amor - psicologia

O que fazemos quando discordamos

Todo relacionamento terá conflitos. Duas pessoas podem se amar profundamente e, ainda assim, desejar coisas diferentes, interpretar uma situação de maneiras distintas, possuir necessidades que nem sempre coincidem e carregar histórias pessoais que influenciam a maneira como cada uma reage diante da frustração. A ideia de que um relacionamento feliz seria aquele em que os conflitos desaparecem talvez seja uma das mais persistentes ilusões amorosas. A questão não é nunca discordar, mas descobrir o que fazemos quando a discordância aparece. Porque o conflito, por si só, não determina a qualidade de uma relação. O que revela muito mais sobre ela é a maneira como duas pessoas lidam com aquilo que não conseguem pensar, sentir ou desejar da mesma forma. Uma diferença pode abrir espaço para o conhecimento do outro ou transformar-se rapidamente em uma disputa na qual já não importa compreender, mas vencer.

Quando a discordância é vivida como ameaça, qualquer diferença pode adquirir proporções maiores do que realmente possui. Uma opinião diferente parece rejeição; uma necessidade que não coincide com a nossa parece falta de amor; um limite pode ser interpretado como afastamento. Aos poucos, a conversa deixa de ser uma tentativa de compreender duas experiências diferentes e passa a funcionar como uma espécie de tribunal, no qual cada pessoa procura provar que está certa e que o outro está errado. Nesse cenário, não se discute apenas aquilo que aconteceu, mas também tudo aquilo que a situação parece representar: “você nunca me entende”, “você sempre faz isso”, “você não se importa comigo”. O presente é então invadido por antigas mágoas, e um problema específico transforma-se em julgamento sobre toda a pessoa. John Gottman, em seus estudos sobre relacionamentos conjugais, identificou padrões de interação associados à deterioração da relação, entre eles a crítica generalizada, o desprezo, a postura defensiva e o afastamento emocional (GOTTMAN; SILVER, 1999). O problema, portanto, não está simplesmente em haver conflito, mas em transformar o conflito em um modo habitual de ferir o outro.

Há, porém, uma diferença importante entre conflito e destruição. Discordar pode ser uma forma de revelar aquilo que ainda não conhecíamos sobre a pessoa com quem convivemos. Quando alguém diz “eu penso diferente”, está apresentando uma parte de si que talvez não estivesse visível antes. Quando conseguimos escutar sem imediatamente preparar uma defesa, a diferença deixa de ser apenas um obstáculo e passa a ser uma oportunidade de ampliar o nosso próprio conhecimento sobre aquele que amamos. Isso não significa que precisemos concordar no final. Algumas diferenças permanecerão diferenças. Duas pessoas podem compreender profundamente uma posição e continuar discordando dela. A intimidade não exige uniformidade; exige a possibilidade de permanecer em relação diante daquilo que não pode ser completamente resolvido. É nesse sentido que a capacidade de diálogo se torna tão importante: conversar não é apenas procurar uma solução, mas permitir que duas experiências subjetivas possam existir simultaneamente sem que uma precise destruir a outra.

A psicóloga Sue Johnson, a partir da teoria do apego e de sua abordagem dos relacionamentos amorosos, chama atenção para o fato de que muitos conflitos aparentemente relacionados a questões práticas escondem perguntas emocionais mais profundas: “Você está comigo?”, “Posso contar com você?”, “Eu importo para você?” (JOHNSON, 2008). Uma discussão sobre dinheiro, tarefas domésticas, tempo ou decisões familiares pode, portanto, carregar uma pergunta muito mais íntima sobre segurança e pertencimento. Quando conseguimos perceber essa dimensão, o conflito pode mudar de natureza. Em vez de responder apenas à acusação que ouvimos, podemos tentar compreender a necessidade que existe por trás dela. Isso não significa aceitar qualquer comportamento agressivo nem atribuir uma intenção benevolente a toda atitude. Significa procurar, quando há condições para isso, aquilo que a pessoa está tentando comunicar por meio de uma fala que talvez tenha chegado até nós de maneira imperfeita.

Talvez por isso uma das formas mais maduras de amar seja aprender a não transformar toda discordância em uma ameaça à própria relação. Duas pessoas que se amam não precisam sair de cada conversa pensando exatamente a mesma coisa. Precisam poder sair dela ainda reconhecendo a humanidade uma da outra. Às vezes, isso significa pedir desculpas; outras vezes, reconhecer que exageramos; em algumas situações, simplesmente admitir que não sabemos como resolver determinado problema naquele momento. Há conflitos que precisam de tempo, outros exigem negociação e alguns revelam incompatibilidades que não podem ser ignoradas. O diálogo não garante que toda relação sobreviverá às diferenças, mas pode tornar mais clara a natureza dessas diferenças e impedir que a tentativa de resolvê-las produza danos ainda maiores. Marshall Rosenberg, ao desenvolver a Comunicação Não Violenta, enfatizou a importância de distinguir observações, sentimentos, necessidades e pedidos, reduzindo julgamentos e acusações que frequentemente dificultam a compreensão mútua (ROSENBERG, 2003). A proposta não é eliminar o conflito, mas criar condições para que ele não precise se transformar em violência verbal ou emocional.

No fundo, talvez uma relação seja conhecida menos pelos momentos em que tudo está de acordo do que pela maneira como atravessa aquilo que não está. É relativamente fácil amar quando o outro confirma nossas expectativas; mais difícil é continuar reconhecendo sua dignidade quando estamos frustrados, irritados ou feridos. O verdadeiro desafio talvez não seja aprender a nunca discordar, mas aprender a discordar sem transformar o outro em inimigo. Porque uma diferença pode ser uma parede ou uma janela: pode nos separar definitivamente ou permitir que enxerguemos uma paisagem que não conhecíamos. Quando duas pessoas conseguem transformar o conflito em curiosidade, escuta e negociação, a discordância deixa de ser apenas uma ameaça e pode tornar-se uma forma inesperada de intimidade. Não porque todo conflito seja bom, nem porque toda diferença possa ser conciliada, mas porque, às vezes, compreender alguém começa justamente no momento em que descobrimos que ele não pensa como nós. E talvez amar seja também isso: aprender, pouco a pouco, a construir uma ponte exatamente no lugar em que duas pessoas descobrem que estão em margens diferentes.

Referências

GOTTMAN, John; SILVER, Nan. The Seven Principles for Making Marriage Work. New York: Crown Publishers, 1999.
JOHNSON, Sue. Hold Me Tight: Seven Conversations for a Lifetime of Love. New York: Little, Brown and Company, 2008.
ROSENBERG, Marshall B. Comunicação não-violenta: técnicas para aprimorar relacionamentos pessoais e profissionais. São Paulo: Ágora, 2006 [2003].

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