psicologia

Quando percebemos que não queremos passar a vida inteira assim

Há momentos em que o trabalho começa a pesar de uma maneira diferente. Não é apenas o cansaço de uma semana difícil, a irritação com uma tarefa desagradável ou aquela vontade comum de que o fim de semana chegue logo. É uma sensação mais persistente, quase uma pergunta que começa a acompanhar os dias: quero realmente continuar vivendo assim durante muitos anos? Talvez ainda não saibamos o que desejamos fazer no lugar, talvez existam contas a pagar, responsabilidades familiares, estabilidade conquistada com esforço e um medo perfeitamente compreensível de abandonar aquilo que é conhecido. Por isso, perceber que não gostamos mais do próprio trabalho não significa necessariamente que devemos pedir demissão amanhã. Às vezes, a primeira mudança não acontece no emprego, mas na consciência: finalmente conseguimos admitir aquilo que durante muito tempo tentamos não ouvir.

Essa admissão pode ser difícil porque o trabalho ocupa um lugar imenso em nossa identidade. Quando alguém pergunta quem somos, frequentemente respondemos dizendo o que fazemos. Além disso, existe uma pressão para demonstrarmos gratidão por aquilo que conquistamos, principalmente quando possuímos um emprego considerado estável ou socialmente respeitado. Podemos então sentir culpa pela insatisfação: “eu deveria estar feliz”, “há pessoas que gostariam de estar no meu lugar”, “talvez eu esteja reclamando demais”. Mas o sofrimento dos outros não transforma automaticamente nossa vida em uma vida que desejamos viver. Podemos reconhecer os privilégios e as vantagens de um trabalho e, ao mesmo tempo, perceber que ele já não corresponde àquilo que queremos para o futuro. Gratidão e insatisfação não são necessariamente sentimentos incompatíveis.

Christophe Dejours, ao estudar as relações entre trabalho e sofrimento psíquico, mostrou que trabalhar não é apenas executar tarefas: o trabalho mobiliza profundamente nossa subjetividade, nossa identidade e nossa relação com o reconhecimento. Quando existe uma distância persistente entre aquilo que precisamos fazer e aquilo que conseguimos sustentar subjetivamente, o sofrimento pode ocupar cada vez mais espaço. Isso não significa que todo desconforto seja sinal de que escolhemos a profissão errada. Nenhum trabalho é permanentemente prazeroso, e mesmo atividades profundamente significativas possuem rotina, frustração e desgaste. Talvez a pergunta mais importante seja outra: apesar das dificuldades, ainda existe sentido suficiente aqui? Quando a resposta começa repetidamente a ser “não”, talvez valha a pena escutá-la.

Escutar, entretanto, não significa agir impulsivamente. Há mudanças que precisam primeiro ser construídas em silêncio. Podemos continuar no emprego atual enquanto estudamos outra área, economizamos dinheiro, adquirimos novas habilidades, pesquisamos possibilidades ou experimentamos pequenos projetos paralelos. A teoria da construção da carreira, desenvolvida por Mark Savickas, ajuda a compreender a trajetória profissional não como uma escolha única e definitiva feita no início da vida, mas como uma narrativa que pode ser reorganizada diante das transições e mudanças de contexto. Talvez isso seja especialmente importante quando percebemos, depois de muitos anos, que desejamos outra coisa. Mudar de direção não significa necessariamente que todo o caminho anterior tenha sido um erro. Aquilo que aprendemos, as habilidades que desenvolvemos e até aquilo que descobrimos não querer mais podem participar da construção do próximo capítulo.

Há também algo libertador em parar de exigir que a nova vida esteja completamente desenhada antes de permitir-se questionar a antiga. Às vezes sabemos primeiro aquilo que não queremos. “Não quero continuar trabalhando desta maneira.” “Não quero permanecer neste ritmo.” “Não quero chegar aos próximos dez anos sentindo o mesmo esgotamento.” Essas frases ainda não são um plano, mas podem funcionar como uma espécie de fronteira. A partir delas começamos a investigar: de que tipo de rotina eu gostaria? Que trabalho seria mais coerente com meus valores? Quanto preciso ganhar para viver? O que precisaria aprender? O que posso começar agora sem destruir a segurança de que ainda necessito? A mudança deixa então de ser imaginada como um salto dramático e começa a parecer uma ponte construída lentamente entre a vida que temos e aquela que desejamos experimentar.

Talvez algumas transformações importantes comecem justamente assim: não com coragem suficiente para abandonar tudo, mas com honestidade suficiente para parar de fingir que queremos permanecer para sempre. Podemos continuar durante algum tempo no mesmo lugar e, ainda assim, já estar caminhando em outra direção. Podemos cumprir nossas responsabilidades enquanto reservamos algumas horas da semana para construir uma possibilidade futura. Não há vergonha em precisar de tempo, dinheiro, planejamento ou segurança para mudar. A vida adulta raramente permite que reinventemos tudo de uma vez. Mas existe uma diferença profunda entre permanecer porque escolhemos permanecer por enquanto e permanecer porque acreditamos que nenhuma outra vida é possível. Talvez reconhecer “não quero passar o resto da minha vida assim” não seja ainda uma despedida. Pode ser algo mais silencioso e mais importante: o primeiro momento em que começamos a levar a sério a possibilidade de que nossa história profissional ainda não terminou de ser escrita.

Referências bibliográficas

DEJOURS, Christophe. A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho. São Paulo: Cortez-Oboré, 1992.
SAVICKAS, Mark L. Career construction theory and practice. In: BROWN, Steven D.; LENT, Robert W. (org.). Career development and counseling: putting theory and research to work. 2. ed. Hoboken: Wiley, 2013.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido. Petrópolis: Vozes, 2008.

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