Desde muito cedo, aprendemos que existe uma idade em que somos considerados belos e outra em que começamos, supostamente, a perder essa condição. A cultura ocidental contemporânea apresenta a juventude não apenas como uma etapa da vida, mas como um ideal estético associado à vitalidade, ao desejo, à produtividade e até à felicidade. A pele sem rugas, os cabelos sem fios brancos, o corpo sem marcas do tempo e a aparência jovem são continuamente apresentados como atributos desejáveis, enquanto os sinais do envelhecimento são frequentemente tratados como problemas que precisam ser corrigidos, disfarçados ou retardados. Não se trata de negar que algumas pessoas simplesmente prefiram determinadas características estéticas ou que os cuidados com a aparência possam ser prazerosos. A questão é outra: o que acontece quando uma sociedade transforma a aparência jovem em uma espécie de requisito para que alguém continue sendo percebido como belo, desejável e socialmente valioso? Nesse momento, envelhecer deixa de ser apenas uma transformação inevitável do corpo e passa a carregar um significado moral que o corpo, por si só, não possui.
Simone de Beauvoir percebeu, em A velhice, que o envelhecimento não pode ser compreendido apenas como um processo biológico, porque a maneira como uma sociedade olha para as pessoas mais velhas participa profundamente da experiência de envelhecer (BEAUVOIR, 1970). O corpo muda, mas o significado atribuído a essas mudanças é construído socialmente. Uma ruga pode ser apenas uma alteração da pele; entretanto, quando uma cultura associa juventude à beleza e envelhecimento à perda, aquela mesma ruga passa a ser interpretada como sinal de fracasso, descuido ou diminuição do valor pessoal. O cabelo branco deixa de ser simplesmente uma característica corporal e pode tornar-se algo que precisa ser escondido. O corpo que envelhece passa a ser percebido como um corpo que precisa justificar sua permanência no espaço social. É nesse ponto que a questão estética se transforma em uma questão mais profunda: não estamos apenas perguntando se o corpo envelhecido é bonito, mas, silenciosamente, se uma pessoa continua merecendo ser vista, desejada, admirada e reconhecida quando já não corresponde ao modelo de juventude que aprendemos a considerar ideal.
Essa associação entre juventude e valor também possui uma dimensão de gênero particularmente importante. Naomi Wolf, em O mito da beleza, analisou como padrões estéticos podem funcionar como mecanismos de pressão social sobre as mulheres, estabelecendo exigências que se renovam continuamente e que dificilmente podem ser plenamente alcançadas (WOLF, 1991). O envelhecimento torna essa dinâmica especialmente evidente porque o corpo feminino é frequentemente submetido a uma contradição impossível: espera-se que a mulher envelheça naturalmente, mas também se espera que ela não pareça envelhecer. A indústria da beleza pode então transformar uma característica inevitável da existência em um problema individual a ser administrado por meio de produtos, procedimentos, dietas e intervenções cada vez mais sofisticadas. Não há nada necessariamente errado em escolher qualquer uma dessas práticas; o problema aparece quando a escolha deixa de ser verdadeiramente livre porque a alternativa parece ser a vergonha. Quando cuidar de si passa a significar lutar permanentemente contra a própria idade, o cuidado pode deixar de nascer do prazer e começar a nascer do medo.
Byung-Chul Han, ao refletir sobre a sociedade contemporânea, chama atenção para uma cultura marcada pela exigência de desempenho, otimização e exposição de si (HAN, 2015). Embora sua análise não se limite ao envelhecimento, ela ajuda a compreender por que até mesmo o corpo pode ser transformado em um projeto permanente de aperfeiçoamento. O corpo precisa parecer saudável, jovem, produtivo, desejável e controlado; qualquer sinal de deterioração parece indicar que alguma coisa saiu do lugar. O envelhecimento, entretanto, é justamente a experiência de descobrir que nem tudo pode ser otimizado. Há mudanças que não podem ser evitadas, ritmos que não podem ser acelerados ou interrompidos e marcas que não precisam ser consideradas defeitos. Talvez seja por isso que envelhecer possa representar também uma espécie de confronto com uma cultura que nos promete controle sobre aquilo que, em última instância, permanece fora do nosso controle. O problema não está em desejar saúde, vitalidade ou bem-estar ao longo da vida, mas em transformar a juventude em condição permanente para que o corpo seja considerado digno de admiração.
Separar beleza de juventude não significa negar a beleza da juventude. A juventude possui sua própria estética, assim como diferentes fases da vida podem possuir diferentes formas de beleza. O que precisamos questionar é a ideia de que uma dessas formas deve funcionar como medida universal das demais. Um rosto jovem não é o padrão pelo qual todos os outros rostos deveriam ser julgados. Uma pele sem marcas não é necessariamente mais digna de admiração do que uma pele que revela décadas de vida. Existem expressões que só aparecem com o tempo, gestos que se transformam, maneiras de olhar que carregam experiências impossíveis de adquirir antecipadamente. Isso não significa romantizar o envelhecimento nem fingir que suas transformações são sempre fáceis. Envelhecer pode envolver perdas, limitações, doenças e mudanças difíceis. Mas reconhecer essas dificuldades não exige transformar o corpo envelhecido em um corpo fracassado. A velhice não precisa ser idealizada para ser respeitada, assim como a juventude não precisa ser desprezada para que possamos aprender a envelhecer.
Talvez uma sociedade mais madura seja aquela capaz de olhar para o tempo sem imediatamente desejar apagá-lo. Isso não significa abandonar os cuidados com o corpo, deixar de se arrumar ou renunciar ao desejo de sentir-se bonita. Significa apenas retirar desses gestos o peso de uma obrigação: a obrigação de parecer jovem para continuar tendo valor. Talvez possamos cuidar da pele sem declarar guerra às rugas, pintar os cabelos sem considerar o branco uma vergonha, escolher uma roupa porque gostamos dela e não porque precisamos parecer mais jovens, cuidar do corpo porque queremos viver bem nele e não porque acreditamos que precisamos esconder sua passagem pelo tempo. Afinal, a beleza não deveria terminar no momento em que a juventude termina. Há uma beleza própria naquilo que foi vivido, na expressão que ganhou profundidade, no corpo que atravessou anos e continua sendo casa, presença e possibilidade. Talvez envelhecer seja também aprender a olhar para si com menos crueldade e perceber que o tempo não está necessariamente retirando beleza de nós; ele está apenas mudando a forma como ela pode existir.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. A velhice. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990 [1970].
HAN, Byung-Chul. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
WOLF, Naomi. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992 [1991].