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Alguns amores pertencem à nossa história

Alguns amores terminam não porque foram falsos, mas porque as pessoas que os viveram já não são exatamente as mesmas que um dia se encontraram. Existe uma tendência a olhar para o fim de uma relação como uma espécie de julgamento retroativo: se acabou, talvez nunca tenha sido amor; se alguém foi embora, talvez tudo o que aconteceu antes tenha sido uma mentira. Mas a duração de um vínculo não é uma medida confiável de sua verdade. Uma relação pode ter sido profundamente significativa e, ainda assim, chegar a um momento em que continuar juntos deixa de fazer sentido. Nós mudamos enquanto vivemos. Mudam nossas necessidades, nossos valores, nossos projetos, nossa maneira de compreender a nós mesmos e aquilo que esperamos da vida. Às vezes, duas pessoas que caminharam durante anos percebem que continuam se estimando, mas já não conseguem imaginar o mesmo futuro. Isso não precisa transformar o passado em fraude. O que foi verdadeiro em determinado momento pode deixar de ser possível em outro.

Talvez uma das dificuldades do amor esteja justamente em aceitarmos que nenhuma relação existe fora do tempo. Quando nos apaixonamos, existe quase sempre a tentação de imaginar que aquilo que sentimos agora permanecerá intacto, como se a intensidade do presente pudesse garantir o futuro. Mas o tempo não preserva as pessoas; ele as transforma. O que desejávamos aos vinte anos pode não ser aquilo que desejamos aos quarenta. A maneira como imaginávamos família, trabalho, liberdade, intimidade ou realização pessoal pode adquirir novos significados depois de determinadas experiências. Mesmo dentro de uma relação, cada pessoa continua vivendo uma história própria, atravessando acontecimentos que a modificam por dentro. O amor pode acompanhar essas transformações, mas não pode controlá-las. Zygmunt Bauman, ao refletir sobre a fragilidade dos vínculos contemporâneos, chama atenção para a tensão entre o desejo de segurança afetiva e a natureza mutável das relações humanas (BAUMAN, 2004). Embora sua análise se concentre particularmente nas formas contemporâneas de vínculo, há uma questão mais ampla que permanece: desejar permanência não significa possuir garantias contra a mudança.

Isso não significa que todo término seja inevitável ou que as relações devam ser abandonadas diante de qualquer dificuldade. Pessoas também podem escolher mudar juntas. Podem reconstruir acordos, atravessar crises, descobrir novas formas de intimidade e continuar se reconhecendo mesmo depois de profundas transformações. O amor não é necessariamente uma coisa que permanece idêntica; pode ser justamente aquilo que encontra novas formas para continuar existindo. Mas há momentos em que as transformações seguem direções incompatíveis. Uma pessoa deseja uma vida que a outra já não deseja. Uma passa a precisar de algo que a outra não pode ou não quer oferecer. Projetos que antes pareciam compartilhados tornam-se divergentes. Permanecer, então, pode exigir de uma ou de ambas uma renúncia tão profunda de si mesmas que o relacionamento deixa de ser espaço de encontro e passa a ser espaço de impedimento. Reconhecer isso não significa declarar que alguém falhou. Às vezes, significa apenas reconhecer que duas trajetórias que durante algum tempo puderam caminhar juntas chegaram a uma bifurcação.

Há também uma espécie de luto particular quando compreendemos que alguém continuará pertencendo à nossa história, mas não ao nosso futuro. Não perdemos apenas a pessoa que esteve conosco; perdemos também uma versão de nós mesmos e uma série de possibilidades que existiam enquanto aquele relacionamento existia. Há viagens que não faremos, lugares que não conheceremos juntos, conversas que nunca teremos, aniversários que não celebraremos lado a lado. O fim de uma relação pode exigir que façamos luto não apenas pelo que aconteceu, mas também pelo futuro que imaginávamos. A psicóloga Pauline Boss, ao estudar aquilo que chamou de “perdas ambíguas”, mostrou como determinadas perdas são particularmente difíceis porque não produzem uma ausência simples e definitiva, mas deixam a pessoa diante de uma realidade emocional complexa, na qual algo permanece e, ao mesmo tempo, já não pode existir como antes (BOSS, 1999). Um relacionamento terminado pode ter essa qualidade: a pessoa já não participa da nossa vida cotidiana, mas continua existindo em nossa memória, naquilo que aprendemos e até na pessoa que nos tornamos depois dela.

Talvez por isso seja tão importante não transformar todo fim em uma acusação contra o passado. Algumas relações terminam porque houve violência, desrespeito, abandono ou incompatibilidades profundas, e nesses casos não há necessidade de romantizar aquilo que fez mal. Mas existem também relações nas quais ninguém precisa ser transformado em vilão para que o fim seja compreendido. Duas pessoas podem ter se amado, cuidado uma da outra, construído lembranças importantes e, ainda assim, chegar a um ponto em que continuar juntos deixou de ser uma possibilidade saudável ou desejada. O fato de uma história ter terminado não apaga aquilo que ela ofereceu enquanto existiu. Erich Fromm compreendia o amor como uma experiência que envolve cuidado, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956); talvez possamos acrescentar que, em determinadas circunstâncias, respeitar alguém também significa reconhecer que uma relação chegou ao seu limite, em vez de exigir que ela continue apenas para preservar a imagem de um amor eterno.

Talvez amadurecer no amor seja aprender que nem tudo aquilo que termina precisa ser considerado um fracasso. Há encontros que duram uma vida inteira e há encontros que duram alguns anos, alguns meses ou apenas o tempo necessário para que duas pessoas transformem uma à outra de alguma maneira. Isso não significa que devamos aceitar relações passageiras como se a permanência não tivesse importância, mas compreender que a verdade de uma experiência não pode ser medida exclusivamente por sua duração. Algumas pessoas pertencem profundamente à nossa história sem pertencer ao nosso futuro. Elas participaram de uma parte da nossa formação, conheceram versões de nós que já não existem e deixaram marcas que permanecerão mesmo depois que seus caminhos se separarem dos nossos. Talvez amar também seja saber agradecer aquilo que foi vivido sem exigir que continue sendo vivido para sempre. Porque existem histórias cujo sentido não está em chegar até o fim da vida, mas em terem sido verdadeiras durante o tempo em que puderam existir. E talvez uma das formas mais delicadas de despedida seja conseguir olhar para aquilo que terminou e pensar, sem negar a dor: não foi eterno, mas foi real; não pertence mais ao meu futuro, mas pertence para sempre à minha história.

Referências bibliográficas

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BOSS, Pauline. Ambiguous Loss: Learning to Live with Unresolved Grief. Cambridge: Harvard University Press, 1999.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].

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