Amar alguém não deveria significar desaparecer dentro da vida do outro. Existe uma ideia romântica, antiga e persistente, segundo a qual amar profundamente seria entregar-se por inteiro: compartilhar tudo, querer estar sempre junto, abandonar antigas prioridades, adaptar-se aos desejos do outro e, pouco a pouco, fazer da relação o centro da própria existência. Como se a intensidade do amor pudesse ser medida pela quantidade de espaço que deixamos de ocupar para que o outro ocupe.
Mas existe uma diferença importante entre compartilhar a vida e entregar a própria vida. Uma relação amorosa pode ampliar nossa existência sem precisar substituí-la. Podemos construir projetos em comum, dividir uma casa, uma rotina, responsabilidades, alegrias e dificuldades e, ainda assim, continuar sendo uma pessoa que possui pensamentos, interesses, amizades, desejos, silêncios e projetos que não pertencem necessariamente ao casal.
Erich Fromm, em A arte de amar, associa o amor maduro à capacidade de unir-se a outra pessoa sem perder a própria integridade. Para ele, amar não significa dissolver duas individualidades em uma única identidade, mas estabelecer uma relação na qual proximidade e autonomia possam coexistir (FROMM, 1956).
Essa talvez seja uma das maiores dificuldades do amor: permanecer próximo sem transformar proximidade em fusão. Quando duas pessoas se apaixonam, é natural que desejem compartilhar muito. A vida ganha uma espécie de linguagem comum. Surge o “nós”: nossos planos, nossa casa, nossas viagens, nossos amigos, nossas lembranças. O “nós” pode ser uma experiência profundamente bonita. O problema começa quando ele deixa de coexistir com o “eu”. Porque uma relação não deveria exigir que a pessoa deixe de saber quem é para provar o quanto ama.
A psicologia das relações diferencia, há décadas, intimidade de fusão. Na teoria sistêmica de Murray Bowen, por exemplo, o conceito de diferenciação do self descreve a capacidade de uma pessoa permanecer emocionalmente conectada aos outros sem perder a capacidade de pensar, escolher e sustentar uma posição própria (BOWEN, 1978). Quanto maior a diferenciação, em termos gerais, maior a possibilidade de proximidade sem que toda diferença seja vivida como ameaça.
Isso significa que duas pessoas podem discordar e continuar amando-se. Podem desejar coisas diferentes. Podem precisar de algum tempo sozinhas. Podem conservar amizades que não são compartilhadas. Podem ter interesses diferentes. Podem desenvolver projetos individuais.
Podem até atravessar períodos em que um está mais voltado para determinada dimensão da própria vida, sem que isso signifique abandono afetivo. O amor não precisa eliminar a diferença para produzir pertencimento. Talvez seja justamente a existência de dois sujeitos distintos que torne possível falar verdadeiramente em encontro.
Simone de Beauvoir, ao refletir sobre o amor e a liberdade, criticou formas de relacionamento nas quais uma pessoa transforma a outra em fundamento absoluto de sua existência. Quando alguém precisa fazer do parceiro a fonte exclusiva de sentido, reconhecimento e segurança, corre-se o risco de transformar o amor em dependência e a relação em uma estrutura na qual a liberdade de ambos diminui (BEAUVOIR, 1949).
Não precisamos, entretanto, transformar autonomia em isolamento. Ser independente não significa não precisar de ninguém. Não significa rejeitar intimidade, evitar compromisso ou viver como se o relacionamento fosse uma ameaça à liberdade. A autonomia afetiva não é a ausência de vínculos; é a possibilidade de estabelecer vínculos sem deixar de reconhecer a própria existência. Podemos precisar de alguém sem pertencer a esse alguém. Podemos desejar companhia sem temer a solidão. Podemos escolher estar juntos sem acreditar que precisamos estar juntos o tempo inteiro. Podemos dizer “eu preciso de você” sem transformar isso em “eu não existo sem você”. Essa distinção é fundamental.
Na perspectiva da Self-Determination Theory, desenvolvida por Edward Deci e Richard Ryan, autonomia é uma das necessidades psicológicas básicas do ser humano, ao lado de competência e relacionamento. Autonomia, nesse contexto, não significa fazer tudo sozinho, mas experimentar nossas ações como coerentes com nossos próprios valores e escolhas, em vez de vivê-las como resultado de pressão ou controle externo (DECI; RYAN, 2000). Uma relação amorosa pode, portanto, ser simultaneamente um lugar de pertencimento e de autonomia. Aliás, talvez seja justamente essa combinação que permita que o amor dure sem se transformar em aprisionamento. Porque quando alguém precisa abandonar continuamente a própria identidade para preservar uma relação, o preço da permanência pode tornar-se alto demais. A pessoa deixa de perguntar o que deseja, o que pensa, o que sente e o que considera importante. Começa a organizar a própria existência exclusivamente em torno das necessidades do parceiro. Algumas renúncias podem ser próprias de qualquer relação; ninguém vive a dois sem negociar. Mas negociação é diferente de apagamento.
Em uma relação saudável, existem concessões. Existem responsabilidades. Existem momentos em que alguém cede porque o vínculo importa. Mas ceder ocasionalmente não deveria significar tornar-se permanentemente menor. Amar também é permitir que o outro exista. E isso inclui permitir que o outro não seja uma extensão de nós. Talvez uma das formas mais bonitas de intimidade seja poder dizer: “Eu amo você, mas você não precisa deixar de ser você para continuar comigo. E eu também não preciso deixar de ser eu para continuar ao seu lado.”
O verdadeiro encontro não acontece quando duas pessoas deixam de existir separadamente. Acontece quando duas existências conseguem construir um espaço comum sem destruir os espaços individuais que trouxeram consigo. Existe o que é nosso. Existe o que é seu. Existe o que é meu. E talvez uma relação amorosa suficientemente madura consiga proteger as três coisas. Porque amar alguém não deveria significar desaparecer dentro da vida do outro. Deveria significar encontrar um lugar na vida de alguém — sem abandonar o lugar que ocupamos dentro de nós mesmos.
Referências
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo: a experiência vivida. Paris: Gallimard, 1949.
BOWEN, Murray. Family Therapy in Clinical Practice. New York: Jason Aronson, 1978.
DECI, Edward L.; RYAN, Richard M. The “what” and “why” of goal pursuits: human needs and the self-determination of behavior. Psychological Inquiry, v. 11, n. 4, p. 227–268, 2000.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000 [1956].