Há uma frase de Arthur Rimbaud que me acompanha de maneira particularmente profunda: “Par délicatesse, j’ai perdu ma vie” ou “Por delicadeza, perdi minha vida”. Há nessa afirmação uma beleza melancólica, como se a delicadeza pudesse representar uma forma de desencontro com o mundo, uma sensibilidade tão intensa que acabasse por tornar a própria existência mais difícil. Sempre me impressionou a possibilidade de alguém perder a vida, não necessariamente no sentido literal, mas naquilo que ela possui de mais íntimo, por não conseguir conciliar sua maneira de sentir com as exigências da realidade. Entretanto, ao pensar nessa frase, senti vontade de invertê-la. Não para contradizer Rimbaud ou negar a profundidade de sua experiência poética, mas para expressar uma escolha que reconheço como essencial à minha própria existência: “Por delicadeza, ganhei minha vida.” Essa pequena alteração transforma, para mim, o sentido da frase. A delicadeza deixa de representar uma possível causa de perda e passa a constituir aquilo que me permite encontrar a vida na qual acredito. Não se trata apenas de uma preferência estética ou de uma disposição afetiva, mas de uma maneira de compreender o mundo, relacionar-me com as pessoas e atribuir sentido aos anos que tenho a possibilidade de viver.
Viver com delicadeza, para mim, não significa ignorar a violência, a desigualdade, a crueldade ou as inúmeras contradições da condição humana. Tampouco significa acreditar que todas as pessoas são boas, que os conflitos podem ser evitados ou que a gentileza será necessariamente correspondida. A delicadeza que desejo cultivar não nasce de uma visão ingênua da existência, mas justamente da consciência de sua fragilidade. Sei que as pessoas sofrem, que carregam histórias desconhecidas, que enfrentam perdas silenciosas e que, muitas vezes, procuram sobreviver a dificuldades que não conseguimos imaginar. Por isso, acredito que a maneira como nos dirigimos aos outros importa. Uma palavra pode aliviar ou aprofundar uma ferida; um gesto pode acolher ou humilhar; uma atitude aparentemente pequena pode permanecer durante anos na memória de alguém. Quero viver de maneira atenta a essas possibilidades. Quero que minha presença no mundo produza, sempre que possível, menos sofrimento e mais acolhimento. A delicadeza, nesse sentido, não é apenas uma qualidade que admiro, mas uma responsabilidade que desejo assumir diante da existência dos outros.
Há também uma dimensão filosófica nessa escolha. Em A ética da ambiguidade, Simone de Beauvoir reflete sobre a liberdade humana e sobre a responsabilidade de construir uma existência que reconheça também a liberdade alheia. Essa perspectiva me ajuda a compreender que viver de acordo com aquilo em que acredito não significa simplesmente satisfazer meus desejos individuais, mas procurar estabelecer alguma coerência entre meus valores e minhas ações. Não posso controlar inteiramente o mundo, impedir todas as injustiças ou garantir que minhas atitudes sejam compreendidas. Posso, entretanto, perguntar a mim mesma que espécie de pessoa desejo ser diante das circunstâncias que encontro. Posso escolher não transformar uma ofensa em outra ofensa, não reproduzir uma crueldade apenas porque fui ferida, não abandonar a compaixão porque o mundo frequentemente parece indiferente, não me alimentar de produtos animais para não ferir outros seres. Essas escolhas não me tornam moralmente superior a ninguém, nem me protegem dos meus próprios erros. Apenas representam uma tentativa cotidiana de aproximar a vida concreta daquilo que reconheço como verdadeiro. Talvez seja justamente nessa aproximação, sempre imperfeita, que encontro uma forma de legitimar minha existência.
