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Para abandonar o sedentarismo

Não acontece necessariamente de maneira repentina. Primeiro, deixamos de caminhar porque estamos cansados; depois, adiamos os exercícios porque temos muitas responsabilidades; em seguida, descobrimos que os dias passaram a ser organizados quase inteiramente entre cadeiras, camas, automóveis e telas. O movimento, que durante a infância parecia uma expressão espontânea da existência, transforma-se em uma atividade que precisamos planejar, justificar e, algumas vezes, enfrentar com considerável esforço. Há algo de profundamente humano nessa contradição: desejamos viver muitos anos, conhecer lugares, realizar projetos, amar pessoas e experimentar o mundo, mas podemos passar grande parte de nossos dias afastados das possibilidades de movimento que o próprio corpo nos oferece. Entretanto, reconhecer o sedentarismo não precisa transformar-se em mais uma oportunidade de condenação pessoal. Podemos olhar para nossa história com compreensão e perceber que a inatividade frequentemente se desenvolve em meio ao cansaço, às exigências profissionais, às dificuldades emocionais e às condições concretas da vida cotidiana. Talvez o primeiro passo para uma existência mais ativa não seja sentir vergonha daquilo que deixamos de fazer, mas compreender que ainda podemos construir uma relação diferente com o corpo que nos acompanha desde o nascimento.

A filosofia de Maurice Merleau-Ponty oferece uma perspectiva particularmente bonita para essa reflexão. Em Fenomenologia da percepção, o filósofo francês questiona a ideia de que o corpo seja apenas um objeto que possuímos, separado da consciência que pensa e interpreta o mundo. Nossa experiência é corporal desde sua origem: percebemos, sentimos, alcançamos, caminhamos e nos relacionamos com a realidade por meio de uma existência encarnada. Não somos simplesmente uma mente transportada por um organismo; nossa maneira de habitar o mundo depende profundamente da corporeidade. Quando começamos a caminhar, por exemplo, não estamos apenas movimentando músculos ou gastando energia. Estamos reencontrando uma forma de presença. Percebemos a temperatura do ar, a irregularidade do chão, a mudança da luz, o ritmo da respiração e a paisagem que se transforma diante dos olhos. O corpo deixa de aparecer exclusivamente como algo que precisa ser corrigido, emagrecido ou aperfeiçoado e volta a ser reconhecido como uma dimensão essencial de nossa experiência. Talvez abandonar o sedentarismo seja também recuperar essa intimidade com o mundo, permitindo que a vida deixe de acontecer apenas diante de nós e volte a acontecer através de nós.

A ciência contemporânea oferece razões importantes para cultivar essa transformação. A Organização Mundial da Saúde reconhece a atividade física regular como um fator relevante para a prevenção de doenças cardiovasculares, diabetes tipo 2 e outras condições crônicas, além de seus benefícios para a saúde mental, o sono e a capacidade funcional. Para adultos, recomenda-se, como referência geral, acumular entre 150 e 300 minutos semanais de atividade aeróbica moderada, ou uma quantidade equivalente de atividade vigorosa, além de exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana. Essas recomendações, entretanto, não devem ser interpretadas como uma exigência que precisa ser cumprida integralmente desde o primeiro dia. Para quem permanece inativo há muito tempo, começar com poucos minutos de caminhada, levantar-se regularmente, realizar movimentos leves ou incorporar pequenas atividades à rotina já representa uma mudança significativa. A progressão deve respeitar as condições de saúde, as limitações individuais e a capacidade de recuperação. Existe uma diferença importante entre compreender o exercício como uma obrigação destinada a produzir resultados rápidos e reconhecê-lo como uma prática de cuidado que pode acompanhar toda a existência. O corpo não precisa ser submetido a uma transformação violenta para começar a receber os benefícios do movimento.

