psicologia

Quem precisamos nos tornar para viver aquilo que desejamos

Passamos grande parte da vida perguntando o que queremos conquistar. Um trabalho melhor, uma relação amorosa mais saudável, um corpo mais forte, uma vida intelectual mais rica, estabilidade financeira, liberdade, reconhecimento, serenidade. Somos ensinados a transformar desejos em objetivos e objetivos em caminhos: estabelecer metas, organizar etapas, trabalhar, insistir. Há sabedoria nisso, porque quase nada importante acontece sem alguma forma de esforço. Mas talvez exista uma pergunta anterior, mais silenciosa e mais difícil: quem preciso me tornar para sustentar aquilo que desejo? Porque algumas conquistas não exigem apenas que façamos coisas diferentes; exigem que, lentamente, nos tornemos diferentes. Há sonhos que pedem não apenas movimento, mas transformação.

Queremos frequentemente os frutos de uma vida cujas raízes ainda não cultivamos. Desejamos escrever um livro, mas precisamos nos tornar alguém capaz de permanecer diante de uma página mesmo nos dias em que nenhuma inspiração chega. Desejamos relações profundas, mas talvez precisemos aprender a conversar quando seria mais fácil fugir, reconhecer nossos próprios erros, estabelecer limites e suportar que o outro seja diferente de nós. Desejamos saúde, mas isso pode exigir uma relação diferente com o prazer imediato, com o descanso, com a alimentação, com o movimento e com o próprio corpo. Desejamos liberdade financeira, mas talvez precisemos desenvolver paciência diante daquilo que poderíamos comprar agora e não comprar. O desejo costuma imaginar o momento da chegada; raramente imagina a pessoa que precisaremos ser para continuar vivendo depois que chegarmos.

É por isso que algumas conquistas desaparecem pouco depois de serem alcançadas. Não necessariamente porque nos faltou vontade, mas porque conseguimos modificar circunstâncias antes de modificar os modos de viver que as sustentavam. William James já percebia a importância dos hábitos na constituição da vida cotidiana: aquilo que repetimos reduz progressivamente a necessidade de decidir tudo novamente. Décadas depois, pesquisas sobre autorregulação mostrariam que comportamentos duradouros não dependem apenas de momentos extraordinários de força de vontade, mas também da maneira como organizamos hábitos, ambientes, expectativas e respostas às dificuldades. Existe algo profundamente libertador nessa compreensão. Não precisamos acordar heroicos todas as manhãs. Precisamos construir uma vida na qual aquilo que importa dependa cada vez menos de heroísmo e cada vez mais de estruturas que conseguimos repetir.

Mas tornar-se alguém diferente não significa declarar guerra contra quem somos agora. Talvez esse seja um dos equívocos mais dolorosos da cultura da transformação pessoal: imaginar que só podemos crescer se sentirmos desprezo pela versão atual de nós mesmos. Mudanças profundas raramente precisam nascer do ódio. Podemos reconhecer nossas contradições sem nos reduzir a elas, perceber nossos hábitos sem transformá-los em condenações morais e desejar outra vida sem considerar a vida presente um fracasso. Carl Rogers compreendia o desenvolvimento humano de maneira paradoxal: mudanças significativas tornam-se possíveis quando existe espaço para reconhecer a experiência presente com menos defesa e distorção. Transformar-se, nesse sentido, não é fabricar violentamente uma pessoa ideal, mas criar condições para que outras possibilidades de nós possam existir.

Também é preciso aceitar que a pessoa capaz de sustentar nossos sonhos não nasce em um único gesto de decisão. Ela é construída na repetição quase invisível dos dias. Forma-se quando fazemos alguma coisa mesmo sem entusiasmo, quando voltamos depois de falhar, quando recusamos uma escolha que nos afastaria do que consideramos importante, quando toleramos o desconforto de ainda não sermos quem gostaríamos de ser. Albert Bandura mostrou como a percepção de autoeficácia pode ser fortalecida pelas experiências de domínio: cada vez que enfrentamos uma dificuldade e conseguimos atravessá-la, acumulamos evidências de que somos capazes de agir. Talvez a confiança mais sólida não seja aquela que repetimos diante do espelho, mas aquela que construímos quando nossa própria história começa a testemunhar a nosso favor. Aos poucos, aquilo que exigia enorme esforço deixa de parecer completamente estranho. Um comportamento torna-se hábito; um hábito participa da formação de uma maneira de viver; e uma maneira de viver começa a transformar nossa relação conosco.

Talvez, então, algumas das perguntas mais importantes da vida não sejam “quando chegarei lá?” ou “quanto ainda falta?”, mas “o que este caminho está me ensinando a ser?”. Porque existe uma conquista que acontece antes de todas as outras: a lenta construção da pessoa capaz de habitá-las. Podemos perder dinheiro depois de conquistá-lo, abandonar projetos depois de iniciá-los, deixar relações se deteriorarem mesmo depois de encontrarmos alguém que amamos. Nenhuma chegada nos protege definitivamente de nós mesmos. Por isso, talvez o verdadeiro objetivo não seja apenas alcançar determinada vida, mas construir dentro de nós aquilo que permitirá sustentá-la. E existe algo profundamente bonito nessa ideia: enquanto caminhamos em direção ao que desejamos, o sonho não está apenas esperando por nós no futuro. Se estivermos atentos, ele já começou a acontecer na pessoa que, silenciosamente, estamos nos tornando.

Referências bibliográficas

BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.
JAMES, William. The principles of psychology. New York: Henry Holt and Company, 1890.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
WOOD, Wendy; RÜNGER, Dennis. Psychology of habit. Annual Review of Psychology, v. 67, p. 289–314, 2016.

Compartilhe: