Não existe amor perfeito porque não existem pessoas perfeitas. Existe, antes, a possibilidade de um encontro entre duas pessoas que chegam uma à outra trazendo consigo tudo aquilo que viveram antes de se conhecer. Cada uma carrega uma infância, antigas alegrias, perdas, medos, desejos, relações anteriores, maneiras particulares de se proteger e de demonstrar afeto. Há marcas que o outro não produziu e que, ainda assim, entrarão inevitavelmente na relação. Por isso, talvez seja uma das maiores ilusões amorosas imaginar que encontraremos alguém completamente livre de contradições, pronto para corresponder exatamente às nossas necessidades. O outro chega com uma história que não podemos reescrever, assim como nós chegamos com um passado que não pode ser apagado. Amar alguém é, em alguma medida, encontrar essa pessoa no ponto exato em que duas histórias, até então independentes, decidem começar a compartilhar uma parte do caminho.
Talvez por isso o amor real seja muito diferente do amor imaginado. Na fantasia, duas pessoas se encontram e finalmente todas as peças parecem se encaixar: os desejos coincidem, as diferenças parecem pequenas, os conflitos podem ser resolvidos com facilidade e o futuro adquire uma espécie de nitidez que a vida nunca oferece. Na realidade, o encontro logo revela aquilo que a paixão inicialmente encobria. Descobrimos hábitos que não compreendemos, necessidades que não compartilhamos, sensibilidades diferentes, maneiras distintas de lidar com o sofrimento e expectativas que nunca havíamos colocado em palavras. O outro deixa de ser personagem e passa a ser pessoa. E é justamente nesse momento que o amor pode começar a adquirir uma forma mais profunda, porque amar uma imagem é relativamente fácil; difícil é continuar interessado quando a imagem se desfaz e aparece diante de nós alguém que possui limites, contradições e uma subjetividade que não podemos controlar.
Erich Fromm compreendia o amor maduro como uma atitude que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956). Essa ideia é importante porque desloca o amor do território exclusivo do sentimento para o território da construção. Amar não é apenas experimentar uma emoção intensa diante de alguém; é também aprender a conhecê-lo, reconhecer sua alteridade e cuidar daquilo que existe entre os dois. Isso não significa aceitar tudo nem transformar qualquer sofrimento em prova de amor. Uma relação também precisa de limites, respeito e liberdade, e há incompatibilidades que não podem ou não devem ser romantizadas. Mas reconhecer a imperfeição do outro é diferente de justificar aquilo que nos destrói. O amor possível não é aquele que tolera qualquer coisa em nome de permanecer junto; é aquele que consegue distinguir entre aquilo que precisa ser compreendido e aquilo que precisa ser transformado, negociado ou, em determinadas circunstâncias, deixado para trás.
Há também algo profundamente humano na impossibilidade de saber o que acontecerá depois. Quando duas pessoas começam uma relação, nenhuma delas possui garantias sobre o futuro. Não sabemos quais acontecimentos atravessaremos, quais mudanças nos transformarão, quais perdas nos aproximarão ou nos afastarão, nem se aquilo que hoje parece definitivo continuará sendo verdadeiro daqui a alguns anos. A filósofa Simone de Beauvoir, ao refletir sobre liberdade e existência, mostrou como a vida humana se realiza dentro de uma condição de abertura e incerteza: somos seres situados em circunstâncias que não escolhemos completamente, mas continuamos responsáveis pelas escolhas que fazemos dentro delas (BEAUVOIR, 1947). Talvez o amor também seja uma experiência dessa liberdade. Não podemos garantir que o outro permanecerá exatamente como é, nem que nós permaneceremos os mesmos. Podemos apenas escolher, no presente, como trataremos a pessoa que está diante de nós e que espécie de relação queremos construir enquanto nossas histórias continuam se transformando.
É justamente por isso que amar exige uma certa coragem diante da incerteza. Queremos garantias porque temos medo da perda, mas nenhuma promessa consegue eliminar completamente a possibilidade de perder alguém. Podemos construir confiança, estabelecer compromissos, cultivar intimidade e fazer planos, mas continuaremos vivendo em um mundo no qual as pessoas mudam e o futuro permanece desconhecido. O amor não elimina essa vulnerabilidade; talvez ele a torne mais consciente. Quando amamos, alguma coisa importante passa a depender também de alguém que não podemos controlar. E talvez seja essa a razão pela qual o amor verdadeiro não possa ser confundido com posse. Amar não é assegurar que o outro permanecerá conosco para sempre; é construir, enquanto caminhamos juntos, uma relação na qual ambos possam existir com liberdade, responsabilidade e cuidado. Como observa Zygmunt Bauman ao discutir os vínculos afetivos contemporâneos, relações humanas envolvem simultaneamente desejo de segurança e medo da vulnerabilidade (BAUMAN, 2004). Queremos a certeza de que seremos amados sem precisar enfrentar a possibilidade de sermos feridos. Mas talvez não exista intimidade sem algum grau de risco.
No fim, talvez amar seja menos encontrar alguém que corresponda àquilo que imaginamos e mais aprender a construir alguma coisa verdadeira com aquilo que a realidade nos oferece. Duas pessoas imperfeitas, duas histórias que não podem ser apagadas, dois conjuntos de experiências que às vezes se aproximam e às vezes entram em conflito, duas subjetividades que continuarão mudando enquanto tentam permanecer em relação. Não há garantia de permanência, assim como não há necessidade de perfeição para que exista beleza. O que pode existir é cuidado; pode existir escolha; pode existir respeito; pode existir a disposição de reparar quando ferimos, de conversar quando não compreendemos, de mudar quando percebemos que algo precisa ser diferente. Talvez seja isso que torna um amor verdadeiro: não a ausência de falhas, mas a capacidade de construir algo significativo apesar delas. Porque o amor não acontece fora da imperfeição humana. Ele acontece justamente dentro dela, nesse território incerto em que duas pessoas, sem saber exatamente onde a estrada termina, decidem caminhar juntas por algum trecho e fazer desse trecho algo que valha a pena viver.
Referências
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
BEAUVOIR, Simone de. Pyrrhus et Cinéas. Paris: Gallimard, 1944.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].