Do ponto de vista psicológico, talvez uma das maiores dificuldades esteja justamente em transformar o desejo de mudar em uma prática cotidiana. Podemos compreender intelectualmente a importância dos exercícios físicos, conhecer seus benefícios e imaginar a pessoa ativa que gostaríamos de nos tornar, mas continuar encontrando dificuldades para iniciar. Isso acontece porque o comportamento humano não depende exclusivamente de conhecimento ou motivação. Albert Bandura, em sua teoria da autoeficácia, demonstrou a importância da confiança na própria capacidade de realizar determinadas ações. Essa confiança pode ser fortalecida por experiências concretas de realização, especialmente quando estabelecemos objetivos possíveis e reconhecemos os pequenos progressos. Wendy Wood, ao estudar os hábitos, também destaca a relevância da repetição e dos contextos relativamente estáveis na construção de comportamentos duradouros. Talvez seja mais sustentável começar com uma caminhada breve depois do café da manhã do que estabelecer imediatamente uma rotina tão exigente que se torne impossível mantê-la. A regularidade nasce, muitas vezes, de decisões modestas que repetimos até que deixem de exigir uma negociação interminável conosco. Não precisamos esperar que a disposição apareça espontaneamente todos os dias; podemos organizar as circunstâncias para tornar o movimento mais acessível. E, quando não conseguirmos cumprir o planejado, podemos simplesmente retomar no dia seguinte, sem transformar uma interrupção em fracasso.

Há também uma dimensão afetiva e existencial na decisão de tornar-se mais ativo. Muitas vezes, pensamos no exercício físico apenas como um instrumento para modificar a aparência, controlar o peso ou alcançar determinado padrão corporal. Embora mudanças na composição corporal possam integrar objetivos legítimos, reduzir o movimento a essa finalidade empobrece profundamente seu significado. Podemos caminhar porque desejamos envelhecer com maior autonomia, fortalecer os músculos para continuar realizando atividades cotidianas, preservar a capacidade de conhecer novos lugares e manter uma relação mais confiante com nosso corpo. Podemos nos exercitar porque desejamos viver muitos anos com condições de continuar lendo, escrevendo, trabalhando, cuidando das pessoas que amamos e experimentando aquilo que ainda não conhecemos. A longevidade, nesse sentido, não representa apenas a soma de anos acrescentados à existência, mas o desejo de preservar possibilidades de participação na vida. É importante reconhecer que a atividade física não oferece garantias absolutas de saúde, nem impede todas as doenças ou limitações do envelhecimento. Ainda assim, constitui uma das práticas que podem contribuir para a manutenção da capacidade funcional e da qualidade de vida. Talvez o movimento adquira um significado mais profundo quando deixa de ser uma tentativa de conquistar um corpo ideal e passa a expressar o desejo de cuidar do corpo real, com sua história, suas necessidades e suas possibilidades.

No fundo, abandonar o sedentarismo pode ser compreendido como uma forma de reconciliação consigo mesmo. Não precisamos começar essa transformação movidos pela insatisfação com nossa aparência, pela comparação com outras pessoas ou pela culpa diante dos anos em que permanecemos inativos. Podemos começar por uma razão mais delicada: porque desejamos viver bem dentro do corpo que temos. Podemos aprender a apreciar uma caminhada tranquila, o fortalecimento gradual dos músculos, a satisfação de perceber que determinada atividade se tornou menos cansativa e a alegria discreta de descobrir novas capacidades. Haverá dias de entusiasmo e dias de resistência, períodos de maior disposição e momentos em que precisaremos reduzir o ritmo. Nada disso invalida o caminho. A construção de uma vida ativa não exige perfeição, mas uma relação suficientemente paciente com o tempo. Talvez, daqui a muitos anos, possamos olhar para trás e reconhecer que uma transformação importante começou em um dia aparentemente comum, quando decidimos levantar, calçar os sapatos e oferecer ao próprio corpo alguns minutos de movimento. Não porque desejávamos nos tornar outra pessoa, mas porque compreendemos que ainda havia muita vida esperando para ser experimentada. E talvez a beleza de sair do sedentarismo esteja justamente nisso: descobrir que movimentar o corpo também é uma maneira de dizer à existência que desejamos continuar participando dela, com presença, autonomia, curiosidade e amor pela vida que ainda temos pela frente.

Referências bibliográficas:

BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.
BRASIL. Ministério da Saúde. Guia de atividade física para a população brasileira. Brasília: Ministério da Saúde, 2021.
MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Genebra: World Health Organization, 2020.
WOOD, Wendy; RÜNGER, Dennis. >Psychology of habit. Annual Review of Psychology, v. 67, p. 289–314, 2016.

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