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Por que a fome aumenta antes da menstruação?

Há mulheres que percebem, alguns dias antes da menstruação, uma mudança quase imperceptível no modo como sentem fome. De repente, a refeição parece não saciar tanto. Surge vontade de comer entre os horários habituais ou um desejo particularmente intenso por chocolate, doces, pão ou outros alimentos mais palatáveis. E, muitas vezes, vem junto a sensação de que alguma coisa está errada: por que estou com tanta fome justamente agora? A resposta pode estar, em parte, no próprio ciclo menstrual.

Depois da ovulação começa a fase lútea, período que antecede a menstruação. Nessa fase, os níveis de progesterona se elevam e, posteriormente, progesterona e estrogênio diminuem. Essas oscilações hormonais participam de diversos processos do organismo, inclusive daqueles envolvidos na regulação do apetite e da saciedade. A literatura científica sugere que, para muitas mulheres, a ingestão energética tende a ser um pouco maior nessa fase do ciclo. Uma revisão sistemática e meta-análise recente encontrou, em média, um aumento de aproximadamente 168 kcal por dia na fase lútea, embora os autores ressaltem a grande variabilidade entre as mulheres e as diferenças metodológicas entre os estudos (TUCKER et al., 2025).

Não significa que todas as mulheres precisem comer mais antes da menstruação, nem que os hormônios determinem nosso comportamento alimentar. O organismo humano é mais complexo do que isso. Mas significa que aquela fome que aparece todos os meses pode ter uma dimensão fisiológica real e não deveria ser automaticamente interpretada como falta de disciplina. Também pode mudar aquilo que desejamos comer. Pesquisas apontam para uma maior ocorrência de desejos por alimentos doces e altamente palatáveis no período pré-menstrual. Chocolate, sobremesas e alimentos ricos em carboidratos e gordura podem se tornar especialmente atraentes. Nesse caso, não estamos falando apenas de fome, mas também dos sistemas cerebrais relacionados à recompensa, ao prazer e ao humor, que interagem com as alterações hormonais do ciclo.

É por isso que talvez seja mais útil observar o próprio corpo do que simplesmente tentar controlá-lo. Se todos os meses a fome aumenta alguns dias antes da menstruação, vale perceber quando isso acontece, como estão o sono e o humor e se as refeições daquele período estão oferecendo proteína, fibras e volume suficientes para produzir saciedade.

Para quem busca emagrecer, essa observação pode ser particularmente importante. A resposta à fome não precisa ser uma restrição ainda maior. Uma alimentação composta por leguminosas, verduras, legumes, frutas, cereais integrais e boas fontes de proteína pode ajudar a atravessar essa fase com maior saciedade. E, se houver vontade de comer um alimento específico, reconhecer o desejo sem transformá-lo em culpa também pode ser mais saudável do que entrar em um ciclo de proibição, ansiedade e compensação.

Conhecer o ciclo menstrual é, nesse sentido, uma forma de conhecer o próprio corpo. A fome não é exatamente igual todos os dias, assim como nossa energia, nosso humor e nossa disposição também não são. Existem ritmos biológicos que participam da experiência de ser mulher e que merecem ser compreendidos, e não tratados como falhas de caráter. Talvez a pergunta mais interessante, diante daquela fome que aparece antes da menstruação, não seja “por que não consigo me controlar?”, mas “o que está acontecendo com o meu corpo neste momento?” Escutar essa diferença pode ser o primeiro passo para construir uma relação mais consciente — e menos punitiva — com a alimentação.

Referências bibliográficas:

DYE, L.; BLUNDELL, J. E. Menstrual cycle and appetite control: implications for weight regulation. Human Reproduction, v. 12, n. 6, p. 1142-1151, 1997.

SOUZA, L. B. de et al. Do food intake and food cravings change during the menstrual cycle of young women? Revista Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia, v. 40, n. 11, p. 686-692, 2018.

TUCKER, J. A. L. et al. The effect of the menstrual cycle on energy intake: a systematic review and meta-analysis. Nutrition Reviews, v. 83, n. 3, p. e866-e876, 2025.

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