circunstâncias, mantém nossa atenção voltada para aquilo que ainda poderá acontecer. Não amamos apenas a pessoa que conhecemos, mas também a possibilidade de uma história que nunca chegou a desenvolver-se plenamente. Imaginamos como seria a convivência, quais experiências compartilharíamos e que espécie de felicidade poderíamos construir. Aos poucos, a relação efetivamente vivida pode tornar-se inseparável daquela que continuamos elaborando em nossa imaginação. Isso não significa que o sentimento seja falso. Significa apenas que uma parte importante de sua permanência talvez esteja relacionada não somente ao passado, mas também ao futuro que nunca deixou de parecer possível.
Roland Barthes, em Fragmentos de um discurso amoroso, explora a experiência daquele que ama e permanece atravessado pela espera, pela ausência e pela interpretação incessante dos sinais do outro. Uma mensagem, uma lembrança, uma palavra carinhosa ou a promessa de um encontro podem adquirir significados extraordinários quando desejamos profundamente uma aproximação. O sujeito apaixonado procura compreender aquilo que o outro sente, muitas vezes tentando encontrar respostas em gestos que permanecem ambíguos. Entretanto, há uma diferença fundamental entre a possibilidade que imaginamos e a disposição que alguém demonstra concretamente. Uma pessoa pode sentir atração, carinho e admiração sem desejar um relacionamento amoroso. Pode procurar nossa companhia e, ainda assim, não querer construir um compromisso. Pode viver conosco momentos inesquecíveis sem atribuir a esses encontros o mesmo significado que atribuímos. Reconhecer essa diferença exige uma honestidade emocional que nem sempre é confortável. É mais fácil permanecer interpretando sinais do que formular uma pergunta cuja resposta talvez nos obrigue a abandonar uma esperança antiga. Mas talvez a verdade, mesmo quando dolorosa, ofereça uma liberdade que a ambiguidade prolongada não consegue proporcionar.
Erich Fromm, em A arte de amar, propõe compreender o amor como uma capacidade que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Essa perspectiva nos convida a distinguir a intensidade da paixão da construção de um vínculo amoroso. A atração pode surgir rapidamente, a intimidade pode ser extraordinária e a sensação de afinidade pode parecer única. Entretanto, uma relação duradoura exige também disponibilidade, reciprocidade, compromisso livremente assumido e capacidade de reconhecer a pessoa real para além da imagem que construímos dela. Amar alguém não significa apenas desejar sua presença, mas também compreender quem essa pessoa é, aquilo que deseja e os limites que estabelece. Podemos admirar profundamente alguém que não deseja o mesmo tipo de relação que procuramos. Nessa circunstância, insistir em transformar o outro na pessoa que gostaríamos que fosse pode representar uma dificuldade de aceitar sua alteridade. O amor não deveria exigir que alguém renunciasse à própria liberdade para corresponder às nossas expectativas, assim como não deveria exigir que abandonássemos indefinidamente nossas necessidades afetivas para preservar uma possibilidade incerta. Talvez a maturidade amorosa comece quando conseguimos reconhecer simultaneamente duas verdades: aquilo que sentimos merece respeito, mas aquilo que o outro deseja também precisa ser levado a sério.
Existe, entretanto, uma diferença entre aceitar a realidade e esconder nossos sentimentos por medo de conhecê-la. Muitas vezes, depois de uma experiência dolorosa, começamos a representar uma indiferença que não sentimos. Evitamos demonstrar interesse, respondemos com frieza e imaginamos que, dessa maneira, estaremos protegidos contra uma nova decepção. Em determinadas circunstâncias, o afastamento é realmente necessário para preservar nossa saúde emocional. Mas também podemos transformar a autoproteção em uma forma de comunicação indireta, esperando que o outro descubra sentimentos que não estamos dispostos a expressar. Carl Rogers, em suas reflexões sobre a autenticidade e a congruência, oferece uma contribuição importante para compreender o valor de estabelecer relações nas quais nossas atitudes não estejam permanentemente separadas de nossa experiência interior. Ser verdadeiro não significa declarar amor sem considerar o contexto, insistir depois de uma recusa ou expor-se repetidamente a situações que nos machucam. Significa reconhecer o que sentimos e, quando houver condições adequadas, expressá-lo com clareza, sem jogos destinados a provocar determinadas reações. Podemos dizer que gostamos de alguém, perguntar o que essa pessoa deseja e escutar sua resposta. Depois, precisamos considerar não apenas as palavras, mas a continuidade das atitudes. A honestidade não garante a reciprocidade, mas pode impedir que passemos anos tentando interpretar aquilo que uma conversa franca talvez pudesse esclarecer.
No fundo, talvez uma das maiores demonstrações de amor-próprio seja compreender que não precisamos negar a beleza de uma experiência para reconhecer seus limites. Podemos guardar com ternura alguém que nos proporcionou momentos extraordinários e, ainda assim, aceitar que essa pessoa talvez não esteja disponível para construir a relação que desejamos. Não precisamos transformar o outro em vilão para conseguir seguir adiante, nem desvalorizar aquilo que vivemos para justificar nossa despedida. Algumas histórias são importantes justamente porque revelam nossa capacidade de sentir, de desejar, de entregar-nos e de descobrir dimensões desconhecidas de nós mesmos. Mas a vida não pode permanecer indefinidamente suspensa à espera de que uma possibilidade se transforme em realidade. Há outros encontros, outras formas de intimidade e outras experiências que merecem nossa disponibilidade emocional. Isso não significa que precisemos esquecer alguém para continuar vivendo, mas que podemos aprender a recordar sem permanecer aprisionados à expectativa. Talvez amar com maturidade seja reconhecer que a pessoa que despertou em nós um sentimento extraordinário não é necessariamente a única com quem poderíamos construir uma vida feliz. Porque há uma diferença profunda entre encontrar alguém que nos faz sentir intensamente vivos e encontrar alguém que também deseja permanecer conosco para compartilhar a vida. E talvez uma das formas mais bonitas de amadurecer seja aprender a valorizar a primeira experiência sem renunciar à possibilidade da segunda.
Referências
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
BOWLBY, John. Apego e perda: apego. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.