Talvez uma das formas mais delicadas de amar alguém seja descobrir que um sentimento não precisa necessariamente transformar-se em uma relação para possuir significado. Estamos habituados a compreender o amor como uma experiência que procura aproximação, reciprocidade, convivência e permanência. Quando amamos, imaginamos encontros, conversas, gestos de carinho e a possibilidade de compartilhar a vida com outra pessoa. Entretanto, existem sentimentos que seguem caminhos diferentes. Podemos amar alguém que vive distante, que pertence a outra história, que não conhece inteiramente aquilo que sentimos ou com quem simplesmente não construiremos uma relação amorosa. Ainda assim, essa pessoa pode ocupar um lugar de ternura em nossa existência. Pensamos nela ocasionalmente, desejamos que esteja bem, alegramo-nos ao imaginar suas conquistas e conservamos uma espécie de gratidão silenciosa pelo simples fato de ela existir. Talvez esses sentimentos nos ensinem que o amor não se reduz à realização de um desejo. Às vezes, amar significa reconhecer a beleza de alguém sem precisar transformar essa admiração em posse, compromisso ou promessa de futuro.
Erich Fromm, em A arte de amar – livro que ocupa a minha cabeceira – compreende o amor não apenas como um sentimento que nos acontece, mas como uma capacidade humana que envolve cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento. Essa perspectiva permite pensar que amar alguém também significa interessar-se sinceramente por seu bem-estar, mesmo quando não participamos diretamente de sua vida. Existe uma diferença profunda entre desejar possuir uma pessoa e desejar que ela floresça. No primeiro caso, podemos acabar subordinando a felicidade do outro à satisfação de nossas próprias necessidades; no segundo, reconhecemos que sua existência possui valor independentemente do lugar que ocupamos nela. Podemos desejar que alguém encontre tranquilidade, realize seus projetos, seja amado e tenha uma vida bonita, mesmo que nada disso aconteça ao nosso lado. Esse tipo de sentimento não elimina necessariamente a saudade ou o desejo de proximidade, mas pode transformar a maneira como convivemos com eles. Em vez de exigir que a realidade corresponda àquilo que imaginamos, aprendemos a reconhecer que o bem de alguém não precisa coincidir com nossos próprios desejos.
Há também uma dimensão filosófica nessa experiência. Simone de Beauvoir, em A ética da ambiguidade, atribui grande importância ao reconhecimento da liberdade do outro, mostrando que nossa existência se realiza em um mundo compartilhado com outras consciências igualmente livres. Essa reflexão ajuda a compreender por que o amor não deveria transformar a pessoa amada em uma extensão de nós mesmos. O outro possui uma história que não começou quando o conhecemos, desejos que não dependem de nossa presença e possibilidades que talvez jamais venhamos a compartilhar. Amar alguém à distância pode representar, em determinadas circunstâncias, uma maneira de reconhecer essa autonomia. Não precisamos participar de todas as suas escolhas, conhecer todos os seus pensamentos ou ocupar um lugar central em seus dias. Podemos aceitar que há partes de sua vida às quais não teremos acesso e que isso não diminui necessariamente a autenticidade de nossa afeição. Talvez uma das expressões mais maduras do amor seja justamente essa capacidade de reconhecer a existência do outro como algo precioso, mas que não nos pertence.
Entretanto, cultivar um sentimento distante também exige alguma honestidade conosco. A distância pode preservar a delicadeza de um afeto, mas também favorecer a idealização. Quando não convivemos com alguém, conhecemos apenas fragmentos de sua personalidade, de suas dificuldades e de suas contradições. Nossa imaginação pode preencher os espaços desconhecidos com qualidades que desejamos encontrar, construindo uma imagem mais próxima de nossas expectativas do que da pessoa real. O amor à distância torna-se mais sereno quando conseguimos reconhecer essa diferença. Podemos admirar profundamente alguém sem acreditar que o conhecemos por inteiro; podemos guardar um sentimento bonito sem transformá-lo na única possibilidade de felicidade; podemos desejar o bem de uma pessoa sem acompanhar continuamente sua vida ou alimentar esperanças que nos impeçam de viver a nossa. Há uma diferença entre cultivar uma afeição que amplia nossa sensibilidade e permanecer aprisionado a uma fantasia que nos afasta do presente. O sentimento pode ser precioso, mas não precisa tornar-se o centro em torno do qual todas as outras experiências perdem importância.
Talvez uma das características mais comoventes desse amor seja sua capacidade de permanecer sem exigir acontecimentos extraordinários. Às vezes, basta saber que a pessoa continua seguindo seu caminho. Não precisamos conversar todos os dias, receber demonstrações de carinho ou encontrar justificativas para aquilo que sentimos. Podemos lembrar dela ao ouvir determinada música, ao encontrar uma passagem de um livro ou ao perceber alguma beleza que gostaríamos de compartilhar. Essas pequenas associações fazem parte da maneira como nossa memória afetiva organiza a experiência. Algumas pessoas permanecem dentro de nós não porque participam continuamente de nossa rotina, mas porque despertaram formas particulares de ternura, admiração ou esperança. Isso não significa que o sentimento precise durar para sempre, nem que sua permanência seja uma prova de superioridade moral. Os afetos também se transformam, enfraquecem e encontram novos significados com a passagem dos anos. Mas, enquanto existem, podem ser acolhidos sem vergonha e sem a obrigação de produzir algum resultado. Nem tudo o que sentimos precisa transformar-se em uma história compartilhada para ter sido verdadeiro.
No fundo, talvez amar alguém à distância nos ensine alguma coisa sobre a generosidade de nossos próprios sentimentos. Existe uma beleza discreta em desejar que uma pessoa seja feliz sem exigir que sejamos responsáveis por essa felicidade. Em saber que ela poderá conhecer outros amores, descobrir novos lugares, realizar sonhos que desconhecemos e construir uma vida que talvez nunca se encontre com a nossa. Podemos sentir uma pequena tristeza diante dessa possibilidade e, ainda assim, desejar sinceramente que tudo lhe aconteça da melhor maneira possível. O amor humano não precisa ser inteiramente desinteressado para ser generoso; podemos sentir saudade, desejo e esperança ao mesmo tempo que respeitamos a liberdade do outro. Talvez a maturidade afetiva consista justamente em aprender a conviver com essas contradições sem transformar o sentimento em cobrança. Há pessoas que não caminharão ao nosso lado, mas cuja existência continuará despertando em nós alguma forma de cuidado. E talvez isso também seja uma maneira legítima e profundamente humana de amar: guardar alguém com ternura, sem tentar retê-lo; desejar sua felicidade, mesmo de longe; e compreender que certos sentimentos não precisam ser correspondidos ou realizados para nos ensinar a beleza de querer bem a outra pessoa.
Referências bibliográficas
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
BUBER, Martin. Eu e tu. São Paulo: Centauro, 2001.
BARTHES, Roland. Fragmentos de um discurso amoroso. São Paulo: Martins Fontes, 2003.