Apaixonar-se talvez seja uma das experiências em que realidade e imaginação mais profundamente se confundem. Encontramos alguém, ouvimos sua voz, observamos seus gestos, descobrimos algumas histórias, e quase sem perceber começamos a preencher aquilo que ainda não sabemos. Um silêncio pode parecer profundidade; uma delicadeza pode tornar-se promessa de uma ternura que ainda não conhecemos; uma conversa especialmente bonita pode nos fazer imaginar centenas de outras que jamais aconteceram. Não enxergamos apenas a pessoa que está diante de nós. Enxergamos também possibilidades. E talvez toda paixão contenha, desde o início, duas figuras sobrepostas: aquela que realmente encontramos e aquela que nossa imaginação começa silenciosamente a construir.
Isso não significa que a paixão seja falsa. Aquilo que sentimos pode ser absolutamente verdadeiro, mesmo quando parte da imagem que fazemos do outro não corresponde inteiramente à realidade. Freud percebeu que os vínculos amorosos podem carregar processos de idealização, nos quais o objeto amado recebe qualidades ampliadas pelo investimento afetivo. Quando estamos apaixonados, certas características ganham luminosidade enquanto outras permanecem quase invisíveis. Não necessariamente porque desejamos nos enganar, mas porque ninguém chega ao outro com os olhos completamente vazios. Levamos conosco nossa história, nossas faltas, nossas esperanças e aquilo que aprendemos a desejar. Às vezes, antes mesmo de conhecermos profundamente alguém, já começamos a imaginar o lugar que essa pessoa poderá ocupar em nossa vida.
Talvez por isso o início de uma paixão tenha algo de criação literária. Recebemos fragmentos e, com eles, começamos a escrever uma história. Uma mensagem torna-se indício, um encontro transforma-se em promessa, uma coincidência parece adquirir significado. Entre aquilo que sabemos e aquilo que desejamos saber existe um espaço imenso, e a imaginação costuma ocupá-lo rapidamente. Podemos apaixonar-nos por uma maneira de sorrir e imaginar a pessoa inteira a partir daquele sorriso; conhecer sua generosidade em determinada circunstância e supor que ela estará presente em todas as outras. O problema não está em imaginar — provavelmente seria impossível desejar sem alguma imaginação. O perigo começa quando deixamos de perceber que parte daquilo que amamos foi escrita por nós.
É então que o tempo começa seu trabalho silencioso. A convivência retira pouco a pouco algumas das projeções e apresenta a pessoa real: suas contradições, seus limites, seus hábitos menos encantadores, seus medos, suas zonas de egoísmo, suas diferenças. Aquilo que parecia misterioso talvez fosse apenas dificuldade de comunicação; aquilo que interpretávamos como serenidade pode revelar-se distância; e algumas qualidades que sequer havíamos percebido podem surgir justamente quando outras idealizações desaparecem. Winnicott escreveu sobre a passagem da relação com objetos subjetivamente constituídos para o reconhecimento de uma realidade que existe independentemente de nossos desejos. Algo semelhante talvez aconteça no amor: amadurecer afetivamente implica suportar que o outro não tenha sido criado para corresponder àquilo que imaginamos.
Esse momento pode ser vivido como decepção, mas também pode ser o verdadeiro início do encontro. Porque enquanto amamos apenas a imagem que construímos, existe sempre o risco de pedir à pessoa real que interprete o personagem que escrevemos para ela. Queremos que seja mais disponível, mais romântica, mais segura, mais parecida conosco; queremos que confirme a promessa que enxergamos no começo. Erich Fromm pensava o amor maduro como uma experiência que preserva a integridade e a individualidade de cada pessoa. Talvez amar comece justamente quando conseguimos dizer, ainda que silenciosamente: você não é exatamente quem imaginei, e agora quero descobrir quem você é. Nesse instante, alguma coisa da fantasia precisa morrer para que uma relação entre duas pessoas reais possa nascer.
Talvez toda paixão comece com alguma invenção, mas nem todo amor precisa permanecer dentro dela. Há uma beleza particular naquele momento em que o outro deixa de ser apenas a superfície onde projetamos nossos desejos e começa a aparecer diante de nós com sua própria espessura. Descobrimos então que amar alguém real é mais difícil do que amar alguém imaginado, porque pessoas reais frustram expectativas, mudam, discordam, possuem regiões que nunca compreenderemos completamente. Mas é também infinitamente mais interessante. A pessoa que inventamos existe para corresponder aos nossos desejos; a pessoa real pode nos surpreender. Talvez o amadurecimento do amor aconteça justamente nessa passagem: quando deixamos cair, pouco a pouco, o personagem que criamos e, em vez de lamentarmos que ele nunca tenha existido, começamos finalmente a olhar para quem esteve diante de nós o tempo inteiro. Porque talvez a pergunta mais profunda depois de “por quem me apaixonei?” seja outra: quanto dessa pessoa eu realmente conheço, e quanto dela fui eu quem escreveu?
Referências bibliográficas
FREUD, Sigmund. Psicologia das massas e análise do eu. In: FREUD, Sigmund. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
WINNICOTT, Donald W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009.