Quando digo que viver conforme acredito é uma legitimação da minha existência, não quero dizer que precise conquistar o direito de existir por meio de comportamentos virtuosos. A dignidade humana não depende de merecimento, produtividade ou aprovação moral. O que desejo expressar é algo mais íntimo: a sensação de reconhecer minha própria vida como uma vida que posso assumir. Durante nossa trajetória, somos atravessados por expectativas familiares, exigências profissionais, convenções sociais e inúmeras ideias sobre aquilo que deveríamos desejar. Podemos passar muitos anos tentando corresponder a essas expectativas sem perguntar se elas representam verdadeiramente nossos valores. Carl Rogers, ao refletir sobre o processo de tornar-se pessoa, atribuiu importância à congruência entre a experiência vivida e a maneira como nos compreendemos e nos expressamos. Essa ideia me parece especialmente significativa. Quero que exista alguma continuidade entre aquilo que penso, aquilo que sinto, aquilo que escrevo e a maneira como trato as pessoas e os animais. Sei que essa coerência nunca será absoluta, porque também sou feita de contradições, impaciências e limitações. Mas desejo que a delicadeza seja uma direção para a qual eu possa retornar, inclusive nos momentos em que não conseguir praticá-la plenamente.
A delicadeza que escolho também precisa incluir a maneira como me relaciono comigo mesma. Ser delicada não pode significar aceitar tudo, silenciar diante de injustiças, abandonar meus limites ou responsabilizar-me permanentemente pelo bem-estar de outras pessoas. Durante muito tempo, a sensibilidade foi confundida com fragilidade, e a bondade, com a obrigação de suportar aquilo que nos machuca. Hoje, prefiro compreender a delicadeza como uma forma de força que não precisa recorrer à violência para afirmar-se. Posso estabelecer limites com respeito, discordar sem humilhar e defender aquilo em que acredito sem transformar a divergência em desprezo. Também posso reconhecer meu cansaço, minhas necessidades e meu direito ao descanso. A delicadeza não deveria exigir o desaparecimento de quem a pratica. Ao contrário, acredito que ela se torna mais verdadeira quando inclui o cuidado com a própria existência. Quero viver muitos anos, aprender continuamente, escrever meus livros, cultivar meus afetos e envelhecer sem abandonar a sensibilidade que considero uma das partes mais preciosas de mim. Não desejo uma vida perfeita, mas uma vida na qual possa reconhecer, mesmo entre dificuldades, a permanência daquilo que escolhi amar.
Talvez seja por isso que minha inversão da frase de Rimbaud tenha adquirido um significado tão pessoal. “Por delicadeza, ganhei minha vida” não é uma afirmação de que a delicadeza me poupou de sofrimentos, de que minhas escolhas sempre foram acertadas ou de que o mundo me recompensou por aquilo em que acredito. É, antes, a declaração de que encontrei nessa maneira de existir uma razão para continuar construindo minha própria história. Ganhei minha vida porque compreendi que não preciso endurecer para pertencer ao mundo, nem renunciar à sensibilidade para ser forte. Ganhei minha vida porque posso escolher a ternura sem desconhecer a realidade, cultivar a gentileza sem abrir mão da dignidade e reconhecer a beleza das pequenas coisas sem ignorar as grandes dores humanas. Ganhei minha vida porque desejo que meus dias sejam habitados por aquilo que considero essencial: o amor, o conhecimento, a escrita, o cuidado, a liberdade e o respeito pela existência alheia. E, se um dia eu puder olhar para trás, depois de muitos anos vividos, gostaria de reconhecer não apenas aquilo que realizei, mas sobretudo a maneira como procurei viver. Gostaria de saber que permaneci, tanto quanto me foi possível, fiel à pessoa que desejei ser. Porque, para mim, a delicadeza não é apenas uma maneira de atravessar a vida. É o próprio propósito de vivê-la. E viver conforme aquilo em que acredito é a forma mais profunda que encontrei de reconhecer minha existência como verdadeiramente minha.
Referências
RIMBAUD, Arthur. Uma temporada no inferno; Iluminações. (A frase “Par délicatesse, j’ai perdu ma vie” pertence ao poema “Chanson de la plus haute tour”, de 1872.)
BEAUVOIR, Simone de. Por uma moral da ambiguidade. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.
ROGERS, Carl R. Tornar-se pessoa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
FROMM, Erich. A arte de amar. São Paulo: Martins Fontes, 2000.