Amar profundamente alguém é conviver com uma verdade ao mesmo tempo simples e desconfortável: por mais íntimos que nos tornemos, a pessoa amada continuará sendo outra pessoa. Podemos conhecer seus hábitos, reconhecer seus passos antes mesmo que entre no quarto, saber quando alguma coisa a preocupa pelo modo como permanece em silêncio. Podemos conhecer histórias que quase ninguém conhece, dividir uma casa, uma cama, projetos e décadas inteiras. Ainda assim, alguma região permanecerá inacessível. O outro possui lembranças que nunca experimentaremos como ele, pensamentos que talvez jamais transforme em palavras, desejos que surgem independentemente de nossa vontade e uma consciência à qual não temos acesso completo. Talvez amar comece justamente quando compreendemos que intimidade não significa abolir essa distância, mas aprender a habitá-la sem transformá-la imediatamente em ameaça.
Há, porém, uma antiga tentação de confundir amor com pertencimento. Dizemos “meu amor”, “minha mulher”, “meu marido”, e a própria linguagem parece às vezes aproximar vínculo e propriedade. Naturalmente, essas expressões podem significar apenas carinho e pertencimento afetivo recíproco. O problema começa quando imaginamos que amar alguém nos concede direitos sobre sua interioridade: queremos saber tudo o que pensa, controlar aquilo que deseja, determinar com quem pode estar, exigir que suas escolhas confirmem continuamente nossa importância. Por trás desse movimento existe frequentemente o medo. Se o outro é livre, pode mudar; se pode mudar, talvez um dia deixe de nos escolher. A posse aparece então como uma tentativa impossível de eliminar a incerteza fundamental do amor.
Simone de Beauvoir percebeu com especial clareza esse paradoxo. Queremos ser escolhidos por uma liberdade, porque somente uma escolha livre possui verdadeiro significado; ao mesmo tempo, desejaríamos algumas vezes transformar essa escolha em garantia permanente. Mas uma liberdade obrigada a nos escolher já não está realmente escolhendo. É justamente aí que o amor encontra uma de suas contradições mais profundas: queremos segurança, mas desejamos também que a presença do outro seja verdadeira. E uma presença verdadeira não pode ser completamente garantida. Talvez seja por isso que amar exija uma espécie de coragem existencial. Precisamos suportar que alguém esteja conosco não porque conseguimos possuí-lo, mas porque, podendo ser livre, continua encontrando razões para permanecer.
Erich Fromm também diferenciava o amor maduro das formas de união que anulam a individualidade. Amar, nessa perspectiva, não significa dissolver duas existências em uma só, mas construir proximidade preservando a integridade de cada pessoa. Há algo profundamente bonito nisso: poder dizer “quero compartilhar minha vida com você” sem que isso signifique “quero que sua vida deixe de lhe pertencer”. O amor amadurece quando deixamos de interpretar toda diferença como afastamento. O outro pode precisar de silêncio sem estar nos abandonando, cultivar interesses que não compartilhamos, possuir amizades que não nos incluem, pensar diferente, mudar de opinião, desejar momentos de solitude. Uma relação não precisa ocupar todos os espaços para ser profunda. Talvez, ao contrário, precise deixar algumas janelas abertas para que cada pessoa continue respirando dentro dela.
Desistir da posse, entretanto, não significa aceitar indiferença, desrespeito ou ausência de compromisso. Liberdade não é uma licença para ferir, assim como autonomia não elimina os acordos que duas pessoas constroem. Uma relação amorosa pode envolver fidelidade, responsabilidade, presença e escolhas compartilhadas sem transformar nenhuma dessas coisas em propriedade. Existe uma diferença fundamental entre dizer “escolhemos determinados compromissos porque queremos proteger aquilo que construímos” e imaginar “você me pertence, portanto deve obedecer às minhas inseguranças”. Emmanuel Levinas ajuda a pensar o encontro com o outro justamente a partir de uma alteridade que não pode ser inteiramente reduzida ao nosso mundo. Talvez amar eticamente seja resistir à tentação de transformar uma pessoa em personagem das nossas necessidades e permitir que ela continue existindo para além daquilo que representa para nós.
No fundo, amar alguém talvez seja aprender a manter as mãos abertas. Não abertas por indiferença, mas porque compreendemos que aquilo que está vivo não pode ser verdadeiramente amado quando é transformado em propriedade. Podemos construir uma história, fazer promessas, escolher permanecer e criar raízes profundas juntos; ainda assim, haverá sempre duas consciências, duas histórias, dois mundos interiores encontrando-se todos os dias. Isso torna o amor mais vulnerável, mas também mais precioso. Se ninguém nos pertence, cada gesto de permanência volta a ser uma escolha. Cada aproximação deixa de ser obrigação e recupera alguma coisa do encontro. Talvez o amor maduro comece justamente quando paramos de perguntar “como faço para que você seja meu?” e conseguimos dizer algo muito mais difícil: eu sei que sua vida pertence a você, e desejo construir ao seu lado um lugar onde sua liberdade não precise desaparecer para que eu me sinta amado.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2015.
LEVINAS, Emmanuel. Ética e infinito. Lisboa: Edições 70, 1988.
BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2001.