No começo de um relacionamento, nem sempre amamos apenas a pessoa que está diante de nós. Amamos também aquilo que imaginamos que ela seja. Há, no início, uma espécie de criação silenciosa: preenchemos lacunas com expectativas, atribuímos significados a gestos, projetamos desejos, reconhecemos no outro possibilidades que talvez pertençam mais a nós do que a ele. Não conhecemos ainda suficientemente aquela pessoa, e justamente por isso a imaginação pode ocupar o espaço que a realidade ainda não preencheu.
A paixão frequentemente se alimenta dessa distância entre o que sabemos e o que imaginamos. O outro pode tornar-se uma tela sobre a qual projetamos necessidades, esperanças e ideais. Freud chamou atenção para o papel das idealizações e das projeções na vida amorosa, mostrando como elementos do próprio sujeito podem participar da maneira como ele investe afetivamente em outra pessoa (FREUD, 1914). Amar, nesse sentido, nunca é uma experiência completamente desprovida de interpretação: nós não encontramos simplesmente alguém; encontramos alguém através de nossa própria história. Mas o tempo modifica essa relação.
A convivência revela aquilo que a fantasia consegue esconder. Descobrimos que aquela pessoa também se irrita, se contradiz, se fecha, sente medo, falha, muda de opinião, tem necessidades que não compreendemos e carrega feridas às quais não temos acesso imediato. Aquela imagem inicialmente tão coerente começa a adquirir fissuras. E talvez seja justamente aí que uma pergunta importante apareça: conseguimos amar alguém quando essa pessoa deixa de coincidir com aquilo que havíamos imaginado?
Erich Fromm compreendia o amor maduro não como uma simples experiência de encantamento, mas como uma atitude que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento do outro (FROMM, 1956). Conhecer é particularmente importante. Porque não podemos respeitar verdadeiramente aquilo que precisamos transformar em fantasia para conseguir amar. Existe uma diferença profunda entre amar alguém e amar a versão de alguém que construímos dentro de nós.
Quando amamos apenas a fantasia, qualquer diferença pode parecer uma decepção. A pessoa real passa a ser acusada de ter mudado, quando talvez tenha apenas começado a aparecer. O problema não é necessariamente que o outro tenha se tornado diferente; talvez nós simplesmente tenhamos começado a enxergá-lo melhor. É nesse ponto que o amor pode amadurecer ou se desfazer.
Amadurecer não significa aceitar tudo. Enxergar o outro em sua humanidade não significa tolerar violência, desrespeito, manipulação ou incompatibilidades fundamentais. Pelo contrário: conhecer alguém de maneira mais realista também nos permite perceber aquilo que não podemos ou não queremos viver em uma relação. O amor não elimina os limites. Às vezes, conhecemos profundamente alguém justamente para compreender que precisamos partir. Amar sem fantasia, portanto, não significa amar sem expectativas. Significa reconhecer que nossas expectativas não constituem a identidade do outro.
Simone de Beauvoir observou, em sua reflexão sobre as relações amorosas, como o desejo de transformar o outro em fundamento absoluto da própria existência pode produzir dependência e perda de liberdade (BEAUVOIR, 1949). Quando exigimos que uma pessoa corresponda permanentemente à imagem que criamos dela, deixamos de encontrá-la como sujeito e começamos a tratá-la como personagem de uma história que escrevemos previamente. Talvez uma das formas mais difíceis de amar seja permitir que o outro continue sendo outro.
Isso significa admitir que não conheceremos completamente uma pessoa. Mesmo depois de anos, haverá regiões de sua subjetividade que permanecerão parcialmente inacessíveis. O outro não é uma propriedade nossa nem um livro que terminamos de ler. É alguém que continua se transformando.
Byung-Chul Han, ao discutir as relações contemporâneas, chama atenção para a dificuldade crescente de lidar com a alteridade — com aquilo que não se deixa reduzir ao nosso próprio desejo e às nossas expectativas (HAN, 2017). Em uma cultura que frequentemente transforma relações em experiências de satisfação imediata, o diferente pode ser percebido como defeito. Queremos que o outro nos corresponda, confirme nossas expectativas, compreenda nossas necessidades e não perturbe excessivamente a imagem que construímos da relação. Mas talvez amar seja justamente suportar um pouco dessa perturbação.
O amor começa a se tornar mais real quando conseguimos olhar para a pessoa e dizer, ainda que silenciosamente: eu vejo que você não é exatamente quem imaginei; e agora quero conhecer quem você é.
Não se trata de abandonar o encantamento, mas de substituí-lo gradualmente por conhecimento. Não se trata de deixar de admirar, desejar ou sonhar, mas de permitir que esses sentimentos convivam com a realidade. Porque existe uma diferença entre descobrir que alguém não é perfeito e descobrir que alguém é humano.
A primeira experiência pode produzir desilusão. A segunda pode produzir intimidade. Talvez amar verdadeiramente seja esse movimento delicado entre a imaginação e a realidade: primeiro inventamos um pouco o outro para conseguir nos aproximar; depois precisamos desfazer, pouco a pouco, aquilo que inventamos para finalmente encontrá-lo. E talvez o amor mais profundo não seja aquele em que dizemos “você é exatamente como eu imaginava”, mas aquele em que conseguimos dizer: “Você é muito mais complexo do que eu imaginei. E, mesmo assim — ou talvez justamente por isso — quero continuar conhecendo você.”
Referências
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida. Paris: Gallimard, 1949.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].
FREUD, Sigmund. Sobre o narcisismo: uma introdução. In: Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos. São Paulo: Companhia das Letras, 2010 [1914].
HAN, Byung-Chul. Agonia do Eros. Petrópolis: Vozes, 2017.