Desejar alguém é reconhecer, ainda que silenciosamente, que existe uma distância que nenhum amor consegue abolir completamente. Podemos conhecer os gestos de uma pessoa, aprender seus silêncios, reconhecer a maneira como ela sorri quando está feliz e perceber quando alguma tristeza começa a se aproximar, mas haverá sempre uma região do outro que permanecerá inacessível. Não porque exista necessariamente um segredo, mas porque cada pessoa é, em alguma medida, um mundo que não pode ser inteiramente habitado por outra. Amamos alguém justamente quando percebemos que diante de nós existe uma consciência, uma história, uma liberdade e uma interioridade que não nos pertencem. O desejo talvez comece nesse reconhecimento: eu me aproximo de você porque você não é uma extensão de mim.
Existe uma tentação muito humana de transformar o amor em certeza. Queremos saber onde o outro está, o que pensa, o que sente, se ainda deseja, se continuará desejando amanhã. Queremos garantias contra a perda porque sabemos, mesmo quando fingimos não saber, que ninguém pode ser possuído definitivamente. Mas quanto mais tentamos transformar uma pessoa em território conhecido e seguro, mais corremos o risco de substituir o encontro pelo controle. O amor começa a pedir provas, explicações, disponibilidade permanente, transparência absoluta. E aquilo que deveria ser uma aproximação entre duas liberdades pode lentamente transformar-se em uma vigilância mútua. Possuir inteiramente o outro seria, paradoxalmente, deixar de encontrá-lo como outro.
Talvez o desejo precise justamente daquilo que o amor possessivo tenta eliminar: alguma distância. Não uma distância de abandono, indiferença ou frieza, mas o espaço necessário para que duas pessoas continuem sendo duas. O desejo se alimenta da percepção de que ainda há algo a descobrir, alguma coisa que não se entrega completamente, um pensamento que o outro ainda não disse, um caminho que ainda não percorremos juntos. Há uma diferença entre desejar aproximar-se e querer eliminar toda distância. A primeira possibilidade preserva o mistério; a segunda tenta destruí-lo. Quando tudo precisa ser conhecido, explicado e antecipado, o outro deixa de aparecer como presença viva e começa a ser tratado como objeto de conhecimento. E talvez nada mate mais lentamente o desejo do que a transformação da pessoa amada em algo que acreditamos já possuir completamente.
Erich Fromm percebeu que amar não significa dissolver a individualidade de duas pessoas em uma única existência. Ao contrário, o amor maduro pressupõe uma aproximação em que a diferença permanece. Simone de Beauvoir também compreendeu a tensão entre amor e liberdade: querer que o outro exista para nós pode facilmente se transformar na tentativa de fazer com que sua liberdade confirme continuamente o nosso lugar. Mas ninguém pode amar verdadeiramente se o amor exigir a renúncia à própria autonomia. Existe uma forma mais delicada de vínculo, na qual dizemos, de alguma maneira: “quero estar perto de você, mas não quero que você deixe de ser você para permanecer comigo”. Talvez essa seja uma das formas mais difíceis de amar, porque exige suportar a incerteza sem transformá-la imediatamente em controle.
Isso não significa romantizar a distância nem imaginar que toda indisponibilidade seja misteriosa ou desejável. Há ausências que ferem, distâncias que revelam desinteresse e relações nas quais o outro simplesmente não deseja construir proximidade. O desejo não precisa de sofrimento para existir. Ele precisa, antes, de alteridade. Precisa que o outro continue sendo alguém que escolhe aproximar-se, e não alguém que foi capturado por nossas expectativas. Talvez por isso o amor mais vivo seja aquele em que ainda podemos perceber a liberdade do outro: ele está comigo, mas poderia não estar; escolhe permanecer, mas sua permanência não é uma propriedade adquirida. E justamente porque é escolha, sua presença conserva algo de precioso.
No fundo, amar talvez seja aprender a conviver com o fato de que jamais teremos completamente aquilo que desejamos — e que isso não precisa ser uma tragédia. O outro não é uma coisa que recebemos, guardamos e protegemos da passagem do tempo. É uma pessoa que continua acontecendo diante de nós, mudando, pensando, desejando, afastando-se e aproximando-se, às vezes até surpreendendo a si mesma. Talvez o amor sobreviva melhor quando não tenta aprisionar aquilo que deseja conservar. Porque há uma diferença profunda entre segurar alguém e permanecer ao lado de alguém. A mão fechada pode impedir a partida, mas não produz intimidade. A mão aberta não oferece garantias; oferece espaço. E talvez seja justamente nesse espaço, onde ninguém pertence inteiramente a ninguém, que o desejo consegue continuar respirando.
Referências bibliográficas
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e infinito. Lisboa: Edições 70, 1988.
HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017.