Talvez uma sociedade revele muito sobre seus valores não apenas naquilo que condena, mas principalmente naquilo diante do qual consegue seguir vivendo normalmente. Uma criança com fome deveria interromper alguma coisa dentro de nós. Uma pessoa dormindo na rua deveria continuar sendo um acontecimento, e não apenas parte da paisagem entre o trabalho e a casa. Um trabalhador submetido a condições indignas não deveria ser considerado simplesmente alguém que “teve menos sorte”. Quando essas situações se repetem durante anos, porém, existe o risco de que aquilo que deveria produzir indignação se transforme em cenário. Passamos pela mesma calçada, encontramos as mesmas desigualdades, ouvimos números cada vez maiores e, pouco a pouco, aprendemos uma das formas mais perigosas de adaptação: habituamo-nos.
A normalização da injustiça não significa necessariamente que as pessoas tenham se tornado cruéis. Muitas vezes, significa justamente que encontraram maneiras de continuar vivendo apesar daquilo que seria emocionalmente difícil enxergar todos os dias. Criamos explicações que tornam o sofrimento social mais suportável para quem o observa. Dizemos que determinada pessoa não se esforçou suficientemente, que sempre existiram pobres, que o mundo é assim, que nada pode ser feito. Essas explicações podem produzir uma distância confortável entre nós e o sofrimento alheio. O problema começa quando deixamos de perceber estruturas sociais e passamos a interpretar desigualdades complexas exclusivamente como fracassos individuais. A sociologia de Pierre Bourdieu mostrou como condições econômicas, culturais e sociais profundamente desiguais influenciam as possibilidades disponíveis às pessoas, ainda que essas desigualdades muitas vezes sejam apresentadas como resultado natural de diferenças de mérito.
Há também algo particularmente grave quando a desigualdade começa a modificar nossa percepção da humanidade do outro. Pessoas deixam de ser percebidas como indivíduos com histórias, medos, vínculos e desejos e passam a ser reduzidas a categorias: “o morador de rua”, “o pobre”, “o imigrante”, “o desempregado”, “o diferente”. Erving Goffman mostrou como processos de estigmatização podem reduzir uma pessoa, no olhar social, a uma característica que passa a definir toda a sua identidade. Quando isso acontece, torna-se mais fácil aceitar aquilo que jamais consideraríamos aceitável para alguém que reconhecemos como semelhante. Talvez a desumanização comece justamente nessa distância: primeiro deixamos de enxergar uma pessoa inteira; depois, começamos a considerar toleráveis condições que nos revoltariam se atingissem alguém cujo rosto conhecemos.
Paulo Freire insistiu que a realidade social não deveria ser tratada como algo inevitável, como se tivesse surgido independentemente das escolhas humanas e, portanto, estivesse fora do alcance da transformação. Há uma diferença fundamental entre reconhecer que problemas sociais são complexos e concluir que são naturais. Pobreza, fome, exclusão e discriminação possuem histórias, estruturas e decisões coletivas que ajudam a produzi-las e reproduzi-las. Isso não significa que exista uma solução simples para cada injustiça, nem que toda desigualdade possa ser eliminada por uma única política ou gesto individual. Significa apenas recusar a ideia de que o sofrimento evitável de determinados grupos seja parte inevitável da ordem das coisas. Aquilo que foi socialmente produzido também pode, ao menos em parte, ser socialmente transformado.
Talvez por isso preservar a capacidade de indignação seja uma tarefa ética. Indignar-se não significa viver permanentemente tomado pela raiva nem acreditar que uma pessoa sozinha poderá resolver problemas históricos. Significa conservar dentro de si uma fronteira: isto não deveria ser normal. Podemos reconhecer nossa impotência diante de muitas situações sem transformá-la em indiferença. Podemos apoiar iniciativas comunitárias, participar da vida pública, cobrar instituições, defender direitos, produzir conhecimento, educar, votar, ajudar concretamente quando possível e, sobretudo, recusar discursos que transformam sofrimento em culpa de quem sofre. Hannah Arendt mostrou, em outro contexto histórico, como a ausência de reflexão sobre aquilo que fazemos e aceitamos pode participar da normalização de realidades moralmente graves. Talvez uma sociedade precise, de tempos em tempos, interromper seus automatismos e perguntar a si mesma: em que momento começamos a achar isso comum?
Porque existe uma diferença imensa entre aquilo que é frequente e aquilo que é aceitável. Crianças podem passar fome todos os dias e isso continuará sendo intolerável. Pessoas podem dormir durante anos nas calçadas e isso não transforma uma calçada em lugar digno para alguém viver. Trabalhadores podem enfrentar condições degradantes durante gerações e a repetição não concede dignidade à exploração. Grupos inteiros podem ser humilhados tantas vezes que a violência pareça antiga, mas nenhuma antiguidade transforma desumanização em justiça. Talvez o primeiro gesto de uma sociedade mais humana seja muito pequeno: não deixar que a repetição destrua nossa capacidade de estranhamento. Continuar olhando para aquilo que está diante de nós e dizendo: não, isso não deveria ser assim. Porque algumas transformações começam muito antes das soluções, começam no instante em que aquilo que aprendemos a tolerar volta, finalmente, a nos incomodar.
Referências
BOURDIEU, Pierre. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 1997.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
GOFFMAN, Erving. Estigma: notas sobre a manipulação da identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1988.
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.