psicologia

As promessas que fazemos a nós mesmos

Há uma responsabilidade que exercemos com surpreendente facilidade quando outras pessoas estão envolvidas. Acordamos cedo porque prometemos chegar a determinado horário, atravessamos a cidade para cumprir um compromisso, terminamos um trabalho mesmo cansados, respondemos mensagens, comparecemos, entregamos. A presença do outro parece conferir realidade às nossas promessas. Mas basta que o compromisso tenha sido assumido apenas conosco para que ele se torne estranhamente negociável. O livro que decidimos escrever pode esperar mais uma semana. O estudo que consideramos importante fica para quando houver tempo. O cuidado com o corpo começa na segunda-feira. O projeto que desejamos realizar permanece guardado para uma fase supostamente mais tranquila da vida. Talvez exista nisso uma pergunta desconfortável: por que tantas vezes consideramos grave decepcionar os outros, mas tratamos com tanta naturalidade a possibilidade de decepcionar continuamente a nós mesmos?

Naturalmente, nem toda promessa precisa ser cumprida apenas porque um dia foi feita. Mudamos de ideia, descobrimos novos caminhos, percebemos que determinados objetivos já não fazem sentido. Há maturidade também em abandonar projetos que deixaram de nos representar. O problema é diferente quando continuamos desejando alguma coisa e, ainda assim, nunca lhe concedemos espaço real em nossa vida. Dizemos que queremos aprender, criar, escrever, estudar, cuidar da saúde ou construir determinado futuro, mas essas coisas recebem apenas o tempo que sobra, e quase nunca sobra tempo. A vida cotidiana possui uma capacidade extraordinária de ocupar todos os espaços disponíveis. Se aquilo que consideramos essencial depender sempre de uma brecha espontânea na agenda, talvez passemos anos esperando uma disponibilidade que jamais chegará.

Levar-se a sério começa, então, por reconhecer que nossos projetos também merecem compromisso. Isso não significa transformar cada desejo em obrigação ou preencher todos os minutos com metas. Significa apenas compreender que aquilo que importa precisa aparecer de alguma maneira concreta na organização dos dias. Pesquisas sobre autorregulação e formação de hábitos mostram que intenções, sozinhas, nem sempre são suficientes para produzir comportamento; quando definimos contextos mais específicos para agir e repetimos determinadas ações em condições relativamente estáveis, aumentamos a possibilidade de transformar intenção em prática. Talvez por isso “quero escrever um livro” seja uma frase bonita, mas “vou proteger determinado período da semana para escrever” comece a modificar a realidade. O sonho permanece abstrato até receber um lugar no calendário.

Há também uma dimensão mais íntima nessa fidelidade. Cada vez que prometemos alguma coisa a nós mesmos e abandonamos a promessa sem sequer tentar, podemos começar a enfraquecer silenciosamente a confiança que depositamos em nossa própria palavra. Não porque devamos executar perfeitamente tudo aquilo que planejamos — isso seria impossível —, mas porque precisamos acumular experiências em que conseguimos contar conosco. Albert Bandura mostrou como as experiências de domínio contribuem para a percepção de autoeficácia: enfrentar tarefas, persistir e perceber que somos capazes de agir fortalece a crença de que podemos novamente fazê-lo. Talvez a confiança em si não seja construída principalmente por frases motivacionais, mas por pequenas evidências. Sentamos para estudar quando havíamos decidido estudar. Voltamos ao projeto depois de uma semana difícil. Fazemos hoje uma parte pequena daquilo que prometemos realizar ao longo de anos. Aos poucos, nossa própria história começa a nos dizer: quando isso realmente importa para mim, eu apareço.

Mas fidelidade a si mesmo não deve ser confundida com rigidez. Haverá dias em que estaremos cansados, doentes, sobrecarregados ou simplesmente humanos demais para cumprir aquilo que planejamos. Uma relação saudável conosco precisa comportar revisão, descanso e imprevisto. A diferença talvez esteja entre fazer uma exceção e transformar a exceção em abandono. Podemos faltar um dia e voltar no seguinte; diminuir o ritmo sem desistir do caminho; reformular uma meta que se mostrou excessiva sem abandonar aquilo que havia de essencial nela. Disciplina madura não é nunca falhar. É desenvolver alguma capacidade de retorno. Assim como não consideraríamos necessariamente destruída uma amizade porque um encontro precisou ser desmarcado, também não precisamos declarar fracassado um projeto pessoal porque durante algum tempo não conseguimos cuidar dele como gostaríamos.

No fim, talvez levar-se a sério seja uma forma discreta de respeito por si. É olhar para aquilo que desejamos construir e reconhecer que nossa vida não pode ser composta apenas pelas urgências, expectativas e necessidades dos outros. Algumas horas precisam pertencer às coisas que ainda não existem, mas que desejamos fazer existir. Ninguém virá necessariamente cobrar o livro que não escrevemos, o conhecimento que não buscamos, o projeto que abandonamos ou a vida que adiamos. E talvez seja justamente essa ausência de cobrança que torne a fidelidade a nós mesmos tão importante. Há promessas que não possuem testemunhas, contratos ou prazos impostos de fora. Existem apenas entre quem somos hoje e quem esperamos encontrar alguns anos adiante. Cumpri-las, pouco a pouco, talvez seja uma maneira de dizer a essa pessoa futura: eu não deixei aquilo que era importante para nós sempre para depois. Eu levei você a sério antes mesmo de você existir.

Referências bibliográficas

BANDURA, Albert. Self-efficacy: the exercise of control. New York: W. H. Freeman, 1997.
GOLLWITZER, Peter M. Implementation intentions: strong effects of simple plans. American Psychologist, v. 54, n. 7, p. 493–503, 1999.
WOOD, Wendy; RÜNGER, Dennis. Psychology of habit. Annual Review of Psychology, v. 67, p. 289–314, 2016.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

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