A filosofia ocidental costuma ser situada na Grécia antiga, sobretudo entre os séculos VII e VI a.C., mas sua origem não pode ser entendida simplesmente como o momento em que alguém, de maneira repentina, “inventou” o pensamento racional. O nascimento da filosofia foi um processo histórico e cultural complexo, no qual diferentes formas de explicar o mundo — religiosas, míticas, políticas, poéticas e racionais — coexistiram, dialogaram e, em alguns momentos, entraram em conflito. A tradição filosófica posterior chamou esse processo de passagem do mythos ao logos, mas essa expressão precisa ser utilizada com cuidado: os primeiros filósofos gregos não abandonaram de uma hora para outra os mitos nem viveram em um mundo completamente separado da religião.
Antes da filosofia, os gregos já possuíam formas sofisticadas de compreender a existência. Os poemas de Homero e Hesíodo, por exemplo, apresentavam narrativas sobre a origem dos deuses, dos seres humanos e da ordem do mundo. Na Teogonia, Hesíodo procura narrar a genealogia dos deuses e, ao fazê-lo, oferece também uma espécie de narrativa sobre a constituição do cosmos. O mundo não era percebido como algo sem ordem: havia forças, relações e princípios que procuravam explicar por que as coisas eram como eram. O que começará a mudar com os chamados filósofos pré-socráticos será sobretudo a maneira de formular determinadas perguntas e de buscar suas respostas.
A filosofia surge, portanto, dentro de uma sociedade que já possuía conhecimentos religiosos, técnicos, matemáticos e políticos. A Grécia dos séculos VII e VI a.C. estava passando por importantes transformações. O crescimento das cidades-Estado, o comércio marítimo, a colonização de diferentes regiões do Mediterrâneo, o contato com povos como egípcios e babilônios e as transformações políticas das póleis ampliaram o horizonte intelectual dos gregos. A experiência de entrar em contato com diferentes costumes, leis, crenças e formas de organização social também poderia provocar uma pergunta fundamental: se os povos vivem de maneiras tão diferentes, o que existe de necessário e universal por trás dessa diversidade?
É nesse ambiente que aparece uma nova atitude diante da realidade. Em vez de perguntar apenas qual deus ou qual força divina produziu determinado acontecimento, alguns pensadores começaram a procurar aquilo que poderia explicar a natureza a partir da própria natureza. Surge então a investigação sobre a physis, palavra grega geralmente traduzida como “natureza”, mas que possui um significado mais amplo: refere-se ao processo de surgimento, crescimento e constituição das coisas. O filósofo passa a perguntar de que as coisas são feitas, como surgem, como se transformam e se existe algum princípio fundamental que permaneça por trás das mudanças.
É nesse contexto que encontramos Tales de Mileto, tradicionalmente considerado o primeiro filósofo da tradição ocidental. Tales viveu provavelmente no século VI a.C., em Mileto, cidade da Jônia, na Ásia Menor. A tradição atribui a ele a afirmação de que a água seria o princípio fundamental de todas as coisas. Independentemente de aceitarmos literalmente essa tese, sua importância histórica está na tentativa de encontrar um princípio (arché) capaz de explicar a multiplicidade do mundo sem recorrer exclusivamente às genealogias divinas. O interesse passa a estar na estrutura da realidade e na possibilidade de compreendê-la racionalmente.
Depois de Tales, Anaximandro propôs que o princípio de todas as coisas não poderia ser simplesmente um elemento determinado, como a água. Ele chamou esse princípio de ápeiron, aquilo que é ilimitado ou indeterminado. Anaxímenes, por sua vez, identificou o princípio com o ar. Essas teorias podem parecer, hoje, especulações muito distantes da ciência moderna, mas representam uma mudança decisiva: a natureza passa a ser tratada como algo que pode ser investigado e discutido por meio de argumentos.
É importante perceber que a filosofia não nasceu como uma ciência pronta. Os primeiros filósofos não possuíam os instrumentos experimentais e os métodos científicos contemporâneos. O que aparece é uma nova forma de interrogação. O mundo deixa de ser apenas aquilo que se conta em uma narrativa tradicional e passa também a ser aquilo sobre o qual se pode argumentar. A pergunta filosófica não é simplesmente “qual é a história que explica isso?”, mas “por que isso é assim?” e “que razões podemos apresentar para sustentar essa explicação?”.
Outro elemento fundamental foi o desenvolvimento da vida política das cidades gregas. A pólis criou um espaço no qual a palavra pública, o debate e a argumentação adquiriram importância crescente. Como observa Jean-Pierre Vernant, a constituição da cidade grega esteve relacionada a uma transformação das formas de pensamento: a ordem do mundo e a ordem da cidade passaram progressivamente a ser objetos de discussão pública e racional (VERNANT, 2002). A experiência política, portanto, não explica sozinha o nascimento da filosofia, mas contribuiu para formar um ambiente no qual argumentar, convencer e justificar posições se tornaram práticas socialmente relevantes.
A palavra também ganhou um novo estatuto. O logos, que pode significar palavra, discurso, razão ou argumento, passou a ocupar um lugar central. Isso não significa que o mythos simplesmente desapareceu. Na realidade, os primeiros filósofos continuaram utilizando imagens, metáforas e formas poéticas. Heráclito escreveu de maneira aforística e enigmática; Parmênides apresentou sua filosofia em forma de poema. A novidade está menos na eliminação do mito do que na exigência crescente de que uma afirmação sobre a realidade pudesse ser examinada, confrontada e defendida por meio de razões.
Com Pitágoras e os pitagóricos, por exemplo, os números e as relações matemáticas passaram a desempenhar um papel fundamental na compreensão do cosmos. Heráclito refletiu sobre a mudança, o conflito e a unidade dos contrários. Parmênides colocou em questão a própria possibilidade de pensar o devir e sustentou que aquilo que verdadeiramente é não pode simplesmente deixar de ser. Demócrito e Leucipo formularam uma explicação segundo a qual a realidade seria constituída por átomos e vazio. A diversidade dessas respostas revela algo essencial: filosofar significava entrar em um espaço de investigação no qual diferentes explicações podiam ser propostas e criticadas.
Por isso, talvez seja mais adequado falar não de uma única “origem da filosofia”, mas de um processo de formação de uma determinada atitude intelectual. Essa atitude envolve o espanto diante do mundo, a disposição para questionar aquilo que parece evidente, a procura por princípios explicativos e, sobretudo, a disposição para submeter as próprias ideias à argumentação. Séculos depois, Aristóteles associaria o nascimento da filosofia ao thaumázein, o espanto ou admiração diante da realidade. No início da Metafísica, ele afirma que os seres humanos começaram a filosofar por causa da admiração, inicialmente diante de dificuldades mais imediatas e posteriormente diante de questões cada vez mais abrangentes (ARISTÓTELES, Metafísica, I, 2, 982b).
Com Sócrates ocorre outra transformação importante. A investigação filosófica começa a se voltar de maneira mais explícita para questões humanas: o que é a justiça? O que é a coragem? O que significa viver bem? O que é o conhecimento? O que é uma vida boa? Embora Sócrates não tenha deixado escritos, os diálogos de Platão apresentam uma figura filosófica que transforma a própria conversa em método de investigação. Em vez de simplesmente transmitir respostas, Sócrates interroga seus interlocutores, mostra contradições e procura levá-los a perceber aquilo que ainda não sabem.
É justamente aí que a filosofia começa a adquirir uma dimensão que ultrapassa a explicação da natureza. Filosofar passa a significar também examinar a própria existência. A conhecida passagem da Apologia de Sócrates, em que Platão apresenta Sócrates afirmando que “uma vida sem exame não é digna de ser vivida”, expressa uma concepção da filosofia como prática de reflexão sobre si mesmo e sobre a vida coletiva (PLATÃO, Apologia de Sócrates, 38a). A filosofia deixa de ser apenas uma investigação sobre aquilo que existe e passa também a perguntar “como devemos viver”.
Assim, a origem da filosofia ocidental pode ser compreendida como a formação gradual de uma atitude crítica diante do mundo. Ela nasce em uma sociedade profundamente marcada pelo mito, pela religião e pela tradição, mas começa a desenvolver uma exigência nova: não basta receber uma explicação porque ela foi transmitida pelos antepassados; é preciso perguntar, argumentar, examinar e confrontar diferentes possibilidades. O filósofo não é necessariamente aquele que possui respostas definitivas, mas aquele que transforma aquilo que parecia evidente em problema.
Nesse sentido, a origem da filosofia continua sendo uma questão filosófica. Quando perguntamos por que os seres humanos começaram a filosofar, estamos perguntando também por que sentimos necessidade de compreender aquilo que existe, inclusive aquilo que somos. A filosofia nasce do encontro entre o espanto e a pergunta, mas também entre a dúvida e a necessidade de justificar nossas respostas. Talvez seja justamente essa sua característica mais duradoura: “filosofar é não aceitar o mundo como algo inteiramente pronto e evidente, mas interrogá-lo para compreender de que maneira ele se tornou aquilo que é — e de que maneira poderia ser diferente.”
Referências bibliográficas
ARISTÓTELES. Metafísica. Tradução de Giovanni Reale. São Paulo: Loyola, 2002.
HESÍODO. Teogonia: a origem dos deuses. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Iluminuras, 1995.
PLATÃO. Apologia de Sócrates. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2001.
VERNANT, Jean-Pierre. As origens do pensamento grego. 17. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à história da filosofia: dos pré-socráticos a Wittgenstein. 13. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.
REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da filosofia: filosofia pagã antiga. São Paulo: Paulus, 2003.
BORNHEIM, Gerd A. Os filósofos pré-socráticos. São Paulo: Cultrix, 1998.